Meio de semana no Jardim São Luiz

(…) “Milhares de casa amontoadas/Ruas de terra/Esse é o morro/A minha área me espera/Gritaria, na feira (…)/Eu gosto assim/É mais calor humano” (…)

 

No caminho entre a Vila Madalena, bairro da Zona Oeste de São Paulo, e o número 651 da avenida Antônio Ramos Rosa, no Jardim São Luiz, na Zona Sul, os versos da música Fim de Semana no Parque (acima), primeiro mega hit dos Racionais, martelam minha cabeça. Sentia-me naquela situação meio clichê de quem faz um tour por locais e regiões cujos nomes soube da existência por meio de poemas, notícias na imprensa ou produções de TV.

Mas o rolê por uma parte do denominado Fundão da Zona Sul não tem qualquer propósito de ser um mergulho sociológico do tipo que, mesmo inconscientemente, lança um olhar desumanizador para as pessoas que vivem no local, tratando-as como personagens de si mesmas.

A Fábrica foi inaugurada em 2012

Ao contrário, o que me atraiu àquela “quebrada” foi a possibilidade de conhecer um equipamento público diferenciado: uma das 11 unidades da Fábrica de Cultura, espalhadas pela capital. Outra fica ali pertinho, no Capão Redondo e a 12ª deve ser aberta, até o final do ano, em Diadema, cidade da região do ABCD, berço da indústria automobilística no Brasil.

A edificação, marcado por linhas retas que acompanham os desvãos do terreno, possui 7,4 mil m² de área construída espalhadas por quatro pavimentos e se impõe na paisagem. Tanto que sua presença começa a ocupar o horizonte bem antes de passarmos na entrada da avenida Fim de Semana, famosa por ter servido de inspiração para a obra dos Racionais.

O prédio pintado de branco, por fora, e marcado pela “brutalidade” do concreto, em sua parte interna, abriga um complexo multiuso, onde a cultura, em suas mais variadas formas, dá o tom. Assim que chego, sou encaminhado à salada de Juliana Aguiar, gerente da unidade que é uma das cinco administradas no sistema de Parceria Público-Privada (PPP) pela Poiesis Organização Social de Cultura.

Mostra fala da história do grafite na Zona Sul

Extremamente atenciosa, ela me leva para fazer um tour pelo local. O vento frio da tarde de inverno transforma o subir e descer de rampas e escadas numa tarefa ainda mais difícil. Mas não menos prazerosa. Por se tratar de período de férias escolares, muitas das oficinas estão paradas. Mas nem por isso, a efervescência é pequena, no local.

A incursão começa pela área contígua à recepção, na qual pode ser apreciada uma exposição com obras de artistas da região como Talita Noah, Ganu, Greco, Zits, Crica Monteiro e Zizi, que atua como arte-educador na unidade. Distantes do olhar de marchands de galerias e museus do circuito convencional da cidade, eles encontram naquele espaço a oportunidade de mostrar suas pinturas, desenhos e fotografias. O que interliga as obras é a narrativa sobre o desenvolvimento e a trajetória do grafite no Capão Redondo e nos jardins Ângela e São Luiz.

As boas surpresas não param por aí. Outro grande destaque, e um dos diferenciais do equipamento cultural, é o amplo e bem equipado estúdio de gravação de música, capaz de abrigar 12 músicos de uma só vez. “Em cinco anos, já realizamos mais de 400 gravações”, nos conta um dos técnicos de som. Cada sessão dura entre quatro e cinco horas e as bandas e artistas que mais acessam os equipamentos são dos gêneros pop rock, rock e rap. “O pessoal do gospel é o mais organizado. Eles já chegam aqui sabendo o que desejam fazer”, completa.

Personagens das peças

Passamos por cerca de 20 salas: de música, de projetos digitais, de oficina de animação, de percussão, de instrumentos de sopro, de dança moderna… até encerrarmos esta primeira parte da visita na biblioteca. Lá, alguns dos cerca de 20 crianças e adolescentes se abrigam do frio ouvindo contação de histórias.

Outros fazem atividades manuais, como dobraduras em papel, ou folheiam livros e revistas. O vento cortante, que nos pega na ida e na volta e se torna especialmente cruel numa tarde em que os termômetros de rua marcam 14º C, me faz pensar em ficar mais tempo no local.

No entanto, ainda havia muito a ser visto. Especialmente o teatro que logo fica evidente tratar-se do xodó de Ju – como a gestora do espaço é tratada por alunos e funcionários. Neste dia, a equipe de manutenção estava fazendo reparos básicos, no espaço. Com capacidade para 364 pessoas, o teatro funciona como o ponto alto do projeto espetáculo, que dura 12 meses e deságua na apresentação para familiares e moradores.

De acordo com a gerente da Fábrica, apesar de a prioridade ser o atendimento às atividades internas (que envolvem cerca de 1,3 mil moradores da região, a cada semestre), existe a possibilidade de cessão do espaço para grupos de fora. Por enquanto quem mais usa são aqueles que participam do circuito cultural da cidade como a Virada Cultural, gerida pela Prefeitura de São Paulo.

Encerrado o périplo, as dores no joelho se intensificam de tanto subir e descer rampas e escadas. Ju, por sua vez, esbanjava disposição. Ao ser questionada sobre a inserção da Fábrica na rotina dos moradores do entorno, ela resolve mostrar essa ligação, na prática, me convidando para fazer uma caminhada nas redondezas.

Para meu desespero!

Oficina de desenho

Tento ao máximo encurtar o trajeto e acabamos seguindo para o Coletivo Dedo Verde, ONG que abriga inúmeros projetos de sustentabilidade, de promoção da cidadania, de cultura e de empoderamento dos moradores do Fundão da Zona Sul. No caminho, aceno para os moradores e jovens que participam das oficinas na Fábrica.

Ao chegar à ONG eu lembro que dias antes havia participado do júri do Concurso Ciclo Vivo, promovido pela Lanxess, e cujo vencedor foi o projeto de Coleta de Óleo de Cozinha vinculado ao Coletivo e encabeçado pelo ativista Renato Rocha. Depois de um rápido tour, rumamos de volta à Fábrica.

Neste instante, Ju tenta me levar para conhecer a célebre avenida Fim de Semana. “Vamos lá, é aqui pertinho”, diz. Declino ao convite, alegando estar atrasado para outros compromissos do dia. Nos despedimos na calçada da Fábrica, ao lado de um imenso terreno arborizado, algo incomum nas periferias de São Paulo e até mesmo em algumas áreas de classe média.

É neste instante que fico sabendo estar em frente ao não menos famoso cemitério São Luiz, onde foi enterrado o maior contingente de jovens negros do Brasil, vítimas da violência, e uma das referências marcantes na música Fórmula Mágica da Paz (abaixo), também dos Racionais.

(…) Dois de novembro, era Finados/ Eu parei em frente ao (cemitério) São Luiz, do outro lado (…) E o que todas as senhoras tinham em comum/ A roupa humilde, a pele escura (…) Colocando flores sobre a sepultura/ Podia ser a minha mãe, que loucura! (…)

 

 

 

SAIBA MAIS:

Sobre o projeto de coleta de óleo usado

Sobre as Fábricas de Cultura

Sobre o Cemitério São Luiz

 

(Visited 111 times, 1 visits today)