Vento, ventania...

Mudanças e quebras de paradigmas nunca foram, exatamente, especialidades dos brasileiros. Não que nos falte criatividade, muito pelo contrário. Mas é que entre o certo e o duvidoso nossos gestores públicos e empresários sempre optam pelo primeiro. Uma das grandes exceções foi o bem sucedido programa de álcool combustível, batizado de Pró-Álcool, iniciado na década de 1970 e que transformou o País em um dos maiores consumidores de biocombustíveis do planeta.

Bem, neste ponto é importante destacar que fomos “empurrados” para isso devido à eclosão de duas mega crises do petróleo, em 1973 e 1979.

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Com reservas abundantes de água doce, nossa matriz energética, responsável pela produção de energia elétrica, sempre se apoiou, de fato, em megausinas hidrelétricas. Aliás, Itaipu, no rio Iguaçu na divisa com o Paraguai, ainda conserva o título de a maior do mundo, pelo menos em geração efetiva, vencendo a chinesa Três Gargantas, que contou com consultoria brasileira e possui o maior parque instalado de turbinas.

APAGÃO EM 2001

Contudo, a tese de que deveríamos incluir novas opções em nosso cardápio começou a ganhar força na década passada, especialmente após o “apagão energético”, ocorrido em 2001. Premidos pelas circunstâncias, pela pressão dos ecologistas e pela necessidade de deixarmos de ser reféns do petróleo e de São Pedro, o governo brasileiro decidiu agir.

É claro que a atuação dos grandes fabricantes de equipamentos, ávidos por incluir o Brasil em sua rota, também ajudou.

Hoje, pode-se dizer que os incentivos, inclusive no sistema tarifário que guiaram os chamados leilões de compra de energia, trouxeram resultados benéficos no caso da energia eólica. Mesmo ainda tendo um papel incipiente na matriz como um todo, a modalidade já se impõe como uma importante supridora das necessidades do País.

Relatório da Associação Mundial de Energia Eólica (WWINDEA, da sigla em inglês) coloca o Brasil em uma honrosa 13ª posição na lista dos maiores mercados de energia obtida a partir da força dos ventos. O primeiro lugar (advinha?) fica com a China, seguida da Alemanha. Mas quando o assunto é a instalação de novas turbinas, o país faz bonito. Muito bonito mesmo, despontando na terceira posição (veja gráfico)

Para a economista e engenheira Elbia Melo, presidente-executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), o setor vive uma fase dourada no Brasil. “Nos leilões de compra de energia, a modalidade tem sido dominante, vencendo em mais de 60% dos casos”, festeja. Um fato difícil de ser imaginado há 10 anos, quando esta fonte era considerada como sendo “exótica” e “arriscada demais” para as especificidades de um país como o Brasil.

O primeiro pregão com esta vertente aconteceu apenas em 2009. “Na época o custo por quilowatt ficou num patamar seis vezes maior que o da hidroeletricidade”, lembra Elbia. “Hoje, este valor está até três vezes abaixo do registrado na Europa, e em linha com a realidade brasileira.” Quem abriu a lista foi o Parque Eólico situado em Osório (RS), cujas primeiras 25 turbinas foram acionadas em 2006, gerando energia suficiente para suprir uma cidade de mil habitantes.

POTENCIAL DE NEGÓCIOS

Segundo a presidente da Abeeólica, a força dos ventos pode gerar cerca de 300 Gigawatts, o que equivale a três vezes o consumo anual de energia do país, excluindo os segmentos atendidos por derivados de petróleo.  Para dar conta desda demanda, as empresas já investiram cerca de US$ 10 bilhões na produção de equipamentos e na instalação de fazendas eólicas. E não devemos parar por aí.

Levando-se em conta os estudos do próprio governo, a participação desta modalidade deverá continuar crescendo de forma exponencial. No Plano Decenal elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), uma think tank ligada ao Ministério das Minas e Energia, em 2023 os ventos vão responder por 11,5% da capacidade instalada de produção de energia elétrica do Brasil.

O apetite dos investidores fica evidente quando olhamos o Leilão de Energia de Reserva 2014, que acontece em 31 de outubro. Nada menos que mil projetos desta modalidade estão habilitados a participar.

Apesar disso, nos manteremos “anos luz” atrás da Alemanha, por exemplo. É que assim como os países nórdicos, a terra de Albert Einstein segue como uma ativa investidora nos programas de adoção de novas modalidades de geração energética. Fez isso lá atrás, também premida por circunstâncias drásticas como as crises do petróleo e a ausência de grandes volumes de água. É verdade. Mas quando entrou no jogo, o fez para valer.

TURBINAS AO MAR

Até demais. Hoje, para consertar os equívocos da aposta intensiva em geração solar, altamente subsidiada, os alemães estão ampliando os projetos de energia eólica. Ou seja, para frente é que se anda.

Hoje, 10% do consumo energético é suprido por esta modalidade. E os investimentos estão se deslocando para o mar do Norte, onde torres com altura equivalente a de um prédio de 60 andares, ao custo de US$ 30 milhões, poluem menos a paisagem.

A dirigente da Abeeólica discorda daqueles que consideram que o Brasil tenha entrado atrasado nesta corrida. “Nas décadas de 1970 e 1980 não havia necessidade de desviar recursos da saúde e da educação para subsidiar energia renovável”, pontua. “É bom lembrar que o Brasil nunca foi inteiramente dependente de combustíveis fósseis, ao contrário dos Europeus. Aqui, a energia renovável, proveniente do aproveitamento hídrico, sempre supriu as necessidades.”

De fato. Contudo, ao incluirmos no planejamento as tais mudanças climáticas que têm bagunçado o regime de chuvas, fica claro que, contar apenas com São Pedro, já se mostrou arriscado demais. Especialmente para um país que precisa crescer, pelo menos 5% ao ano, para garantir a inclusão social e a distribuição de riquezas.

E, nesta conta, a natureza precisa ser vista como uma grande aliada. “A energia eólica no Brasil funcionou como um grande laboratório para as opções energéticas não convencionais”, diz Elbia.