Voo do atraso

O Brasil já foi vanguarda no que se refere a combustíveis verdes. Agora, perde terreno neste setor, mais uma vez. Estamos ficando para trás no desenvolvimento de combustíveis limpos e renováveis para a aviação, como o Querosene de Aviação (QAV) feito de cana de açúcar. De acordo com reportagem do jornal Folha de S. Paulo (aqui) o produto desenvolvido pela Amyris Brasil, empresa de biotecnologia de origem americana baseada em Brotas (SP), já poderia estar sendo ofertado às empresas aéreas.

Contudo, o combustível que abasteceu o primeiro voo do gênero Brasil, realizado por uma aeronave Embraer 195, da Azul Linhas Aéreas, de forma experimental, em 19 de junho de 2012, não poderá ser usado no Brasil de forma regular.

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Não que pairem dúvidas sobre a qualidade ou efetividade deste insumo. Afinal, ele está prestes a ser aprovado pela ASTM certificadora global de padrões industriais.

O problema, no caso do Brasil, e é aí que reside o problema, se deve à lentidão da Agência Nacional de Petróleo (ANP). Segundo informa a reportagem, a ANP diz que seriam necessários ao menos 90 dias para certificar o produto por aqui.

Quando lembramos que o setor de transporte responde por cerca de 90% das emissões de dióxido de carbono (CO2) no Brasil, e que o custo do QAV e das tarifas aeroportuárias representam 50% da passagem, tamanho atraso é de deixar qualquer um preocupado.

É claro que o QAV verde não é uma panaceia.

Nem no que se refere ao custo, uma vez que, de acordo com a reportagem, custaria até quatro vezes mais que o convencional, derivado de petróleo. Muito menos por sua oferta, em larga escala, no mercado.

Ocorre que a demora e a ínfima quantidade de pesquisas envolvendo essa área colocam o Brasil em desvantagem em relação ao que está sendo feito na Europa e nos Estados Unidos, exatamente em um setor, de combustíveis limpos, no qual fomos pioneiros com o Pró-Álcool, no início da década de 1970.

Querosene de Aviação a partir do lixo

Hoje, quem lidera os projetos nesta área é a dupla Air France-KLM. Já a British Airways anunciou que pretende recuperar o atraso em grande estilo, por meio da construção de uma fábrica para produção de QAV a partir do lixo.

Esta reportagem será publicada, na 4ª feira 18/6, na área em inglês do portal 1 Papo Reto. A empresa aérea britânica promete abastecer toda sua frota que decola do City Airport, em Londres, com este combustível.

Em São Paulo, o diesel de cana de açúcar já faz girar o motor de diversos veículos da frota urbana de ônibus. O custo elevado de partida para a produção do QAV poderia ser compensado com a produção em larga escala. Afinal, temos matéria-prima abundante.

Porém, a excessiva burocracia e a falta de incentivos claros e massivos podem fazer com que o QAV de cana tenha o mesmo destino sombrio do álcool.

Hoje, na falta de uma política de Estado, os produtores e os consumidores vivem à mercê do que consideram prioridade os ocupantes eventuais das pastas da Fazenda, Minas e Energia e Agricultura.

Confira: Vídeo institucional da Amyris (em inglês)