"Nossa ascensão é um caminho sem volta

“Nossa ascensão é um caminho sem volta”

Seu nome artístico é quase uma sentença… De vida. Mas o rapper nascido na quebrada de Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte, nunca se sentiu um renegado. Não pela mãe, dona Regina, que sempre cuidou para que o menino bagunceiro tivesse uma vida melhor. Tampouco pelos irmãos: Marco Antônio e Daniele; ou mesmo pelo grupo de amigos e parceiros com os quais se ligou na infância e na mocidade. Foi na música que Flávio de Abreu Lourenço se tornou o Flávio Renegado. Integrante da geração de rappers formada a partir do sucesso dos Racionais MC´s, que surgiu em São Paulo, no final da década de 1980, ele rende tributo aos pioneiros ao destacar que eles funcionaram como um fio condutor para que sua criatividade aflorasse. “Músicas como O Homem na Estrada foram vitais na formação do meu processo artístico, pois narravam a realidade que me cercava”, conta.

O sucesso imediato na carreira (seu primeiro disco Do Oiapoque a Nova York conquistou a crítica e o público, e o levou para a Europa e os Estados Unidos) ajudou o rapper mineiro a tirar do papel iniciativas de ativismo social. Essa vertente é liderada pela Associação Arebeldia Cultural, criada em 2016 e que atua em diversas frentes. Desde a ressocialização de detentos e a formação de mão de obra para o setor cultural (técnicos em iluminação e roadies, por exemplo) até a promoção do empreendedorismo, por meio de eventos econômicos e culturais. Todas as atividades têm como foco as quebradas de Belo Horizonte. “Quando comprei um apartamento para minha mãe, ela me pediu que não vendesse a nossa casa. Hoje, o imóvel abriga a sede da ONG”, conta.

Renegado falou a 1 Papo Reto na tarde de quinta-feira (16/8), após participar de uma roda de conversa na sede da Aceleradora e do Espaço de Inovação Vale do Dendê, situada no Shopping da Bahia, em Salvador. De passagem pela Boa Terra, onde reencontrou amigos do meio musical, o rapper mineiro não desligou o radar de sua vertente empreendedor social. “Quando soube da proposta deste trabalho, eu fiz questão de conhecer”, disse. “Afinal, o segmento de empreendedorismo tem tudo a ver com a minha trajetória”, diz.

De fato. Hoje, além de compor, produzir e viajar o mundo apresentando sua obra, ele gerencia inúmeras atividades de impacto socioeconômico. A menina dos olhos do compositor, que deixou recentemente o Rio de Janeiro para voltar a morar em Belô para ficar mais perto da mãe, é o segmento de gastronomia. Setor no qual vislumbra a forma mais rápida de gerar renda, em bases recorrentes, para as comunidades. “A gastronomia está em alta. Mas neste processo de gourmetização de pratos e receitas, as tiazinhas da favela continuam na cozinha e quem ganha dinheiro é o branco do asfalto”, critica.

Para subverter esta lógica, ele se uniu a Danusa Carvalho para lançar o Circuito Gastronômico das Favelas. A iniciativa é inspirada nas feiras de gastronomia e no concurso nacional Comida di Buteco, mas embute alguns diferenciais. O principal é que os expositores embolsam 100% da renda proveniente das vendas nos locais dos eventos. “Tem alguns donos de botecos e pequenos restaurantes que chegam a faturar R$ 10 mil num único dia!”, celebra. O sucesso do modelo animou o rapper, ativista social e empreendedor a replicar a iniciativa em outras cidades. “Nosso próximo destino é o Rio de Janeiro”, adianta.

"Nossa ascensão é um caminho sem volta
Flávio participa de roda de conversa na sede da Vale do Dendê, em Salvador/Divulgação

Outro eixo que está ganhando consistência no portfólio da ONG é o Festival de Inverno de Vilas e Favelas, realizado no mês de julho, em Belo Horizonte. “Percebemos que a ociosidade, comum nesta época de férias, expunha os adolescentes mais à violência e ao crime”, explica. “Por isso, resolvemos criar uma versão local de um evento muito famoso no circuito das cidades históricas, de Minas Gerais”.

Fora da caixa

Para Renegado, mais do que nunca a periferia tem de criar mecanismos de autodefesa contra a exclusão sistemática, fruto, segundo ele, da herança escravagista. “O racismo institucional impede a ascensão dos negros no Brasil”, diz. “Por isso, precisamos ficar atentos e nos unir, porque as conquistas sociais, ocorridas nos últimos 20 anos, incomodam a muita gente”. O rapper, destaca, no entanto, que se trata de um processo sem volta. “Saímos da caixa e assumimos uma forma e uma proporção que não cabe mais naquele lugar. A nossa ascensão é um caminho sem volta!”

Além de investir na geração de emprego e renda, o rapper também faz questão de quebrar os muros, visíveis e invisíveis, que separam os moradores das quebras dos que vivem no asfalto. “Meu novo CD e o primeiro DVD foram gravados numa praça do Alto Vera Cruz. Foi uma noite linda”, recorda. Todas os serviços foram contratados dentro da comunidade, que pode assistir, de forma gratuita, ao show acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Ouro Preto. “Até o pessoal que atua nas bocas (de fumo) desceu para ouvir o som e se maravilhar com a orquestra”, conta. “Pois é, quem é disse que pobre não gosta de coisa boa!?”

 

SAIBA MAIS SOBRE:

 

O Circuito Gastronômico das Favelas

A ONG Arebeldia

A carreira musical de Renegado

A Aceleradora Vale do Dendê

 

*O jornalista é cofundador da Holding Vale do Dendê, que controla a Escola de Inovação e a Aceleradora Vale do Dendê. 

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