A chapa vai esquentar

É próprio da condição humana que cada indivíduo ou grupo de pessoas “puxe a sardinha” para seu lado. Sendo assim, não haveria de ser diferente quando se fala em energias alternativas. Mais especificamente, qual delas deveria ser privilegiada em detrimentos de outras. A razão, por vezes, cede lugar à paixão e, quando colocamos na ponta do lápis, algumas iniciativas podem, até mesmo, agravar o problema que se tenta resolver.

Esta vinha sendo, inclusive, uma das mais fortes linhas de argumentação dos adversários de investimentos em opções energéticas mais complexas, como a derivada da radiação solar. Felizmente, nossos gestores públicos acordaram para a realidade. Afinal, fica difícil conceber, em um país com a taxa de insolação do Brasil, que esta modalidade jamais tenha sido levada a sério.

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E, ao que parece os números sempre foram favoráveis ao uso econômico do sol. Em recente entrevista ao jornal Valor Econômico, Luís Augusto Mazzon, presidente do Departamento Nacional de Aquecimento Solar (Dasol, ligada à Abrava), estimou que o aquecimento natural da água poderia gerar economizar equivalente a produção da Usina de Itaipu, a maior do Brasil e segunda do planeta, atrás de Três Gargantas, na China.

Pode ser. Contudo, o custo de instalação dos equipamentos e a consequente amortização, ainda não se mostra atrativo para a maioria dos brasileiros.

O EXEMPLO ALEMÃO. DE NOVO…

O exemplo da Alemanha e dos países nórdicos, onde a popularização desta modalidade se deu a partir da concessão de subsídios para a instalação de coletores solares (para aquecimento de água) e de placas fotovoltaicas (para geração elétrica) vem servisse de guia para os projetos atuais. Especialmente nos Estados Unidos, aonde a energia solar vem crescendo de forma exponencial. Graças, em boa medida ao barateamento dos equipamentos, cuja produção está concentrada basicamente na China.

Diante de evidências tão eloquentes, o governo brasileiro resolveu agir de uma forma mais racional para lidar com a questão solar. Vai usar o mecanismo de incentivos semelhantes aos concedidos à energia eólica e também já garantiu linhas de créditos para financiar a aquisição de equipamentos. Só que em vez das regras mais restritas usadas para o pré-sal, o banco de fomento decidiu flexibilizar sua política, intensificando os acertos na implantação dos parques eólicos.

“As novas regras inovam ao oferecer alternativas flexíveis de nacionalização, com uma relação mínima de componentes e processos produtivos exigidos para o credenciamento e manutenção no CFI (Credenciamento Informatizado de Fabricantes) do BNDES. Há também uma relação de itens eletivos, que incentivam e premiam o aumento do conteúdo nacional”, diz a nota oficial do banco.

Por conta disso, existe a expectativa de que os projetos de geração solar, antes patinhos feios da energia renovável, se transformem em belos cisnes no leilão de energia de reserva, marcado para 31 de outubro. A chapa deve esquentar bastante, pois a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima que nada menos que 400 projetos deverão disputar o pregão, totalizando um potencial de 10.790 megawatts de capacidade instalada. Apenas para efeito de comparação, trata-se de um montante superior ao da gigante Belo Monte – a maior usina hidrelétrica em construção, no mundo.

R$ 500 MILHÕES

E dinheiro para financiar estes projetos não deve faltar. “As linhas de apoio para o primeiro leilão já foram definidas e combinam recursos do Fundo Clima, com recursos do Finem, linha tradicional do banco para apoio a investimentos”, destaca, em entrevista a 1 Papo Reto, o chefe do departamento de energias alternativas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Antonio Carlos Tovar.

No caso do Fundo Clima, serão R$ 500 milhões, com taxa de juros de módicos 0,1% ao ano.

Para viabilizar a implantação imediata dos projetos, a grana poderá ser utilizada na importação de equipamentos. Inclusive da temível e quase imbatível China. Ao menos até o momento, a decisão não causou arroubos de nacionalismo. Tampouco serviu para esfriar o apetite de fabricantes de equipamentos e desenvolvedores de tecnologia, em relação ao Brasil. “Nossa matriz já aprovou a construção de uma fábrica de equipamentos no Brasil”, afirma Marcelo Leite, diretor da TVP Solar no Brasil.

Fundada na Suíça, a startup está construindo erguendo seu parque fabril em Avellino, na Itália, onde pretende fabricar painéis solares em estado da arte. “Nosso equipamento é diferente de tudo que existe no mercado”, diz Leite. A tecnologia atua em um nível diferenciado e foi concebido para aplicação industrial.

Ou seja, a ideia é conquistar clientes entre as empresas que são usuárias intensivas de calor (obtido por energia elétrica, biomassa ou derivados de petróleo), em seu processo produtivo.

Por conta disto, o foco no Brasil serão as agroindústrias. “A unidade que será construída no Brasil vai ser idêntica à da Itália”, adianta Leite, que vem gastando muita sola de sapato para visitar potenciais clientes. Paa facilitar a tarefa de catequisar o mercado, ele se uniu a Coordenadoria de Projetos de Pós-Gradação (Coppe-UFRJ), onde foram instalados painéis da empresa suíça.

Lima deixa claro que a tecnologia da TVP não é uma panaceia. Aliás, o sistema nasce com a função de ser complementar, por exemplo, ao gás natural (extraído de petróleo) ou ao biogás, obtido da degradação de fezes de animais ou restos florestais. “Isso evitaria o risco de parada da produção em dias com pouca insolação.”

De fato, aquele sonho quase pueril de ser autossuficiente em energia elétrica com a instalação de alguns painéis no telhado de casa, parece que ainda é um objetivo distante. Mas isso não significa dizer que os pessimistas de plantão estavam certos quando torciam o nariz para esta vertente energética.

A prova cabal está na quantidade de mega usinas solares, com tecnologias das mais diversas inclusive combinadas com geradores a vapor, que vêm sendo erguidas nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia e até mesmo no Norte da África.

O sol está aí e, se não se faz presente algum dia em nossa cidade, ou em nosso país, é porque certamente está brilhando em outro local. Portanto, investir no astro-rei parece uma opção vantajosa no longo prazo.

E para não deixar dúvidas de que seu brilho estará influenciando o tipo de energia que ajudar a mover a vida dos brasileiros, basta lembrar que no plano estratégico da EPE, autarquia ligada ao Ministério das Minas e Energia, a aposta é que a energia solar irá iluminar 15 milhões de residências, até 2050, respondendo por 13% de toda a demanda nacional.

É, a chapa vai esquentar e será sob o sol.