Tragédia anunciada e consumada

Na semana em que abriga o 8º Fórum Mundial da Água, evento realizado em Brasília, o Brasil dá mostras de que está muito longe de ter uma política hídrica racional. Especialmente nas Regiões Metropolitanas das capitais. A começar pela anfitriã das delegações de mais de 100 países, que vive um estresse hídrico que já dura mais de um ano.

Em polos opostos, a situação não é muito diferente. Fenômeno idêntico castiga tanto partes importantes da região Amazônica quanto do interior do Rio Grande do Sul. Resultado: a perda na produção de grãos (milho, feijão e arroz) deve ser de quase 10%. No caso da soja, carro-chefe de nossa pauta de exportação, a quebra da safra é estimada em 7%.

Enquanto os moradores do Distrito Federal, que engloba Brasília e as cidades satélites, tentam superar os efeitos do intenso racionamento de água, os debates prosseguem no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Se a matemática, em geral, ainda joga a favor do Brasil (o país concentra cerca de 10% da água doce do planeta) é certo que a gestão deste bem ainda é deficiente.

E as mudanças climáticas não podem ser apontadas como vilãs neste processo. Afinal, praticamente todos os cursos de água (rios e córregos) que cortam bairros populosos das capitais encontram-se poluídos. Não apenas por resíduos sólidos (latas, pedaços de madeira, embalagens plásticas e até utensílios domésticos) como também por esgoto doméstico, em função da baixa cobertura das redes de coleta e tratamento que não atendem nem metade das moradias do país.

MAU EXEMPLO

Neste contexto, a cidade de São Paulo é um grande exemplo de tragédia anunciada. Ou seja, tudo que não deve ser feito. Especialmente nas regiões mais sensíveis da capital, como a Zona Sul, que concentra alguns dos principais reservatórios de água da Região Metropolitana: as represas Guarapiranga e Billings. Foi naquela região, mais especificamente no Jardim Apurá, que se travou a mais recente batalha contra os efeitos danosos da especulação imobiliária patrocinada pela Prefeitura de São Paulo, que culminou na construção de um mega residencial composto de quase quatro mil apartamentos.

A obra começou na gestão do prefeito Fernando Haddad e foi alvo de críticas de moradores e dos ecologistas. Insensível aos apelos, a Prefeitura impôs sua vontade e tocou a obra adiante. A transformação da área remanescente em parque, ainda está no papel, assim como demais equipamentos públicos: creche, escola e posto de saúde. Aliás, nada do que foi prometido para mitigar os efeitos do impacto ambiental foi cumprido!

1 Papo Reto acompanhou essa história desde meados de 2015. Uma seleção de textos sobre a luta dos moradores pode ser conhecida abaixo. Para isso, basta clicar no link no tópico “Sobre a luta para preservar o Parque“, abaixo. 

 

SAIBA MAIS

Sobre inauguração do prédios no Parque dos Búfalos

Sobre a luta para preservar o Parque

Sobre a estiagem no Sul

Sobre os efeitos da seca na Amazônia

 

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