Do trabalho escravo para a parceira com o estilista Reinaldo Lourenço

Do trabalho escravo para a parceira com o estilista Reinaldo Lourenço

Em pleno século 21 e no coração da capital econômica da América do Sul, o trabalho escravo continua sendo uma realidade.

A venezuelana Sara Mathias (foto), 29 anos, lembra que as mãos tremiam e o nervosismo era indisfarçável no primeiro dia de aula da Oficina em Design de Moda, em São Paulo. Ela e outros 19 imigrantes oriundos da Bolívia, Venezuela e da República Democrática do Congo, todas vítimas de trabalho escravo, participaram de curso coordenado por um dos mais influentes estilistas brasileiros, Reinaldo Lourenço, e pelo renomado estilista Yan Acioli.

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“Eu estava empolgada e nervosa. Era um nível muito mais avançado para mim. Um bolso eu precisei fazer quatro vezes! Mas eu amei saber que eu posso, eu aprendo. Um mundo se abriu na minha cabeça com esse curso e agora vou atrás de mais conhecimento”, diz Sara.

Vivendo no Brasil há dois anos, a jovem decidiu aprender a costurar após pedir demissão de “mais um trabalho de exploração e humilhações”, no ano passado. “Todo dia tinha que faxinar 12 apartamentos em um condomínio, mais de 10 horas de trabalho. E eu era muito maltratada”, conta Sara. “Com essa oficina de costura eu voltei a sonhar. Quero trabalhar com isso, ganhar meu dinheiro, mas sem humilhação”, resume.

A capacitação profissional em design de moda faz parte do projeto Trabalho Escravo Nunca Mais, promovido pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Universidade de Campinas (Unicamp). O projeto busca combater o trabalho escravo e promover o trabalho decente e a inclusão de grupos em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

Reinaldo Lourenço e equipe do projeto da OIT e do MPTReinaldo Lourenço (o segundo, a partir da dir.) com a equipe do projeto da OIT e do MPTNo Brasil, entre 1995 e 2020, mais de 55 mil pessoas foram resgatadas de condições de trabalho análogas ao escravo, por meio de operações de fiscalização lideradas por Auditores Fiscais do Trabalho. Responsável pelo recrutamento dos alunos da Oficina, Alberto Pinto destaca que uma parcela significativa do grupo selecionado não conseguia identificar se havia passado ou não por situação de trabalho análoga à escravidão.

“Todos eles passaram, sim, em algum nível. Mas 15,4% dos participantes ainda responderam ‘talvez’ no questionário que fizemos, mesmo eles contando experiências típicas desse tipo de servidão. Esses trabalhadores pensam: fui acolhido, alguém me deu um teto e comida. Mas isso é crime, é exploração”, frisa Alberto. 

As aulas da Oficina ocorreram em janeiro na fábrica de Reinaldo Lourenço. O local também serviu de inspiração para os participantes, já que a equipe do estilista emprega três costureiras bolivianas. Por conta da pandemia da COVID-19, o curso foi dividido em turmas de cinco pessoas, respeitando todos os protocolos da Organização Mundial de Saúde (OMS), como distanciamento, uso de máscara e ambiente arejado.

A turma produziu 40 looks com auxílio de profissionais reconhecidos na área. As peças foram apresentadas em um desfile de moda fechado, que aconteceu no Museu da Imigração do Estado de São Paulo no dia 1º de março e contou com a trilha sonora assinada pelo DJ Zé Pedro. A gravação do desfile foi transmitida na plataforma da revista Elle Brasil no dia 8 de março.

Os alunos e alunas fazem planos de continuar no ramo da moda. Foi montada uma lista de contatos para indicar os futuros colegas para oportunidades de trabalho. O mailing também ficará à disposição da fábrica de Reinaldo Lourenço, que em temporadas de moda e períodos de entrega de coleção sempre reforça a equipe.

 

*Texto publicado no site da ONU Brasil. Leia o original aqui