Em busca das raízes

Quem são: Flora Pereira e Natan Aquino
Por que são importantes: criaram o Afreaka, um projeto audiovisual e literário que busca resgatar os valores da África, a partir de um olhar desprovido de estereótipos

Na adolescência, a paulistana Flora Pereira da Silva, de 27 anos, assistiu um documentário sobre a África e ficou fascinada. A partir daí, tomou uma decisão: iria estudar jornalismo ou cinema para poder cobrir as guerras, as epidemias, as tragédias humanitárias e tudo mais o que rolava nos 54 países que formam o continente. Aos poucos, no entanto, ela foi notando que esta visão sobre a África estava bastante distorcida e muito unilateral. O tempo passou e ela se graduou em jornalismo e se tornou uma especialista autodidata sobre o continente. A partir daí, usou o inconformismo e a capacidade de contar histórias como uma alavanca para tentar mudar a situação. Desde agosto de 2012 eles vêm cumprindo esta missão por meio do projeto Afreaka, um mergulho iconográfico e cultural pelos países que contribuíram com a formação da ancestralidade da maior parte dos brasileiros. “Em São Paulo, muitos descendentes de europeus estão sempre citando sua ancestralidade”, destaca. “Mas raramente ouvimos alguém falar sobre suas raízes africanas.”

Para Flora, em um país miscigenado como o Brasil a presença da África deveria ser muito mais marcante nos registros escolares, por exemplo. “No meu tempo de colégio, lembro que a presença do continente nos livros de história se resumia a duas ou três páginas”, diz. “Metade delas falando sobre escravidão.” Para fazer o que classifica de “jornalismo independente, por uma África sem estereótipo”, ela e o namorido Natan Aquino, de 29 anos e que atua como designer e trabalhou nesta área em renomadas agências situadas em Roma, se lançaram em expedições pelo continente.

Em dois anos já fizeram duas expedições. A última delas se encerrou em junho e incluiu Senegal, Quênia, Burkina Fasso, Benin e Nigéria, num total de seis países, onde ficaram por sete meses. Nas conversas com pessoas comuns, artistas, líderes locais e moradores de vilas perdidas pelo interior, descobriram um povo vibrante que luta para resgatar sua identidade, após um longo período de neocolonialismo. Os textos jornalísticos e audiovisuais enfocam o dia a dia das pessoas, os movimentos culturais e as tradições locais.

Este rico acervo já rendeu exposições em estações do metrô de SP e também em centros culturais. Além disso, vem servindo de dinâmica para projetos de sensibilização de alunos e professores sobre o tema. “Aquela África rural, com florestas densas e cheias de elefantes existe apenas no imaginário construído por uma visão parcial,” explica. “O que vimos foram metrópoles onde a agitação cultural e a vida econômica floresce, exatamente como acontece em cidades como São Paulo.”

Um detalhe chama atenção dos interlocutores do casal, além da genuína paixão com que falam deste projeto: nenhum deles é afrobrasileiro. Flora diz que sempre se sentiu africana. “A contribuição dos africanos às riquezas e ao dia a dia do Brasil sempre me fascinou”, diz. “Por isso sempre me senti africana, também.” Para ela, a grande contribuição da Afreaka é mostrar que a beleza cultural e dos seres humanos que vivem em cada canto deste desafiante continente. “Parte das histórias serão reunidas em um livro que pretendemos lançar em 2015”, adianta Flora.

 

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