Incertezas rondam o programa Hortas Cariocas

Incertezas rondam o programa Hortas Cariocas

A pandemia de COVID-19 continua gerando reflexos nas dimensões sanitária, econômica e social. Neste terceiro quesito, o maior impacto é o número de brasileiros vivendo dentro de um processo de insegurança alimentar.

Trata-se de um conceito segundo o qual as pessoas deixam de ter certeza se terão condições de fazer três refeições por dia: café da manhã, almoço e jantar, na quantidade e qualidade adequadas. É neste contexto que cresce a importância de projetos de mitigação, como o programa Hortas Cariocas. Dos 49 canteiros, em escolas e comunidades de baixa renda, saem cerca de 80 toneladas de alimentos por ano. Eles são integrados à merenda escolar ou doados para famílias pobres.

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Apesar do impacto social e de sua função estratégica para inúmeras comunidades, o Hortas Cariocas está sob ataque. “A prefeitura não renovou o contrato com a empresa que prestava assistência técnica e isso causou prejuízos enormes”, reclama Orlando de Almeida Ribeiro, gestor da horta situada no Morro da Formiga, no bairro da Usina. Como exemplo ele cita a perda de algo em torno de 80 mil mudas que deixaram de ser plantadas em outras unidades, por falta de assessoria e gestão técnica. “Tínhamos como meta a introdução de tanques de tilápia, na Horta do Anil, em Jacarepaguá, mas está tudo parado”, completa.

A Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura do Rio de Janeiro (SMAC), nega que o Programa corra risco ou mesmo que tenha sido paralisado. Ao contrário. Diz que a ideia é ampliar a produção de hortaliças, legumes e verduras, especialmente na região entre os bairros de Madureira e Honório Gurgel. “O Hortas Cariocas está consolidado. A gestão atual da Prefeitura planeja aplicar, em 2021, R$ 1,68 milhão no programa, o que representa 50,8% a mais do que o investido em 2020”, disse, em nota, Emanuel Alencar, assessor de Sustentabilidade e Transparência da SMAC (veja a entrevista completa, abaixo).

Orlando Portugues Morro da Formiga Hortas CariocasOrlando na Horta do Morro da Formiga Versões e justificativas à parte, é certo que o Hortas Cariocas já se incorporou à paisagem da cidade. Especialmente em áreas de baixa renda, como a Favela de Manguinhos, onde 1 Papo Reto esteve em 2015 (veja o texto aqui). A visita foi parte do roteiro de coleta de informações para o livro Empreendedor Sustentável, que enfocou o trabalho de 50 brasileiros e estrangeiros. Pessoas como o agrônomo Julio Cesar Barros, funcionário da Prefeitura e criador do Programa.

Além dos hortelãos, integrantes da sociedade civil também pressionam a Prefeitura. Um deles é o Movimento Baía Viva que publicou uma petição na plataforma Avaaz (para assinar clique aqui) para tentar sensibilizar a Prefeitura a não mexer no Hortas Cariocas. Em apenas três dias o documento ganhou a adesão de 737 pessoas.

SOLIDARIEDADE ALIMENTAR

O conceito de sustentabilidade financeira, a partir da comercialização de metade da produção, que era um dos fundamentos do Programa, foi provisoriamente deixado de lado. “Com a pandemia nós passamos a doar 100% do que é produzido”, explica Orlando. “Afinal, tá todo mundo sem dinheiro e a carência alimentar passou a ser uma constante para muitas famílias”.  

O veterano hortelão foi um dos primeiros a aderir ao Hortas Cariocas. Em um espaço relativamente pequeno, no Morro da Formiga, Português, como Orlando é mais conhecido, faz um trabalho belíssimo. “Nesta semana, vamos completar a distribuição da última colheita para os moradores”, conta com indisfarçável orgulho. “Vai ter jiló, beterraba, chicória, aipim, alface, almeirão, coentro e couve. Tudo fresquinho e produzido sem agrotóxico”.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida, por email, pelo assessor de Sustentabilidade e Transparência da SMAC, Emanuel Alencar:

O programa, neste momento de emergência sanitária, social, econômica e alimentar, continua no radar da SMAC?

O programa Hortas Cariocas está consolidado. A gestão atual da Prefeitura planeja aplicar, em 2021, R$ 1,68 milhão no programa, o que representa 50,8% a mais do que o investido em 2020. Os repasses no primeiro trimestre superaram os do mesmo período do ano passado. Uma diretriz clara é levar os recursos naturais às regiões que mais precisam.

O que vem sendo feito para melhorar sua efetividade e seu impacto nas comunidades onde está instalado?

O trabalho das equipes de hortelões e hortelãs é baseado em treinamento e qualificação dos envolvidos das próprias comunidades, com apoio técnico da Secretaria. Desenvolvimento local e segurança alimentar, com geração de empregos verdes, são diretrizes firmes. O "Hortas" não está isolado. Desde os primeiros dias de gestão, as ações de arborização urbana, limpeza de rios e de fiscalização contra crimes ambientais são realizadas prioritariamente em regiões vulneráveis. Preservar as florestas, o solo e os rios destas áreas é condição necessária para o desenvolvimento sustentável de toda a cidade.

A Prefeitura pensa em ampliar o programa para outros bairros e/ou comunidades de caixa renda?

O primeiro compromisso assumido pelo secretário Eduardo Cavaliere foi ampliar para 5 hectares os cultivos ao longo do Parque Madureira, de Madureira a Honório Gurgel, Zona Norte do Rio, até 2024, configurando o local como a maior horta urbana contínua da cidade.

 

*Texto atualizado às 19h49, de 26/4. Alteração no volume de mudas descartadas.