O grande papel do Geledés na luta pela equidade

Independentemente da fonte ou do critério utilizado, um dado sempre salta aos olhos em todas as pesquisas sobre gênero e renda: o papel da mulher na sociedade brasileira ainda está muito longe de ser reconhecido. As mulheres representam cerca de metade da força de trabalho. São responsáveis pela geração de renda em cerca de 40% dos lares. São maioria nos cursos superiores (56,4%). Contudo, ainda são tratadas como cidadãs de segunda categoria. A começar pelo mercado de trabalho, onde mesmo as profissionais de nível superior recebem abaixo do salário pago, em média, aos homens.

Mas se o quadro é ruim para as mulheres, em geral, ele se torna ainda mais perverso no caso das mulheres negras. Afinal, além do machismo elas ainda têm contra si o racismo institucional. É neste contexto que a longevidade de organizações de militância como o Geledés – Instituto da Mulher Negra deve ser louvado. No momento em que completa 30 anos, o Instituto está organizando uma série de debates, em São Paulo, a partir da quinta-feira 5/3 (veja a programação no link, no final deste texto).

O Geledés nasceu dos esforços de um grupo de ativistas na luta contra o racismo institucional e pela promoção das mulheres negras na efervescência política e social propiciado pelos debates e torna da Constituinte, em meados da década de 1980.

Nesta entrevista, a socióloga Suelaine Carneiro, coordenadora do Geledés, fala do trabalho realizado pela entidade e de alguns dos muitos desafios vividos por este recorte da população. Afinal, mais do que estatísticas e números, estamos falando de pessoas. “O que defendemos é que as pesquisas e os estudos superem a mera descrição de dados e números sobre a situação das mulheres negras e passem a identificar os mecanismos sociais e ideológicos que operam para a manutenção das hierarquias de raça e gênero”, diz.

A seguir, os principais trechos deste inspirador bate papo.

O Geledés se firmou como um interlocutor qualificado no debate sobre os problemas e as angústias das mulheres negras. Quais seriam as principais vitórias do grupo nesta trajetória?
O Geledés – Instituto da Mulher Negra surgiu durante o processo Constituinte (que deu origem à Constituição promulgada em 1988) e, nessas três décadas, a organização participou das principais ações contra o racismo e o sexismo no país. Um resultado direto disso foi dar visibilidade às mulheres negras como um grupo social que merece prioridade no âmbito do real compromisso com a democracia e a equidade. Nesse sentido, exigimos que suas especificidades fossem contempladas nos movimentos feminista e negro, além de políticas públicas específicas que alterassem uma configuração de sociedade marcada por hierarquias e subalternidades a partir da raça e do sexo. Como resultado dessas ações, podemos citar algumas, como as cotas nas universidades e a lei Maria da Penha. Dentro da organização, atuamos com programas específicos, como o SOS Racismo, de atendimento às mulheres vítimas de violência, o Geração XXI, o primeiro projeto de educação racial para jovens negros, a revista Pode Crê, a primeira publicação elaborada por rappers negros, e a formação de professores para a implementação da Lei 10.639/96, que estabelece o ensino da história e cultura afro-brasileira. 

Quais fatores são preponderantes para explicar a condição de atraso da mulher negra, no Brasil, em todos os campos?

Está mais do que explícito que as desigualdades de gênero recaem de forma mais cruel sobre as mulheres negras, pois nelas se convergem as opressões de raça, classe e gênero. O fato de as mulheres negras permanecerem em condição desfavorável em todos os indicadores sociais e na base da pirâmide social brasileira impacta em um cotidiano de violências e privações de todos os tipos, inclusive econômicas, reforçando a ideia de que há um longo caminho para o enfrentamento das desigualdades e do racismo. Soma-se a isso a constante desvalorização das características étnicas dessas mulheres, com a desvalorização, por exemplo, da beleza negra. O que defendemos é que as pesquisas e os estudos superem a mera descrição de dados e números sobre a situação das mulheres negras e passem a identificar os mecanismos sociais e ideológicos que operam para a manutenção das hierarquias de raça e gênero, impedindo que os esforços realizados pelas mulheres negras, particularmente no campo do ensino, não resultem em melhores salários ou na ocupação de melhores colocações no mercado de trabalho.

É inegável que a pauta do feminismo negro entrou no debate nacional. Um fator neste sentido é o aumento do número de lideranças neste debate, com o detalhe de serem cada vez mais jovens. Você enxerga um futuro melhor neste campo? Caso positivo/negativo, por quê?

Sem dúvida nenhuma vivemos a renovação e ampliação do movimento feminista, com o protagonismo indiscutível das jovens mulheres negras, que, a todo o momento, reafirmam seu lugar e direito à fala, a denúncia do genocídio e todas as opressões do machismo. Elas, com muita coragem e ousadia, continuam a luta por uma sociedade democrática e igualitária, mantendo viva a chama por um mundo melhor, o que é extremamente positivo. Contudo vivemos tempos de autoritarismo, de recrudescimento do racismo e do machismo, onde as garantias constitucionais, assim como as políticas públicas voltadas para a equidade estão sobre frontal ataque, colocando em risco os poucos avanços conquistados por mulheres e negros nessas últimas décadas. Portanto, hoje o que se coloca para todos os brasileiros, de todas as gerações, é o firme compromisso com a democracia, com a justiça e com o direito à vida de pessoas negras e não negras, para que a nossa crença em um futuro melhor em nosso País se concretize.

 

SAIBA MAIS

Sobre gênero e raça no mercado de trabalho

Sobre o trabalho do Geledés

Sobre a programação do seminário de 30 anos do Geledés

 

Nota da redação: Texto modificado às 9h40 de 5/4. Por um erro de edição, as respostas foram atribuídas a Sueli Carneiro, fundadora do Geledés. Pedimos desculpas pela falha. 

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