A todo gás

O que muitos de nós classificamos como novo, ou inovação, muitas vezes se refere a tecnologias e processos que foram criados há mais de 100 anos. Vejamos o carro elétrico, por exemplo. Os registros históricos mostram que o automóvel deste tipo chegou às ruas no final do século 19. Por que não deu certo? Bem, uma indicação pode ser o preço elevado e o peso da bateria, questões que só vêm sendo equacionadas ao longo da última década.

No caso das fontes alternativas de energia não é diferente. Muitos dos experimentos e tecnologias usados hoje, de certa forma, atualizam experiências do passado que, de tão inovadoras, ou tão simples, acabaram sendo relegadas ao segundo plano. Uma delas é o aproveitamento do gás resultante da decomposição de restos de alimentos, fezes de animais e até do tratamento do esgoto.

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Trata-se de um componente já consagrado no cardápio de energias utilizadas em países como Inglaterra e Alemanha (sempre ela!), nos quais esta fonte se impõem como um insumo importante para gerar  eletricidade, movimentar veículos e ativar as caldeiras de empresas de inúmeros segmentos industriais.

Desde o início de setembro, o Brasil, e mais especificamente Santa Catarina, vem escrevendo uma importante página nesta história. Graças a Brasil Clean Energy que inaugurou em Pomerode, no início de setembro, uma usina para processamento e distribuição de biogás extraído do lixo.

A expectativa envolvendo este segmento é grande. Muito mais, até, por alguns “defeitos crônicos” de nossa sociedade do que propriamente pelos benefícios econômicos e ambientais deste processo. Cada brasileiro gera, em média, 1,08 kg de resíduo por dia. Deste montante, 55% são compostos orgânicos. Ou seja: alimentos. O impacto desse desperdício de comida (e de dinheiro) tem consequências perversas em diversos aspectos de nosso dia a dia.

 EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Como reduzir a quantidade de resíduos exige a adoção de programas de educação em larga escala, e que demandam tempo para surtir efeitos, o jeito é tentar extrair dividendos desta equação evitando  problemas crônicos associados aos resíduos orgânicos: contaminação do subsolo pelo chorume e emissão de gás metano na atmosfera, além de permitir a substituição de parte do petróleo usado para fazer rodar a frota de veículos.

“O lixo gerado em uma cidade com 200 mil habitantes daria para produzirmos biogás suficiente para abastecer uma frota de 550 automóveis por dia”, diz o diretor-presidente da Clean Brasil Energy, Magno Damasceno. “Sem contar as 12 toneladas diárias de gás carbônico, um insumo importante para a indústria e no qual nosso país também não é auto-suficiente.”

Em entrevista a 1 Papo Reto, o executivo adiantou os planos da empresa. A ideia é instalar refinarias semelhantes em três estados, já em 2015. Uma em São Paulo, outra em Santa Cataria e a última está sendo negociada entre Rio Grande do Sul e Minas Gerais, graças a investimentos da ordem de R$ 230 milhões, gerando 210 empregos diretos. Boa parte deles para técnicos qualificados.

 EMPREGO VERDE

O chamado “emprego verde”, aliás, tende a ser ainda mais estimulado pelas mudanças de nossa matriz energética. No relatório divulgado em maio, a Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, da sigla em inglês) apontava o Brasil na segunda posição em matéria de postos de trabalho com esta característica, com um total de 890 mil pessoas empregadas em 2012. Estamos à frente dos Estados Unidos (625 mil), mas muito longe da China (2,6 milhões). A força de trabalho global ligado à iniciativas de desenvolvimento sustentável já soma 6,5 milhões.

Neste contexto, o biogás deverá render boas surpresas para investidores e os profissionais que atuam no setor de energias oriundas de fontes não convencionais. Estudos do Ministério das Minas e Energia indicam que o gás (a partir de inúmeras fontes) terá uma participação importante na revitalização de nossa matriz energética. A estimativa é de que o consumo deste insumo seja multiplicado por quatro, até 2050.

É claro que boa parte da expectativa leva em conta o subproduto extraído com o petróleo da área do pré-sal. Mas o destaque, de acordo com o estudo, será mesmo o biogás/biometano que, em 2035, de acordo com a mesma fonte, deve ultrapassar o biodiesel em importância.

É nisso que apostam os sócios da Brasil Clean Energy e outros investidores do setor.