Um novo gás para o Brasil

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Quem é: Cícero Jaime Bley Júnior

Por que é importante: comanda o mais robusto projeto de biogás do País, extraído dos resíduos da criação de animais

Idealista é a palavra que melhor define o paranaense Cícero Jayme Bley Júnior. Engenheiro agrônomo de formação, ele se transformou em um ambientalista de carteirinha ao comandar, ao longo de 10 anos, a usina de reciclagem de lixo de Araucária (PR), onde voltou a ter contato com a agricultura de uma maneira, digamos, meio torta. Isso porque lhe incomodava o fato de o lixo doméstico ser composto majoritariamente de elementos orgânicos (restos de alimentos) para os quais não havia um programa de reciclagem.

Esse tema martelava tanto a sua cabeça que ele passou a pesquisar formas de aproveitar os resíduos. Para aprender mais sobre o tema ele prestou consultoria, de graça, para a Associação Paranaense de Suinocultores, durante quatro anos. "Nestas andanças pela região Oeste do Paraná eu fui compreendendo as razões pelas quais a produção de carnes era tão vulnerável do ponto de vista ambiental", conta. O principal problema era, e continua sendo, o volume de excrementos (urina e fezes) resultantes da criação de suínos. Sem uma destinação correta, os resíduos se tornam potentes agentes de poluição e de degradação do meio rural.

Desde 2003, quando foi contratado pela Itaipu Binacional, Bley Júnior viu a oportunidade de colocar em prática iniciativas capazes de anular este passivo ambiental e ainda gerar dividendos. Tanto para o agricultor como para os moradores das cidades próximas. Isso está sendo feito por meio do programa de biogás, gerado a partir da decomposição das fezes de animais. Trata-se de um projeto robusto, tocada com o suporte de 16 instituições que bancaram a criação da fundação do Centro Internacional de Referência do Biogás (CIBiogas), que funciona dentro do Parque Tecnológico de Itaipu.

Aos poucos as coisas vêm acontecendo. Foram instalados inúmeros biodigestores (responsáveis pela degradação da matéria prima e armazenamento do gás metano) em fazendas e já existe um biogasoduto ligando algumas delas. Com isso, os produtores de Ajuricaba, que antes secavam os grãos ao relento, passaram a utilizar um secador movido a Gás Natural Renovável (GNR). A próxima etapa será a construção de uma termelétrica para abastecer prédios públicos, além da iluminação das vias públicas de Entre Rios do Oeste.

Bley Júnior se considera um embaixador do GNR. Segundo ele, esta opção poderia garantir a independência energética de inúmeras comunidades rurais, além de viabilizar a interiorização de agroindústrias. Sem contar a possibilidade de tornar as fazendas autossuficientes em energia. Inclusive no que se refere à mobilidade. Para isso, a equipe comanda por ele já iniciou testes com um trator movido a gás. "Diferentemente dos combustíveis fósseis, como o petróleo, o GNR é sustentável, pois é obtido a partir de atividades controladas pelo homem."

O potencial do biogás no Brasil é muito expressivo. Levando-se em conta apenas o aproveitamento dos resíduos decorrentes das empresas alimentícias e do setor sucroenergético a produção de gás seria suficiente para abastecer a cidade de São Paulo pelo período de um ano. "O gás de xisto representou a independência energética dos Estados Unidos, em relação ao petróleo. Trata-se de um papel semelhante ao que o GNR pode fazer pelo Brasil."