Entre pernas e trilhos

Hora do rush? Esqueça. A loucura do trânsito nas capitais não respeita velhas convenções. É o que mostra a escritora Keli Vasconcelos, paulistana da gema Precisei retornar ao médico no Tatuapé, na Zona Leste da capital paulista, e como seria rápido, decidi ir a pé até o centro de São Miguel Paulista, onde vivo, numa terça-feira morna de outono, para pegar o trem. Leva-se em média uns trinta minutos, entre van e metrô, até o destino pretendido, mas a região de Itaquera, próximo do estádio do Corinthians, o trânsito não é o dos melhores, então a opção que encontrei foi essa mesmo. Saí por volta das nove horas da manhã e segui pela Avenida Marechal Tito, no coração de São Miguel. Até que estava vazia naquela manhã: ônibus passavam rapidamente, lotados, muitas vezes ver o outro lado das janelas é desafiador, por conta do sem número de cabeças, ombros e bolsas espremidas nos balaústres. Ou melhor, até dava para ver uma ou outra brecha, mas chego à conclusão de que não existe mais essa de “horário de pico”, pois é raro quando pega-se uma condução e encontra-se um banco vazio. Espaço para colocar o pé? Quem sabe, se a sorte lhe sorrir... Bom mesmo é ir a pé, quando possível, porque há a oportunidade de ver o andar das pessoas, o seu corre-corre, os caminhões, o atravessar pelas ruas para os compromissos matinais e não sentir-se tão amarrotado, além de economizar uns créditos no Bilhete Único – como é chamado o cartão para as passagens de ônibus, trem e metrô na cidade de SP –, mas a caminhada é longa, confesso. Cheguei na estação às nove e meia, consulta às onze. “Nossa, tô com uma dor no jueio”, disse um dos seguranças da estação, enquanto esperava o trem com destino ao Brás. “Joelho?”, corrigiu o outro profissional, enquanto ajeitava o colete verde fluorescente. “Acho que é o tempo que a gente fica em pé, né? Preciso ver esse jueio aqui, porque a força das ‘perna’ tá na ‘róta’, essa segura tudo aqui nas ‘perna’”, retrucou o colega, referindo-se às rótulas, estas, escondidas nas calças cinzas do uniforme. O trem, então, chegou e, mesmo com certa pressa, deixei os passageiros desembarcarem. Entrei e não havia bancos para sentar, aliás, acho que se sentei-me em um deles foi uma, no máximo duas vezes em anos de uso de transporte público. Sempre fico em pé. Engraçado ver a reação das pessoas quando encostamos naqueles ferros. Sei que peguei num deles sem incomodar outrem pela textura. Se está frio, ótimo, agora se tem algum calor, já desencosto e me equilibro com as próprias pernas. Sou gato escaldado, devido muitas ocasiões em que esbarrei sem querer noutras mãos e recebi de repreenda cara feia, unhada nos dedos, talvez. mapa-zona-leste-spAntes das portas fecharem, dois meninos, deviam ter uns 18, 21 anos no máximo, adentraram o veículo. Um ficou na porta, já o outro estava chateado pois outra dupla passara anteriormente para vender os mesmos produtos: balas de goma coloridas sabor tutti-frutti e pastilhas de menta. Esperaram o sinal de fechamento das portas para iniciar o comércio repreendido. “Olha aí, pessoal, abro aqui a lojinha para vender deliciosas balas de menta por apenas um real”, anunciou um deles, percorrendo o corredor com uma pochete surrada na cintura, produtos coloridos nas mãos. Não resisti e comprei um pacote de pastilhas, cuja embalagem com os conjuntos estava fechada: “Moço, vou querer uma pastilha, assim faço as honras e começo o seu pacote”, brinquei com o vendedor, que retirou da mochila do companheiro as mercadorias. “Imagina, moça, ‘brigado’ por ajudar com nosso trabalho”, agradeceu o menino franzino, com o corte de cabelo parecido com o do Cascão, usando bermudas amarronzadas, tênis surrado, camiseta amarela, com uma prancha de surfe estampada no peito. No balançar dos vagões, com leves paradas e até uma sensação de mais distância, por conta da reconstrução da estação Engenheiro Goulart (desativada desde 2014), desci na estação Tatuapé às dez e meia, a tempo para a entrega dos exames médicos. Menos de meia hora depois, eis-me novamente na estação do Tatuapé, contemplando o trem de cargas que passara deixando a fumaça cinzenta na plataforma, em seguida a composição com destino a Calmon Viana. Sem novidades: cheia, assentos ocupados, mas balaústres para se segurar. Uma grávida adentra e apoia-se em um deles. Pessoas entretidas pelos celulares, já outras ressonam, comem algum bolinho comprado por lá mesmo, poucas olham ao redor, pela janela cuja vista mostra as pequenas casas de madeira compensada, janelas de fábricas, ruelas de terra, ora a rodovia Ayrton Senna. Alguém desceu na estação seguinte e desocupou-se um lugar, realocado pela futura mãe. Chego em casa por volta de meio-dia. Desapeio as tralhas em cima da cama, tomo outro banho rápido, livrando-me da crosta de poluição e suor, almoço e sento-me à frente do notebook para contar essa história, que pode ser uma bobagem relatá-la. Mas fiquei pensando nas outras possibilidades de trajeto: poderia ter ido só de ônibus e chegaria em 45 minutos, se não tiver trânsito. Ou ainda ter pegado uma carona com meu irmão de carro até o metrô Itaquera, ou o Artur Alvim e levar uns vinte, afinal o dia não estava chuvoso... O mais engraçado é que não fui para o Morumbi (na Zona Sul), que, em geral, leva-se mais de duas horas de percurso, ou mesmo para a Avenida Paulista, que gasta-se mais ou menos uma hora, uma hora e meia. Não sei como seria essa matemática da mobilidade urbana, mas o fato é que não saí da Zona Leste, não saí do contorno. Apenas quatro estações de trem e foram-se embora umas duas horas, quase uma para ir, outra para voltar. Entre idas e vindas, entre pernas e trilhos – ah, e umas dores no “jueio”. keli-vasconcelosKeli Vasconcelos é jornalista e escritora. Dona de uma prosa leve e divertida, ela se especializou em contar histórias bacanas de pessoas comuns, que encontra no dia a dia.   

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