Copa, preconceito e América do Sul

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Como jornalista, tive a oportunidade de trabalhar em um site de informação e venda de arte latino-americana. A criadora era uma argentina com recursos e ideias superlativas. Caí lá por indicação de uma querida colega do Estadão. Faz tempo, foi no começo dos anos 2000. O projeto, que tinha um nome autoexplicativo, Latinarte, era uma mistureba de gente. A maioria dos colaboradores era da Argentina. Dois Diegos, uma Romina, uma María, uma Marina…

Havia os brasileiros, como eu, e colombianos, venezuelanos, chilenos. A sede era em Miami, mas havia escritórios em Buenos Aires e São Paulo. Por causa dessa experiência incrível de trabalho, que durou mais de dois anos, conheci a arte e os hábitos dos sul-americanos como trabalhadora mesmo. Bem diferente de turista.

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A Argentina foi um caso de amor, pois acabei indo passar duas semanas lá. Se havia preconceito contra brasileiros em Buenos Aires, não percebi. Fui bem tratada por todos. Gostava da boemia deles, de jantar tarde, da boa comida, da bebida. Da efervescência cultural, do charme, da beleza das avenidas do centro, da elegância dos portenhos. Da falta de violência nas ruas, de poder andar tarde, sem estar acompanhada. Não sei como a cidade é hoje. Desconfio que a decadência econômica piorou tudo. Mas, naquela época, era assim.

Não fui à Colômbia pelo projeto. Mas conheci uma moça – Estefanía – que trabalhava conosco quando tive que ciceroneá-la em São Paulo – o mesmo eu fiz com alguns argentinos que baixavam por aqui e ficavam maravilhados com São Paulo.

Imagine o que é o preconceito. Como ele deturpa nosso olhar sobre outras nações e pessoas. Ele se sedimenta em nossa mente por conta de coisas que lemos. Sobre a Colômbia, nos anos 90, quando comecei a consumir notícias mais avidamente, o que chegava, ou melhor, tudo o que chegava era negativo. Cartéis, violência, bombas. Quando conheci Estefanía, tudo isso estava fresco em minha memória. É terrível o estrago.

Talvez Estefanía tenha adivinhado meus pensamentos, pois lá pelas tantas, durante a conversa num bar nos Jardins, ela olhou bem séria para mim e disse: “São Paulo é mais violenta que Bogotá”.

E começou a falar da beleza do lugar de onde vinha, de como amava a Colômbia, da natureza. De tudo o que sabemos, racionalmente, que existe lá e fica encoberto pelo emocional negativo gerado pelas notícias e pelos filmes americanos em que os bandidos e mocinhos são selecionados para acentuar estereótipos.

Hoje, quartas de final da Copa, jogamos contra a Colômbia. Talvez mais à frente, o nosso adversário em campo seja a Argentina. Espero que, no futebol, sejamos vencedores! E, na acolhida aos nossos hermanos, também. Afinal, a Copa realizada no Brasil é uma oportunidade imperdível de derrubar preconceitos e acolher o outro com um olhar mais generoso e, principalmente, curioso sobre as riquezas desses incríveis sul-americanos, os nossos vizinhos.