Do entulho ao pó que vale dinheiro

Quem é: Sebastian Pereira

Porque é importante: criou a Sebanella, empresa baseada em Canoas (RS) e uma das pioneiras no processo de reciclagem de gesso no Brasil

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Em meados de 2011, o uruguaio radicado no Brasil Sebastian Pereira participava de uma reunião na sede de uma empresa de fertilizantes em Porto Alegre. O encontro fora marcado para acertar a venda de mais uma carga de cimento da indústria da qual ele atuava como representante. Mas o papo foi interrompido por um tema que nada tinha a ver com a conversa. “Um dos diretores mudou o foco da conversa para reciclagem de gesso”, recorda Pereira. “Na época eu não entendia nada deste segmento, mas fiquei curioso”. Esse encontro acabou se tornando o embrião da criação da Sebanella, baseada em Canoas, cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre e uma das pioneiras do país na reciclagem de gesso descartado pela construção civil.

Entre o dia da reunião e a fundação da empresa, em 3 de agosto de 2012, Pereira gastou muita saliva, muita sola de sapato e muitas noites em claro estudando o tema. É que até então, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) não obrigava a reciclagem do gesso, indicando sua deposição em aterros convencionais. É claro que nem precisa dizer que uma parte expressiva do material acabava sendo depositado em locais clandestinos. Um grande erro, pois, devido as suas propriedades químicas, o gesso pode se converter num grande poluidor de cursos de água. Mais. O contato com a umidade ou o calor propiciam o surgimento de compostos venenosos como gás sulfídrico e dióxido de enxofre.

Em suas andanças, Pereira descobriu que o elevado custo de deposição do material nos aterros, cerca de R$ 1 mil por cada caçamba, fazia com que empresas de pequeno porte recorressem a expedientes pouco ortodoxos. “Com apenas R$ 160 era possível contratar alguém para se livrar do problema”. Diante desta realidade, o empreendedor decidiu cobrar o mesmo que as empresas “alternativas”, mas embutindo na conta uma espécie de taxa de serviço ambiental no valor de R$ 60. Quebrou a cara.

“No final, acabei decidindo não cobrar nada, determinando apenas que a mercadoria fosse entregue no pátio da minha empresa”, conta. Foi a aí que o negócio começou a ganhar escala. A entrada de matéria prima subiu de 300 toneladas mensais, da média do primeiro ano, para as atuais 1,4 mil toneladas. Para se manter atuante em momentos de baixa do setor de construção civil, Pereira criou entrepostos de armazenamento e coleta do gesso oriundo de pequenas obras. Seu ganho se dá como resultado da diferença entre o gasto com o processamento (energia, impostos e mão de obra) e o valor de venda do pó. O produto é usado na composição de fertilizantes, como corretor do PH do solo, e também na indústria cimentícia. Este último, absorve 100% da produção da Sebranella. 

Lembra, caro leitor, que essa história começou dentro de uma fabricante de fertilizantes? Pois é, foi graças a um acordo camarada que Pereira conseguiu erguer o negócio. O equipamento para moagem do gesso foi comprado pela empresa e entregue como adiantamento da venda do produto. Coube a Pereira arcar com o restante: correias de transporte, peneiras e uma retroescavadeira usada. “Em valores atuais, teria de desembolsar pelo menos R$ 800 mil para montar o negócio”.

Apesar de não existirem estatísticas precisas, a importância da reciclagem de gesso é senso comum entre ecologistas. A começar pelo fato de sua produção se concentrar no sertão de Pernambuco, onde estão situadas 90% das jazidas do Brasil. Além disso, de todo o entulho gerado na construção civil, o gesso responde por 5%. A reciclagem e a reincorporação das sobras na cadeia produtiva reduzem a pressão sobre a atividade mineradora, além de possibilitar uma menor emissão de dióxido de carbono gerado no transporte do material para os maiores centros consumidores, o eixo Sul-Sudeste.