3×3: a história do basquete de rua no Brasil

Com sua magia internacionalmente reconhecida, o basquete de rua, ou streetball, começou a despertar no Brasil um interesse especial nos idos de 2004, quando foi fundada a Liga Urbana de Basquete (LUB). O esporte é, reconhecidamente, uma das melhores vias para a socialização dos jovens, tendo em vista os valores positivos que sua prática dissemina: a solidariedade, o espírito de grupo, a busca da superação por meio do esforço focalizado. Ao mesmo tempo, a chamada “cultura urbana” é portadora de elementos capazes de aglutinar a juventude de maneira positiva, com enfoque na música, na dança e nas artes.

Foi com essas ideias em mente que se criou a LUB, que também se mostrou um importante instrumento de afirmação da identidade e da cidadania dos jovens brasileiros e, consequentemente, como ferramenta de combate à violência e aos males associados à desigualdade social e ao racismo.

Centrada na promoção do streetball, sem restrição de classe social, mas com uma especial preocupação com os jovens carentes das cidades situadas nas periferias das regiões metropolitanas, a LUB estabeleceu uma rede de parceiros e apaixonados pelo desenvolvimento do seu projeto, incluindo órgãos governamentais, empresas privadas e associações esportivas. Todos motivados em explorar caminhos que pudessem abrir novas perspectivas para a juventude.

Daí a ideia de casar o basquete de rua – que tem se mostrado de grande apelo para os jovens, além de ser fácil de praticar – com a chamada cultura urbana.

Cultura das ruas

hip hop menorEste movimento surgiu nos bairros pobres das cidades americanas em resposta à exclusão social, ao racismo e à crise econômica que o país atravessava, em função da quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929. A partir do final da década de 1970, a cultura urbana começou a ser puxada pelo movimento hip hop, cujo estilo se reflete nas letras dos rappers, na dança (o break), nas gírias, no grafite e na moda – não por acaso, inspirada no basquete americano.

O hip hop chegou ao Brasil no início de década de 1980 por intermédio das equipes de som, das revistas, dos discos, filmes, vídeo clipes e programas de TV.

Para praticar o streetball, o importante é ter estilo – tanto no jogo quanto no modo de vestir. As regras são simples (apenas uma cesta, meia quadra e três jogadores em cada time) e flexíveis, pois privilegiam a força, a ousadia e a improvisação. Tudo isso embalado ao som do hip hop.

Brasil entra e quadra
O basquete de rua no Brasil teve seu início da mesma forma que outras modalidades como o futebol, o handebol, o basquetebol e o voleibol. Entre os citados, este último, devido à necessidade de equipamentos como rede, traves e bolas, era mais complicado de ser praticado nas ruas. Consequentemente, era mais fácil encontrar os espaços prontos para peladas, de futebol, ou “rachas” e “pegas”, de basquete. O handebol tinha sua versão conhecida como “queimada”, jogado em quadras de escolas, pátios e praças.

Estes “rachas” em todo Brasil eram comuns, misturando as várias faixas etárias e classes sociais. Na época, o lugar ideal para o seu desenvolvimento eram os clubes que reuniam as comunidades locais, formando equipes que disputavam competições no âmbito amador e profissional em seus estados.

Os mais talentosos participavam como federados em suas agremiações, disputando regionalmente e nacionalmente os campeonatos existentes. Por conta disso, o basquete se tornou a segunda modalidade mais praticada no país (futebol em primeiro). Mas foi perdendo este posto para o voleibol, a partir de 1981, graças à organização desta modalidade dentro de um ambiente de elevado profissionalismo, que resultou na obtenção de títulos internacionais.

Esporte e cidadania
Diferentemente do que acontece em solo americano, onde o basquete tem seu foco no esporte de alto rendimento, no Brasil a situação foi diferente. O basquete de rua surge com um viés social, ou seja: entretenimento como o irmão americano, mas como uma ferramenta de transformação social.

A competição é válida como em qualquer esporte, mas a conquista da cidadania plena tornou mais atraente e desafiadora a sua implementação.

No segundo artigo da série (disponível para leitura a partir de quarta-feira 22, às 11h30min) você vai conhecer os pioneiros das ruas e os atletas que fizeram e fazem história do streetball no Brasil.

Até lá!

 

1543447_10203192236113904_1524263152_sAsfilófio de Oliveira Filho é graduado em engenharia com especialização em administração esportiva pela FGV/RJ e pós-graduado em marketing pela ESPM. Foi presidente do Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto, presidente da Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj) e hoje coordena a Liga Urbana de Basquete e a Associação Brasileira de Cultura Urbana.

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