Das quebradas da Zona Sul, de SP, para todo o Brasil

Das quebradas da Zona Sul, de SP, para todo o Brasil

Tornou-se recorrente falar do potencial de consumo dos brasileiros das classes C, D e E, especialmente dos moradores das periferias das capitais.

Esse discurso quase sempre vem alinhavado com o elevado número de empreendedores existentes nessas regiões. De fato, alguns indicadores dão sentido a esta análise: estudo do Instituto Locomotiva apontou que as favelas e comunidades brasileiras movimentam R$ 168 bilhões, por ano. Outro dado que salta aos olhos é o crescimento no número de micro empreenderes Individuais (MEI), que saltou no ano passado.

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Apesar disso, estes números alvissareiros escondem inúmeros problemas. “Falta infraestrutura em comunicação capaz de dar suporte ao crescimento de negócios baseados em vendas online ou em aplicativos”, lamenta o empreendedor Marcelo Rocha, mais conhecido como DJBola. Ele é um dos fundadores de A Banca, uma produtora musical, cultural e social, nascida em 2000, no esforço de mostrar os valores do Jardim Ângela. “Na época, o poder público e a imprensa só vinham aqui para falar sobre os índices de violência e não para ajudar a apontar caminhos de superação!”.

 

Com o passar dos anos, A Banca foi ganhando musculatura e passou a atuar fortemente com a promoção da cultura empreendedora e o desenvolvimento de negócios da periferia e para a periferia. O trabalho chamou a atenção de entidades “do outro lado do rio Pinheiros” (leia-se Artemisia e FGVcenn, parceiras no programa LAB NIP – Negócios de Impacto da Periferia, destinado a dar um gás em negócios de impacto social, existentes nas quebras. A segunda edição começa a rodas em abril, e terá como foco empreendimentos das periferias das regiões Sudeste e Sul. Para se candidatar é preciso preencher o formulário (link no final do texto). Os aprovados receberão capital semente e a chance de conseguir um reforço de caixa que pode chegar a R$ 15 mil.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por DjBola, de A Banca, a 1 Papo Reto

Quais são os impactos da crise sanitária e econômica, trazida pela COVID-19, nos negócios da periferia?

No geral, a situação atual é muito parecido com o cenário que vivemos em 2020. Contudo, agora temos como agravante o aumento das demandas das pessoas que vivem e trabalham nas periferias, sem que tenhamos políticas públicas e apoio privado para resolver essas questões. O apoio emergencial foi se reduzindo mês a mês e, hoje, vemos que a situação piorou. Muitos empreendedores que acessaram empréstimos estão com dificuldades para quitar as parcelas, porque seus negócios continuam sendo pesadamente impactados pelas restrições impostas pela pandemia.  

Mesmo antes da pandemia, empreender na periferia já era um desafio. Quais os principais gargalos no desenvolvimento desses negócios?

Das quebradas da Zona Sul de SP para todo o Brasil A Banca Marcelo Rocha 1 papo reto 1 585x390A questão da infraestrutura de serviços sempre foi um ponto de atenção. Em plena era da internet, o sinal de telefonia 3G ainda não chega, com a qualidade necessária, em diversas regiões. E isso dificulta a promoção de negócios baseados nas vendas online e aplicativos, por exemplo. Nem sempre o problema está na formação do empreendedor. Outro fator de destaque neste campo é a dificuldade que os empreendedores têm em acessar redes de negócios. Desde o início de nossa caminhada temos buscado parceiros que nos ensinem a fazer melhor. Afinal, a periferia abriga muitos negócios nos quais o conhecimento se dá de forma empírica ou na passagem do bastão ancestral, de um negócio que faz parte da história familiar.

Como os programas de A Banca vêm ajudando os moradores da periferia a qualificar seus negócios?

Nos últimos anos, nos associamos a uma série de atores estratégicos no ecossistema de inovação, como Artemisia e FGVcenn (Centro de Empreendedorismo de Novos Negócios), cujo foco é a transformação social e econômica. Desta parceria surgiu o Lab NIP – Negócios de Impacto da Periferia, programa destinado a fortalecer negócios de impacto social. A próxima turma, envolvendo empreendedores das regiões Sudeste e Sul, está com as inscrições abertas até quarta-feira, dia 31 de março. (veja o edital no link no final do texto). O programa tem como foco o empreendedor e o negócio, pois acreditamos que antes de cuidar do CNPJ é preciso cuidar do CPF.

Volta e meia o governo federal, estadual e municipal anunciam linhas de crédito para pequenos empreendedores. Esses recursos chegam à periferia?

Se levarmos em conta a minha experiência com A Banca, posso lhe dizer que esse crédito que anunciam, não chegam na ponta. Hoje, um grande legado da pandemia é o excessivo endividamento das famílias, especialmente dos chefes de família que são empreendedores. Tivemos uma explosão de crédito que foi concedido dentro de uma lógica que muitas vezes mais atrapalha do que ajuda. Isso porque continua vigorando um descasos das administrações públicas em relação à periferia. Falta um olhar mais humano e mais propositivo, focado nas necessidades específicas de cada região ou território.

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