Viagens do acaso

Nascido em Ipirá, município do interior da Bahia famoso pela produção de carteiras, bolsas e cintos de couro, o publicitário Silvino Ferreira Jr. tem no acaso um grande aliado. Tanto na vida pessoal (ao completar 12 anos foi morar em Recife, onde ficou até os 29), quanto na profissional. O promissor cientista social e funcionário público concursado, como faz questão de pontuar, acabou dando lugar ao publicitário de longeva carreira no Brasil e hoje em Londres. Tudo começou com a criação do slogan: “Pinte o 7  com as cores da liberdade”, criado para as Tintas Ypiranga, em 1985.

Na capital britânica, foi ao lado da mulher, Susan, que mais um desses acasos fez surgir o Canal Londres (parceiro de primeira hora do Projeto Colaborativo 1 Papo Reto). Hoje, essa consolidada TV via internet funciona como uma espécie de “embaixada informal” dos brasileiros que vivem em Londres e em outras capitais do velho continente.

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No texto abaixo, Silvino nos conta a gênese desse projeto e fala sobre um dos predicados mais caros à equipe de 1 Papo Reto: a importância do trabalho colaborativo.

Um brasileiro em Londres, Roma, Oslo

Eu já havia morado em Londres, por um ano, na segunda metade dos anos 90, e lembro que, então, se falava numa população de brasileiros em torno de 15 mil, 20 mil. Em 2006, quando mudei pra cá, já se falava em 150 mil, 200 mil pessoas. Embora não seja um número oficial, isso me chamou a atenção. Era um aumento muito expressivo e também parte de um movimento migratório que levou muitos brasileiros a outros países, especialmente EUA, Japão, Portugal e Reino Unido.

Em outubro de 2008, numa conversa com a Susan, que além de me suportar como marido também é minha sócia, começamos a pensar na ideia de se produzir um documentário sobre esses brasileiros. A ideia era tentar descobrir quem eram, quais as razões para migrar para um país tão diferente do Brasil, como era o processo de adaptação, dificuldades, barreiras, preconceitos, vantagens, desvantagens.

Susan, companheira de vida e de trabalho

Nesta mesma conversa, surgiu a ideia do Canal Londres, e aí todo o crédito é da Susan. Por quê? Por uma razão muito simples: eu havia passado mais de duas décadas da minha vida trabalhando como redator publicitário, e o computador, para mim, não era mais que uma máquina de escrever com “copy” e “paste” e, no Brasil, nunca tive internet em casa. Para não dizer que eu era completamente ignorante no assunto, tenho a meu favor o fato de ter sido um dos criadores da campanha de lançamento do UOL no Brasil.

Na época, tive várias reuniões com Caio Túlio Costa, que dirigia o UOL, um entusiasta da Internet, e isso me ajudou a compreender que eu estava diante de uma revolução. A Susan, ao contrário, é praticamente uma pioneira quando se fala em era digital. Ela estudou cinema, mas logo se envolveu com esse universo e, quando a conheci, ela já era sócia de uma empresa que produzia conteúdo em vídeos para internet. Portanto, jamais passaria pela minha cabeça a ideia de criar um canal de vídeos online. Para não dizer que não tenho nenhum crédito, a sugestão do nome e do slogan foram minhas.

Decidido o nome, começamos a pensar nos primeiros programas. Eu não tinha tanto contato com pessoas da comunidade brasileira, mas a gente frequentava aulas de dança de salão de dois professores brasileiros: Gladys Cavalcante e Kléber Saúde. A Gladys havia dado aula particular para mim e para Susan porque a gente havia contratado uma banda de chorinho pra tocar em nossa festa de casamento, e a Susan queria saber como se dançava aquela música.

Preto “doente do pé”

Como dança não é o meu forte (sou um preto que não sabe sambar), fui procurar uma professora. A Gladys foi a primeira brasileira com quem gravamos um vídeo para o canal. Também gravamos com o Ulisses Bezerra, filho do Bezerra da Silva, que era o líder da banda de chorinho que tocou no casamento, e um aluno da Gladys e do Kléber, o Alex. Ou seja, tudo começou a partir desse pequeno ciclo e fomos expandindo. O vídeo de apresentação foi gravado pela Roberta Arantes, que eu havia acabado de conhecer, junto com o Gustavo Cid, apresentados por um diretor amigo meu, Mino Reis, que também dirigiu alguns dos nossos vídeos no início.

Todos eles são ligados a cinema e estavam passando uma temporada de 6 meses em Londres. Estou falando isso porque todas essas pessoas foram importantes para que a ideia se tornasse real. O Mino, assim como a Susan, me deu muitas dicas para que aprendesse a filmar.

Milão, Paris, Bruxelas…

Em janeiro de 2009 eu e a Susan fomos à Itália e levamos a nossa câmera e aí nasceu a ideia de que o Canal Londres não era só Londres, mas a Europa. Nascia também o Silvino apresentador, porque como a viagem era de férias a gente foi filmando enquanto passeava. Na verdade, é isso que a gente faz até hoje. O Canal Londres é a melhor desculpa pra viajar que a gente poderia ter inventado! No dia 2 de abril de 2009, lançamos o Canal Londres com 9 vídeos, mas já tínhamos pelo menos mais 9 filmados, para garantir que a gente não iria deixar de atualizar. Alguns meses mais tarde, a gente criou a página Dicas de Viagem e convidou o Kléber, professor de dança, para ser o apresentador. Ele está com a gente até hoje. Com o tempo a gente foi expandindo.

Criamos uma página especial só para os músicos, porque eles são muitos aqui, e uma para arte e design. Também fomos criando uma rede de contatos, em que as pessoas começavam a indicar perfis interessantes, o que ajuda muito.

Vinde a mim as “celebrities”

Um dos nossos segredos é não correr atrás, principalmente de celebridades. Temos o maior prazer em gravar, mas a pessoa também tem que entrar na brincadeira. Uma coisa que a gente não aceita, por exemplo, é participar de entrevista coletiva.

Uma exceção foi só para provar que não é a nossa praia. São  5 anos com 2 vídeos por semana. Nunca falhamos. Um dos grandes desafios, talvez o maior, foi entender como a internet funciona, a importância de entender as regras do Google, os mecanismos de busca, os links com outros sites, ou que se chama de SEO – Search Engine Optimization. No meu caso, em particular, tive que aprender a escrever para internet, que é completamente diferente do que eu estava acostumado. É um processo de aprendizado que não tem fim. Posso dizer que foi a grande revolução na minha vida, porque mais difícil que aprender é reaprender. Lembro que paguei cerca de 40 libras por um curso online e dali para frente grande parte do que aprendi foi como autodidata, na base da curiosidade e da necessidade, enchendo a pobre Susan com as minhas perguntas idiotas.

Frequentemente, ficávamos até tarde da noite discutindo, concordando, discordando, e até brigando, para entender termos, novas ferramentas, mudanças que o Google havia promovido, como usar as redes sociais, etc. Há um ano, contratamos uma empresa que nos deu uma consultoria de três meses e, para meu orgulho, o diretor dessa empresa, depois da primeira análise do site, me disse: “Considerando que é o trabalho de duas pessoas, vocês estão de parabéns”.

Pessoalmente, foi muito bom ouvir isso, considerando o ser analógico que eu era quando tudo isso começou. E, claro, não é o trabalho só de duas pessoas, mas acho que eu e a Susan merecemos esse elogio.

Auxílio luxuoso

E aqui, além daquelas que já mencionei, faço questão de creditar mais algumas pessoas que têm sido essenciais para esse trabalho: Teno Silva, grande amigo e companheiro de futebol, no frio das segundas-feiras, faz tanta coisa que é até difícil classificar o trabalho dele; a Heloísa Righetto, que apresenta uma série sobre design em Londres; o Fábio Louis, que apresentava uma série sobre compras, antes de voltar ao Brasil; o Arturo Mestanza, que edita alguns dos nossos vídeos; a Vânia Gay, Guia de Turismo credenciada que apresenta uma série que tem sido muito elogiada, principalmente pela riqueza de informações.

E uma menção especial ao Kléber, nosso apresentador da série Dicas, que está com a gente praticamente desde o início. Quando morava em Londres, o jornalista Paulo Nogueira nos enviou uma mensagem, via twitter, dizendo que admirava o nosso trabalho e que gostaria de conhecer o nosso estúdio. Vale dizer que, antes disso, eu havia enviado um convite para a realização de um vídeo sobre o trabalho dele.

Estou contando isso, para dizer o seguinte: olhando de fora, parece que o Canal Londres é grande, que investimos muito dinheiro para torná-lo possível. Recebemos currículos de muita gente que passou por grandes empresas de comunicação, querendo trabalhar com a gente. É puro engano. A gente já tinha tudo que precisava quando começamos: uma câmera, que sequer era HD, e um Mac com um Final Cut, para editar, os conhecimentos da Susan e a minha disposição em aprender.

As viagens seriam feitas de qualquer forma, é muito fácil e barato viajar pela Europa, só que a gente leva uma câmera. Ok, de qualquer forma há um custo. No início, a gente cobria com dinheiro do próprio bolso, mas, com o tempo, foi sendo pago pelos trabalhos de produção para terceiros.

Patrimônio audiovisual

Na verdade, o Canal Londres tornou-se a vitrine para o trabalho da Dot.tv Productions, a nossa produtora. O Canal Londres só existe como um domínio na internet, a empresa é a Dot.tv. E a gente não corre atrás de anunciantes ou patrocínios. O maior patrimônio que temos é um arquivo único que estamos criando. Hoje são mais de 500 vídeos produzidos em 14 países. Não tem preço!

Eu vou ficar muito feliz no dia em que a gente tiver pelo menos um vídeo produzido em cada um dos países europeus. Um dos nossos maiores orgulhos, além de uma audiência crescente, é que, segundo o Google Analytics, o tempo médio de permanência do usuário em nossas páginas é de 14 minutos.

Isso, em termos de internet, é uma eternidade. Por um lado, isso se deve ao fato do nosso conteúdo ser em vídeo, mas é um sinal de que a nossa audiência curte o que a gente faz. Isso, um dia, vai reverter em um retorno financeiro?

Espero que sim, mas não é o que nos tem movido, vamos continuar fazendo enquanto a gente curtir.

Abaixo, alguns dos vídeos marcantes da trajetória do Canal Londres.

PESSOAS
Lena Santana
Thiago Soares
Marrom Tattoo e Rogério Araújo
Zeu Azevedo

LUGARES
Oxford
Madri

Silvino Ferreira Jr. é publicitário de profissão, poeta diletante e um amante do futebol e da boa música. Sua extensa e vitoriosa carreira inclui passagens por agências do porte de JWT Brazil TBWA, DM9/DDB e Y&R.  Após este longo período em Londres, acaba de receber a cidadania britânica.