Contrastes de uma cidade ao som de rock

A capivara, o rio poluído e o rock and roll

Noite de sexta-feira 22 de setembro. Por volta das 19h, eu caminho pela calçada que margeia o rio dos Passarinhos, em direção à entrada VIP da arena do Rock in Rio. De repente, um integrante da Guarda Civil alerta. “Ih, olha uma capivara!”. Paro, saco meu smartphone, mas percebo que a distância, os poucos recursos da câmera e as águas turvas não me permitem registrar a cena: a capivara se esforçando para ajudar um filhote a comer um tufo de grama na parte mais alta da margem do rio. Sigo em frente, em direção à Cidade do Rock, que abriga o maior evento de entretenimento do país, ligado à cultura pop.

Mas a imagem da capivara segue em minha mente. A partir dela, recordo meus tempos de Rio de Janeiro, onde morei até os 30 anos. Em especial alguns dos recorrentes dilemas vividos pela cidade nos quesitos ambiental e social, dois dos temas basilares desta edição do festival.

Bem, o rio dos Passarinhos é um dos diversos cursos de água que cortam Jacarepaguá em direção à lagoa batizada com o nome do estratégico bairro da Zona Oeste do Rio. Afinal, ele serve de ligação entre a empobrecida e maltratada Zona Norte e a rica e bem-estruturada região litorânea, com suas mansões suspensas e alguns dos edifícios cujo metro quadrado está entre os mais caros do planeta!

E é neste contexto que o rio ganha ainda mais contornos simbólicos. As diversas ondas de especulação imobiliária iniciadas em 1977 com a primeira grande reforma do Autódromo de Jacarepaguá, depois batizado com o nome de Nelson Piquet, e sacramentadas com a implantação do Parque Olímpico, mudaram o ecossistema da região. A retificação de rios e o aterramento de manguezais atenderam à fúria das construtoras que, salvo raras exceções, jamais pensaram nos impactos ambientais.

Fiscais da prefeitura orientam sobre resíduos sólidos

A promessa de mudanças, especialmente na questão ambiental, colaborou para o clima de euforia com a conquista do direito de abrigar os Jogos Olímpicos de 2016. Mais uma das muitas ilusões vendidas aos cariocas. Havia indicações fartas de que a despoluição da Baía de Guanabara, cartão-postal do Brasil aos olhos do mundo, nunca fora levada a sério. Tampouco os projetos de saneamento básico de Jacarepaguá e da Barra da Tijuca. Uma amostra disso é que, até hoje, o rio dos Passarinhos não passa de um fétido valão, como dizem os cariocas que moram no subúrbio.

Não estive neste pedaço do Rio de Janeiro durante as Olimpíadas. Mas fico imaginando a sensação experimentada por um gringo, que pagou uma polpuda quantia para curtir a olimpíada, ao respirar doses cavalares de gás metano e inúmeros metais pesados que emanam dessa água putrefata!

Antes de serpentear por uma parte da avenida Embaixador Abelardo Bueno, onde fica a Cidade Olímpica, ocupada hoje pelo Rock in Rio, o curso d`água passa por diversos condomínios. Alguns de classe média, mas cujos apartamentos e casas estão avaliados na casa do milhão de reais, e outros mais suntuosos com suas imponentes fachadas decoradas com pedras de mármore ou de granito. Mas basta abrir a janela para ter a mesma desagradável sensação de quem mora nos bairros pobres e favelas da cidade.

É, em alguns aspectos, a degradação do meio ambiente afeta ricos e pobres de modo semelhante!

PARTIDA E CONFLAGRADA

Desembarco no Rio numa tarde na qual a temperatura está elevadíssima. Tanto a ambiente quanto a social. O termômetro de rua marca 30 ºC e na Favela da Rocinha, a maior do Brasil, se dá o ápice de uma guerra entre quadrilhas de traficantes. Para garantir um certo ar de normalidade institucional, o Ministério da Defesa, com a anuência do governo local, manda tropas do Exército cercar o local. A tensão domina o noticiário de TV, das rádios e dos jornais.

Neste lado de cá da cidade, uma espécie de bolha chamada Barra da Tijuca – qualificada de forma irônica como a Miami brasileira –, pouco ou nada se fala sobre o tema.

Nem mesmo nas conversas dos ocupantes do BRT, sistema de ônibus que corre em via expressa, que me conduziu entre o bairro da Freguesia, onde desembarquei do carro que me trouxe de São Paulo, até o shopping Metropolitano da Barra, local de retirada da credencial para cobrir o festival. Tampouco ouço comentários do gênero nas diversas rodinhas de bate papo pelas quais passei entre o público do Rock in Rio. Entretanto, o WhattsApp não me deixa esquecer. A cada meia hora minha mulher liga ou manda mensagem para perguntar se estou bem, ou para dizer que está preocupada com a dimensão da violência urbana no Rio. “Toma cuidado”, pede com ar de súplica.

É o que tenho feito desde então!

Tanto que o notebook no qual pretendia escrever minhas crônicas na sala de imprensa da Cidade do Rock foi deixado no quarto que aluguei no sistema de hospedagem compartilhada. Afinal, entre o condomínio e a área de shows é uma caminhada de cerca de 800 metros pela via que margeia o rio dos Passarinhos. Não me sinto seguro para levar meu principal instrumento de trabalho, apesar de ser nítido o reforço do policiamento no local.

Rosenildo, de 1 Papo Reto, na sala de imprensa do festival

Quanto mais perto da entrada VIP, mais agentes públicos, seguranças privadas, agentes de trânsito e um grupo de fiscais de posturas urbanas alertando que jogar lixo na rua rende multa. Vendedores ambulantes, poucos. Idem para catadores de recicláveis. Aliás, apenas na saída do show de ontem eu encontrei um deles, o José, morador de Jacarepaguá que contava em fazer a féria do dia por ali. “Me arrependi. Deveria ter ido para a orla de Copacabana, pois aqui não tem quase nada”, disse.

A segurança ostensiva e a limpeza das vias me remetia a uma paisagem semelhante a dos bairros de classe média de Miami. Citação, aliás, pejorativa dos cariocas quando falam dos conterrâneos que vivem na Barra. No entanto, estamos no Brasil e, mais especificamente, no Rio de Janeiro, onde a sensação de segurança não resiste à comprovação empírica.

Que o digam as centenas de pessoas que tiveram carteiras e celulares furtados ou roubados dentro da arena de shows, especialmente diante do palco. Os gatunos não pouparam nem mesmo um policial civil, de acordo com reportagem de O Globo, reproduzida abaixo.

Pois é, um ecossistema insustentável não fica bom para ninguém!

 

SAIBA MAIS:

Sobre o compromisso ambiental do Rock in Rio

Sobre os rios de Jacarepaguá

Sobre furtos dentro da Cidade do Rock

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