Cidadania, negócios e proteção do meio ambiente

Conheça Ionara dos Santos, a paulista que representa o Brasil no congresso internacional de gestão de resíduos, que acontece na ÁfricaEntre os dias 22 e 30 de abril a cidade de Kisumu, no Quênia, vai abrigar o congresso internacional Recyncling Networks & Waste Governance que reúne cooperativas de reciclagem de 19 países. Até aí, beleza. Afinal, não faltam eventos deste tipo pelo mundo afora. Mas o que faz deste encontro especial é que uma das duas representantes do Brasil será a jovem Ionara Pereira dos Santos, 27 anos, presidente da Avemare, cooperativa de reciclagem baseada na histórica Santana do Parnaíba, cidade situada na Grande São Paulo e de onde partiram Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, e seu filho homônimo para explorar jazidas de ouro no oeste de São Paulo e em Goiás, no século 17. “Estou muito ansiosa. Nunca viajei para fora do país e nunca fiquei tanto tempo longe dos meus filhos”, conta, na manhã de sexta-feira, horas antes do embarque numa pausa de sua concorrida agenda. Nos oitos dias em que permanecerá em solo africano, Ionara pretende narrar a trajetória da instituição, na qual conheceu o marido, Marcio, e onde se tornou uma influente líder comunitária e ativista ambiental. Ela diz que seu objetivo no encontro é ampliar a visibilidade do trabalho realizado pelos integrantes da Avemare, na tentativa de romper a visão de que reciclagem é coisa de coitadinhos e de favelados. “Atuamos numa importante atividade, que exige qualificação, gera empregos e presta um serviço ambiental à sociedade”, destaca. “Nosso trabalho é lindo e sustenta um total de 300 pessoas!”. Atualmente, a retirada média mensal de cada cooperado gira em R$ 1,3 mil. De fato, a cooperativa comandada por esta jovem sorridente e determinada é um caso de sucesso. Até 2006, uma parte de seus 84 associados atuavam no lixão de Santana do Parnaíba. O rendimento médio era maior, contudo, as condições de trabalho eram degradantes. A pressão do Ministério Público fez que a prefeitura fechasse o local. No Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), assinado em 2001, as pessoas que viviam da coleta de recicláveis, foram incluídas no processo que deu origem à Avemare. A prefeitura cedeu o terreno e ajudou na instalação do galpão. Por meio de parceiros privados, como a Fundação Alphaville, a cooperativa tem acesso a recursos financeiros, cursos de qualificação e uma base para captação de material. Hoje, eles classificam e comercializam 400 toneladas por mês de resíduos coletados pelos cinco caminhões em 60 empresas, nove bairros e 55 condomínios fechados. A maior fatia, 80%, vem dos residenciais implantados pela Alphaville Urbanismo, em Barueri e Santana do Parnaíba. O trabalho obedece rigorosamente aos preceitos de segurança e tudo é decidido a partir da votação e baseado num plano de metas. “É claro que os diretores têm uma responsabilidade maior, pois eles têm de fazer o negócio girar”, explica Ionara, para depois emendar. “Na verdade, são diretoras, pois 54% dos integrantes da Avemare são mulheres”. Aliás, foi o forte discurso em prol do empoderamento que a ajudou a “carimbar o passaporte” em direção à África. No final do ano passado, a entidade recebeu uma visita de integrantes da Universidade Victoria, do Canadá, promotora do Congresso. Ionara conta que eles chegaram, fizeram um monte de perguntas e disseram que voltariam a entrar em contato. Decorridas algumas semanas, ela descobriu que a Avamare estava entre as 20 pré-selecionadas para participar do encontro. O grupo foi reduzido à metade e a cooperativa continuava no páreo. “Esse processo foi tenso”, lembra. [caption id="attachment_15501" align="alignleft" width="300"] Ionara, segunda a partir da esq., comanda a cooperativa Avemare, de Santana de Parnaíba[/caption] Ao final, descobriu que havia ficado em segundo lugar. “Questionei os organizadores para um detalhe que eles não haviam percebido”, conta. “Afinal, qual seria a lógica de um homem representar um setor formado por 80% de mulheres, no Brasil”. A “saia justa” resultou na inclusão de seu nome na comitiva. Ionara, que está grávida de quatro meses do terceiro filho, enxerga essa viagem como um novo divisor de águas na trajetória da Avemare. O primeiro deles aconteceu com o TAC que garantiu aos 45 catadores, à época, a possibilidade de continuar trabalhando com reciclagem, mas numa condição digna. Agora, ela espera que a visibilidade internacional ajude a lançar luzes sobre o trabalho realizado pelo grupo, resultando no aumento do volume coletado e em melhorias na infraestrutura da cooperativa. “Desde que confirmaram a viagem, o prefeito de Santana de Parnaíba já nos recebeu três vezes”, diz. “Mandou até colocar asfalto no pátio da cooperativa, local onde recebemos o material”. A Avemare possui capacidade para processar 550 toneladas por mês e, dentro do universo da reciclagem, não é a única que atua abaixo da capacidade. Isso porque, mesmo com a popularização da coleta seletiva, este processo engloba apenas 3% dos resíduos sólidos descartados anualmente, no país. Na Alemanha, o patamar é de 50%. Tão importante quanto o serviço ambiental é o impacto que o setor poderia gerar na economia. Cálculos do departamento de economia da Associação Brasileira dos Fabricantes de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) indicam que a reciclagem poderia gerar R$ 120 bilhões por ano, no Brasil.   SAIBA MAIS Sobre coleta seletiva no Brasil Sobre Santana de Parnaíba    

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