Um olhar em direção ao futuro

A agenda política e econômica em um país da complexidade do Brasil nem sempre privilegia o que boa parte das pessoas acredite ser prioridade. No campo da energia na é diferente. O desafio de colocar para rodar uma engrenagem que consome cada vez mais quilowatts a cada segundo faz com que, muitas vezes, as opções se restrinjam ao “mais do mesmo”. Ou seja, a hidroeletricidade segue na preferência dos planejadores como uma aposta segura para continuar movimentando a roda do progresso. Mas como as grandes bacias que ainda podem gerar enormes quantidades de megawatts estão situadas na Amazônia, portanto longe do mercado consumidor, seu custo já não é mais tão assimilável quanto o foi nas décadas de 1960, 1970 e 1980.

Isso vale tanto do ponto de vista dos impactos humanos, quanto dos ambientais. A problemática Usina Hidrelétrica de Belo Monte ajudou a colocar o Brasil no índex negativo de muitos ecologistas pelo mundo afora.

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Neste contexto, as chamadas energias renováveis não tradicionais, obtidas a partir de fontes solar, eólica, biomassa e até das marés, começam a ganhar competitividade e até mesmo a atenção de grandes investidores. O planejamento desenhado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indica que o consumo de energia como um todo irá triplicar até 2050. Serão 1.624 TWh (Terawatt-hora), nos colocando no mesmo patamar da União Europeia: 7.000 quilowatts por habitante/ano.

Essa profusão de letras, números e siglas que dizem pouco para os cidadãos, no geral, podem ser vistos como uma oportunidade de negócios pela maioria das empresas e também pela academia. Isso inclui desde aquelas que pretendem vender tecnologias já provadas, como também um incentivo para o desenvolvimento de pesquisa científica rumo ao futuro.

E já ficou claro que a energia que vai mover o mundo, num futuro não muito distante, será a de matriz renovável. Estudos da Agência Internacional de Energia (AIE, da sigla em inglês) indica que serão gastos US$ 250 bilhões neste ano em projetos do tipo. Para o período 2015-2020, a média anual deverá ficar em US$ 230 bilhões. Apesar de o número estar abaixo dos US$ 280 bilhões aplicados em 2011, fica evidente que a participação de novas fontes, seguirá sendo relevante. E quem deverá liderar essa corrida serão: China, Estados Unidos e Brasil.

De certa forma, o fato de os países emergentes (leia-se Brasil, Índia e China) terem entrado atrasados nesta corrida pode lhes garantir uma vantagem competitiva. Afinal, no caso da energia solar e a extraída a partir do movimento das marés, por exemplo, podemos pular a “fase de experimentação” vivida pela Europa e os Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980, começando a partir de projetos e tecnologias que comprovadamente dão resultados tanto do ponto de vista da eficiência quanto do custo.

Nesta série de reportagens deste especial jornalístico sobre Energias Alternativas, a equipe de 1 Papo Reto procurará mostrar algumas destas iniciativas, lideradas por empresas brasileiras e estrangeiras. O que fica evidente nas entrevistas com consultores, empreendedores e altos executivos de empresas do setor é que chegou a hora de tomarmos medidas de olho no futuro.

“A falta de uma estratégia no passado, fez com que o Brasil não desenvolvesse uma estratégia industrial para o setor energético”, critica Mario Lima, diretor de consultoria em sustentabilidade da gigante EY (antiga Ernst&Young). “Os técnicos brasileiros tiveram suas cabeças formadas com base nas grandes obras hidrelétricas, e acabaram repelindo as inovações.” informações?

Isso, segundo Lima, explica porque o Brasil está perdendo a corrida para os chineses como um ativo fabricante de equipamentos para energia solar, por exemplo. Para ele, os estudos da EPE deveriam funcionar como um guia para empresários que desejassem investir nesta área, no Brasil, especialmente na fabricação de equipamentos. “Os estudos são feitos de forma frágil e as prioridades mudam ao sabor dos governos.”

Apesar do tom crítico, Lima diz que os prognósticos são positivos em relação ao Brasil. Aliás, a consultoria britânica aposta tanto nisso que montou, no Rio de Janeiro, um Centro de Energia, com um time de profissionais dedicados a prestar consultoria e estudar oportunidades de investimentos na área, para seus clientes globais. “Quando uma das big four (as quatro grandes consultorias mundiais) olham um tema e um país, significa dizer que há demanda”, justifica.