Tecnologia ao alcance das mãos

Dentro do chamado mundo maker, o Fab Lab (abreviação de Laboratório de Fabricação, em inglês) funciona como um espaço no qual a cultura do trabalho colaborativo é cultivada de modo natural. Quase instintiva. Nestes locais, os títulos de doutor, especialista e técnico valem tanto quanto a experiência prática do profissional que sequer concluiu o colegial. Ou daquela curiosa criança que vai construindo saberes a partir da ajuda de jovens, de adultos e do pessoal de cabelo branco com quem vai interagindo. Foi essa atmosfera que vimos numa tarde de quinta-feira quando circulei pelas dependências do Fab Lab Livre Chácara do Jockey.

A visita havia sido marcada a partir da troca de emails com a responsável pela área de comunicação da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo, gestora do projeto. De fato, na tarde em que foram colhidas as informações para produção desta crônica, chamou à atenção o grupo eclético que se aboletava nas cadeiras, o pessoal que operava a fresadora CNC, e aqueles que tentavam fazer decolar um minúsculo drone dotado de câmera e feito de plástico. Na outra sala, um casal de jovens sacudia latas de tinta spray para pintar pedaços de madeira.

A lógica que embasa esta ação da Prefeitura não tem relação com espaços para incubação de startups focadas no sucesso comercial. “Nosso objetivo nunca foi desenvolver projetos milionários”, diz Adolfo Pinheiro Fernandes, coordenador do programa Fab Lab Livre SP. (à direita na foto que abre este texto). “Nossa aposta é no despertar de competências e no estímulo ao saber”.

Lucas (ao centro) com parte da equipe de gestão do Fab Lab do Jockey

Fernandes, que participou da implantação destes equipamentos na gestão do prefeito Fernando Haddad, antecessor do atual, João Doria, é uma espécie de memória viva do programa. Segundo ele, desde o início a ambição era democratizar o acesso a equipamentos que só existem em centros de pesquisa de empresas privadas ou laboratório de faculdades de ponta. Para, a partir daí, eliminar as barreiras de acesso que limitam a competitividade de quem vive na periferia, por exemplo. “Foi por isso que fizemos questão de instalar o primeiro na Cidade Tiradentes (bairro da Zona Leste)”.

Faz sentido. Afinal, o desenvolvimento das competências mínimas exigidas atualmente (afinal, tecnologia deixou de ser algo do futuro para se incorporar ao nosso dia a dia!) só pode ser viabilizado com a formação de um ecossistema favorável. Neste contexto, a disponibilidade de equipamentos é vital. A facilidade de acesso, mais ainda. É por isso que as portas da unidade existente na Chácara do Jockey, no Ferreira, bairro de classe média da Zona Sul de São Paulo, estão sempre abertas. O mesmo vale para as demais 11 unidades espalhadas por bairros populares e a região central da cidade.

Apesar de se tratar de um equipamento público, a unidade é gerida por uma Organização Social, o ITS Brasil – Instituto de Tecnologia Social. Quem cuida da unidade é o animado Lucas Schlosinski Marques Coutinho. Paciente, ele interage com a diversidade de público com muita naturalidade. É Lucas quem agita os jovens para as competições de drone, uma das atividades que dão mais ibope.

O Controlador do Aparato de Microfusão por Plasma

Mas ele também gosta de colocar a mão na massa. Um dos projetos nos quais ele se envolveu foi na criação de uma “madeira plástica”, feita a partir de embalagens descartadas de produtos de limpeza. “O processo envolveu muito estudo e muito debate sobre a sustentabilidade e os problemas gerados pela destinação incorreta de resíduos sólidos”, conta.

Ele não acredita que o processo produtivo, que atende pelo nome pomposo de Controlador do Aparato de Microfusão por Plasma se torne viável do ponto de vista industrial. Porém, aposta na sua utilidade como gerador de conhecimento prático (maker) e de sensibilização para o tema da sustentabilidade.

Ao conhecer a engenhoca quem ficou animado foi o repórter de 1 Papo Reto, que acabou entrando na dança. É que neste dia me fiz acompanhar de minha filha Helena, de oito anos, pois iríamos na sequência, para um compromisso da agenda dela. Foi bacana ver sua alegria ao enxergar , a partir de óculos 3D, os contornos da sala transmitidos pela câmera do ágil drone, produzido por Lucas, com o auxílio de uns garotos do bairro.

 

 

SAIBA MAIS:

Sobre o projeto Fab Lab Livre da Prefeitura de SP

 

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