Nas asas dos negócios

Mais que um meio de transporte, o avião sempre foi visto como um veículo de afirmação social, um objeto do desejo acessível apenas a poucos afortunados. Ao contrário do que acontece na maioria dos países. Aliás, uma socialite carioca já deplorou o fato de o porteiro de seu prédio ter “invadido este mundo exclusivo”.

Mas, deixemos essa infeliz de lado e vamos ao que nos interessa. De fato.

Em um país continental como o Brasil, no qual os movimentos migratórios são intensos e os deslocamentos são constantes, todos os dias tem alguém embarcando em uma cidade da região norte em direção ao sul. E vice-versa.

Só que muitos destes percursos são feitos de ônibus. Muitas horas, e até longos dias, sacolejando dentro de um veículo desconfortável e nem sempre seguro. Na maioria das vezes, pagando caro por isso. Um cenário perfeito para um empreendedor disposto a seguir a cartilha do bom capitalismo: transformar oportunidade em negócios.

Foi isso que fez um grupo de empresários paulistanos, em 2009, com a criação da Vai Voando, a primeira agência de viagens especializada nos consumidores de baixa renda. Desde então, nada menos que 206 mil brasileiros (levando-se em conta o acumulado até o mês de fevereiro) embarcaram em viagens de lazer ou de negócios. A grande maioria deles se aboletou dentro de uma aeronave pela primeira vez.

É inegável que a oportunidade para investir neste contingente da pirâmide de consumo surgiu a partir de programas de distribuição de renda e da melhoria da economia, ocorrida principalmente a partir de 2007. Mas pesou o fato de a direção da empresa ter feito uma leitura mais atenta, mais apurada e despida de preconceitos de classe deste Brasil que surgiu a partir de então.

“Viajar de ônibus é muito desconfortável. As pessoas mais humildes sabem disso. Mas muitos deles optavam por este tipo de transporte porque, em seu imaginário, o avião é algo caro e que não foi feito para eles”, explica Luiz Andreaza, gerente de marketing da Vai Voando.

Baseada no centro da cidade de São Paulo, a agência também inovou na forma de captar clientes. Em vez de operar com lojas cheias de fru-fru instaladas em shopping-centers e ruas badaladas, apostou em bairros populares, além de ter nomeado revendedores dentro de favelas. Neste caso, ela atua com parceiros como a Favela Vai Voando, uma das empresas do portfólio da Favela Holding, criada pelo empreendedor carioca Celso Athayde.

Foto: loja no Rio de Janeiro/Divulgação
Foto: loja no Rio de Janeiro/Divulgação

No total, a Vai Voando conta com 134 parceiros ativos que comandam 206 pontos-de-venda de Norte a Sul do País. O modelo de negócio é bem interessante, pois permite que os clientes comprem as passagens a prazo, com o preço acertado no ato da assinatura do contrato. Isso dá previsibilidade a quem compra e garantia de assento ocupado às empresas aéreas que, muitas vezes, têm de colocar as aeronaves no ar mesmo com um número reduzido de passageiros. “Nosso nível de inadimplência é baixíssimo. Mesmo em épocas de dificuldade econômica”, conta o executivo.

A seguir alguns trechos da entrevista exclusiva que Andreaza concedeu recentemente a 1 Papo Reto.

Quantos passageiros já embarcaram nas “asas” da Vai Voando?

Desde o início da Vai Voando foram realizadas 127 mil vendas, totalizando 206 mil passageiros embarcados.

A taxa de crescimento da empresa tem sido expressiva, devido a sua capilaridade e ao seu modelo diferenciado. Qual a expectativa para este ano?

Nesses quase seis anos temos crescido exponencialmente, geralmente alternado um ano de `adequação´ e outro de `aceleração´. Em 2011 crescemos cerca de 450%, em 2012, foi 42%, em 2013, foi 259%, em 2014, foi 21%. Para 2015 acreditamos que poderemos avançar num patamar de 44%. Saindo de uma empresa que vendeu um milhão de tíquetes,  em seu primeiro ano, para algo próximo de 50 milhões.

O sr. está animado em relação a 2015, mesmo com o anunciado recuo da economia?

Foto: Quiosque de venda de passagens/Divulgação
Foto: Quiosque de venda de passagens/Divulgação

Sim, nosso público alvo é o morador de favelas e de bairros da periferia que tem origem/laços familiares em outros estados. Por isso ele não busca uma viagem de lazer, mas uma viagem de necessidade para rever o pai, a mãe, irmãos etc. Esse público faz isso rotineiramente, entre uma a duas vezes ao ano. Geralmente de ônibus. Sendo assim nossa expectativa não é pessimista como a do setor de turismo em geral que está considerando em sua análise apenas a viagem a trabalho e/ou lazer. Temos um mercado muito grande ainda para explorar.

Quais são os demais segmentos de atuação da Gap Net, a controladora da Vai Voando?

O grupo é formado por várias empresas de turismo, nos segmentos de venda de pacotes, agência corporativa e venda de milhas, além de uma empresa de eventos.

 

(Visited 43 times, 1 visits today)