O mundo de olho no lixo brasileiro

Alguns temas sociais são considerados cláusulas pétreas em todas as campanhas políticas. A lista inclui saúde, educação e segurança. Ocorre que da mesma forma que se fala muito nos problemas derivados pela falta de saúde, de educação ou a insegurança, pouco se faz, na prática, para debelar o problema. Especialmente quando analisamos o que acontece em países emergentes como o Brasil, no qual vigora a política do “cobertor curto”. Se cobrir um lado, vai descobrir o outro.

Na visão do presidente da International Solid Waste Management Association (ISWA), Antonis Mavropoulos, existe uma forma abrangente de tratar dos principais problemas que afetam especialmente os países pobres e em desenvolvimento. “A solução é acabar com os lixões a céu aberto”, disse em encontro com jornalistas na sede da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

A afirmação está baseada em um estudo conduzido pela ISWA que alerta para os malefícios causados pela permanência de lixões. Profundo conhecedor do tema em nível global, e muito familiarizado com a realidade brasileira, Mavropoulos assumiu o cargo em setembro último, disposto a “dar um gás” no debate sobre a disposição de resíduos.

Mavropoulos, presidente mundial da ISWA

Para isso, vem trabalhando intensamente com pesquisas e levantamento de dados. O primeiro deles, deu origem a um mapa interativo (veja detalhes no link abaixo) que mostra a dimensão do problema em escala global. Os 50 maiores lixões do planeta já têm um impacto descomunal na vida das pessoas:

– A montanha de 817 milhões de m² de resíduos depositados nestes locais ocupa uma altura equivalente a 200 pirâmides de Gizé, no Egito

– 64,3 milhões de pessoas são impactadas negativamente por estes aterros, número semelhante ao da população da França

– US$ 2,5 bilhões serão gastos, no período 2016-2021, no tratamento de doenças relacionadas aos efeitos causados por estas áreas

–  750 mortes foram registradas entre dezembro de 2015 e julho de 2016 em decorrência de doenças relacionadas à contaminações causadas pelos lixões

– Cerca de 10% das emissões de gases que causam o efeito-estufa são emitidos por estas áreas, até 2025

– US$ 12 bilhões são movimentados por quadrilhas que atuam com a destinação ilegal de materiais tóxicos e/ou controlados como lixo hospitalar e metais pesados

Para o dirigente da ISWA, estes números, no entanto, representam apenas a ponta iceberg. O que o leva a fazer um prognóstico muito mais alarmante. “Se nada for feito, num futuro próximo estas áreas se transformarão em vetores de pandemias”, destacou.

O alerta pode soar um tanto quanto exagerado. Afinal, cerca de 100 milhões de brasileiros vivem em regiões sem saneamento básico e as taxas de mortalidade vêm caindo no país. OK. Contudo, nem sempre os efeitos deletérios da poluição atmosférica, da contaminação do solo e do lençol freático são relacionados à existência dos depósitos irregulares de resíduos.

Apesar da magnitude do problema e dos evidentes benefícios, o presidente mundial da ISWA reconhece que o debate em países como o Brasil ainda esbarra em diversos problemas. O principal deles é a questão política. “Muitos administradores ainda acreditam que lidar com essa questão beneficia apenas as indústrias do setor”, diz.

Para colocar o debate em sua dimensão exata, o presidente da Abrelpe, Carlos Silva Filho, pretende alterar a forma de tratar a questão do lixo no Brasil. Para isso, inspirada na ação da entidade global, da qual é vice-presidente, ele lançou um amplo e ambicioso estudo destinado a ajudar no fechamento de cinco lixões, situados nas seguintes cidades:

Brasília: o Lixão da Estrutural fica a 15 km da Esplanada dos Ministérios é o segundo maior do mundo. Perde somente para o de Jacarta (Indonésia)

Carpina: o aterro da cidade do interior de Pernambuco recebe até mesmo lixo hospitalar

Camacan: além de causar problemas ambientais e de saúde, o lixão está invadindo a rodovia BA-251

Divinópolis: situado na Região Metropolitana de Belo Horizonte, atende 220 mil habitantes e é uma das principais fontes de poluição do rio que abastece a cidade

Jaú: a área é usada como depósito de resíduos dos 150 mil habitantes da cidade do interior de São Paulo. Além disso, recebe dejetos de indústrias calçadistas

Carlos Silva Filho, presidente da Abrelp

Os estudos serão bancados com a verba de 6,2 mil euros que a ISWA dispõe para projetos nesta rubrica. “O Brasil foi o primeiro a solicitar os recursos e a começar a colocar em prática o plano global de acabar com 50 lixões, até 2030”, explica o presidente da Abrelpe.

No roteiro da visita do presidente da ISWA constou uma passagem por Brasília, na terça-feira 17, quando Mavropoulos acompanhou a inauguração do primeiro aterro sanitário de Brasília. Na capital federal, ele também manteve encontros com técnicos do Ministério do Meio Ambiente para mostrar o projeto global e falar do que será feito no Brasil.

Por aqui, a ideia é fornecer subsídios às prefeituras e governos estaduais dispostos a encarar o problema de frente. Afinal, nada menos do que 3.300 municípios ainda despejam o lixo em áreas a céu aberto, apesar do que prega a Lei de Resíduos Sólidos e a Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010. Pelas contas da Abrelpe, 76,5 milhões de brasileiros são impactados pelos lixões que deveriam ter sido fechados em 2010.

A solução do problema vai custar caro. Pelas contas da Abrelpe, seria necessário desembolsar R$ 7,5 bilhões até 2023 para dar conta do problema. Apesar do volume significativo de recursos, especialmente  numa época de crise econômica como a vivida por diversas prefeituras e estados, a entidade defende que a sociedade sairia no lucro. Afinal, a manutenção de lixões e os custos advindos de sua operação (especialmente os gastos com o tratamento de doenças associadas à poluição), além da recuperação ambiental das áreas degradadas exigem um desembolso ainda maior de recursos: R$ 13,5 bilhões.

 

SAIBA MAIS:

Sobre o Roadmap for Closing Waste Dumpsites

Sobre a Política Nacional e Resíduos Sólidos (PNRS) do Brasil

Sobre o Lixão da Estrutural, em Brasília

 

* A ilustração que abre esta reportagem é de autoria da agência Me Gusta e foi extraída do cartaz de divulgação do sétimo Fórum Internacional de Resíduos, realizado pelo Instituo Venturi.

 

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