Jogo da Copa também é palco para selvagens

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Fui um dos felizardos a conseguir um ingresso para assistir ao jogo Argentina x Bélgica, disputado no Estádio Mané Garricha, em Brasília, válido pela Copa do Mundo. Vi Messi jogar ao vivo sem ser pela TV, finalmente. Gostaria de ter visto Zico em anos anteriores no gramado, mas este, só pela TV mesmo. Bem, voltando ao ponto inicial, fui com a camisa amarelinha da Seleção Brasileira e, ainda assim, torci para que a Argentina avançasse, depois de um empate em 8×8 com a Bélgica no tempo normal e na prorrogação e depois 10×9 na disputa de pênaltis. Eu queria era ver muitos gols e, se possível, a maioria do Messi.

A Argentina fez um gol logo nos primeiros minutos e depois ficou encolhida. A equipe da Bélgica é muito fraca; só jogou alguma coisa contra os Estados Unidos. E na partida contra a Argentina só deu alguns sustos no final do segundo tempo.

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Mais de 68 mil torcedores, entre os quais uns 20 mil ou 25 mil argentinos faziam a linda festa de torcida do lado de fora do estádio e depois nas cadeiras. Os belgas, em menor número, contavam com o apoio da massa de brasileiros, que eram maioria.

Uma festa só.

Papai torcedor dando mau exemplo

Mas eu fiquei incomodado, seriamente incomodado, com o comportamento de torcedores (sic) brasileiros sentados próximos. São aqueles típicos que vão aos estádios e em vez de torcer para seu time, xingar o juiz e celebrar os gols, só pensam em buscar encrenca com os torcedores adversários. Ali o time deles claramente era a Bélgica porque nutriam um ódio dos argentinos, da Argentina e de sua seleção que não parece justificável para quem somente tenta apreciar o bom futebol em uma Copa do Mundo.

Ao meu lado estava um casal com um filhinho de uns 2 anos. O papai dava o “bom” exemplo desde cedo para a criança, enquanto a esposa só se limitava a rir dele. Pulava, gritava bordões para lembrar que o Brasil é pentacampeão, que o Pelé e o Cafu têm mais copas do que a Argentina, que o Pelé tem mil gols e o Maradona só era um reles cheirador.

Bem, até aí ainda passa. Zoar não dá cadeia pra ninguém.

Mas aí o sujeito começa a xingar a Argentina (o país), ofender os argentinos presentes ao estádio, xingar o Messi, os outros jogadores da Argentina do nada. Nenhum torcedor argentino em volta sequer o provocou, gritou contra o Brasil ou algo parecido.

Pelo contrário: havia casais de argentinos, mulheres, homens, crianças e jovens que pulavam, balançavam bandeiras de seu país, cantavam hinos a cada boa jogada, tudo na  paz e alegria. Mas não para o “papai”, que vociferava palavras pesadas para quem quisesse ouvir.

E como ninguém dava lá muita bola para ele, tratava de chamar a atenção dos que estavam à sua volta de modo a arregimentar apoio: “Ei, você aí, com a camisa do Corinthians! Tem que xingar esses argentinos FDP todos. Eles vêm aqui e ganham da gente e tiram sarro, xingam a gente! Tem que meter o pau neles agora! Se a Copa fosse em Buenos Aires, você acha que a gente ia poder assistir os jogos em paz?”, falou para um sujeito com a camisa do Corinthians.

Pelo jeito, o tal corinthiano gostou do “convite”, esqueceu da namorada ao seu lado e passou a gritar, xingar os pacatos argentinos que ali estavam torcendo, que se sentiam visivelmente incomodados pelas ofensas, mas como estavam ali pelo espetáculo, evitaram confusão. Não pensem que o “papai” parou por aí.

Pegou o filhinho no colo e saía andando pelas fileiras de cadeiras gritando com os torcedores argentinos em volta, apontando para eles: “Olha, filho! Os argentinos estão aí, loucos para serem brasileiros, serem pentacampeões. Eles só têm duas Copas, coitados. Moram num país de m… e vêm pra cá cantar de galo pra cima da gente!” – isso aos berros e repetindo a cantinela para vários grupos de argentinos. E a cada grupo ele acrescentava um ou outro palavrão ou outro tipo de ofensa que é bom nem lembrar.

Até que o “papai” notou que perto dele tinha um sujeito com a camisa do Boca Juniors. Tentou instigar o corinthiano a arrumar encrenca com ele em razão de torneios passados disputados entre as duas equipes (Boca e Corinthians). Quebrou a cara: o sujeito com a camisa do Boca era BRASILEIRO e CORINTHIANO e estava ali torcendo para a Argentina.

Aí o “papai” não aguentou. Quase xingando o sujeito ficou questionando aos berros como ele podia estar com a camisa do Boca ali. E querendo chamar todos em volta para criticar o rapaz por causa disso.

Notem que esse tempo todo, o “papai” mal prestava atenção ao jogo. Deve ter vindo da capital paulista pelo forte sotaque “orra, meu!”. Pagou os ingressos para a família e para ele, mas o espetáculo pouco importava. A vontade de arrumar encrenca era maior e até usar o filhinho de 2 anos para isso pareceu ser uma boa manobra.

Bem, com a aproximação do final do segundo tempo, a Argentina estava acuada pela Bélgica, que tentava sem sucesso um golzinho de empate. Os brasileiros em volta de mim torciam flagrantemente para que a Bélgica empatasse e que a Argentina fosse obrigada a correr mais 30 minutos e disputasse pênaltis para que os jogadores ficassem cansados para as etapas seguintes – se viessem a vencer.

Com o “papai” e o corinthiano parceiro gritando, xingando e insuflando a massa em volta, logo outros aderiram ao coro agressivo e covarde contra a minoria de argentinos que estavam na nossa capital passeando e aproveitando o futebol-espetáculo organizado pela Fifa.

Ou seja, o caldeirão começou a ferver e eu comecei a me ver em meio a um ambiente que de pacato e festivo estava se transformando em barril de pólvora. Se a Bélgica fizesse o tal gol, a pancadaria correria solto, aposto.

Alguns focos de confusão envolvendo argentinos e brasileiros surgiram nos minutos finais do jogo. A Polícia Militar foi eficiente e resolveu os conflitos com tranquilidade.

Agora, convido-os a imaginar o que seria o jogo Argentina x Brasil.

Batalha campal

Se apenas dois sujeitos do tipo do “papai” e do “corinthiano”, em uma partida contra o inexpressivo time da Bélgica, têm capacidade para insuflar outros torcedores para ofender os visitantes de outro país – em uma partida em que nem o time deles está jogando! – o que esperar em termos de comportamento em um jogo do Brasil contra a Argentina? E se a Argentina vencer? E se golear?

O “padrão Fifa” irá por água abaixo? A tal “Copa das Copas” vai ficar na memória em razão de uma batalha campal entre torcidas?

Convém lembrar que no jogo Argentina x Bélgica, os compradores de ingressos ocuparam cadeiras aleatoriamente, ou seja: belgas, argentinos, brasileiros e outros tudo junto e misturado. Se Brasil e Argentina se cruzarem para decidirem o terceiro e quarto lugares em Brasília, ou a final no Maracanã, acredito que deveria valer a regra dos estádios brasileiros em dias de torneios locais. A organização deveria ignorar as cadeiras numeradas e separar as torcidas. E fora do estádio vira questão para as forças de segurança.

No final das contas, o “papai” foi embora para casa visivelmente frustrado, assim como o corinthiano. Nenhum argentino revidou a provocação e não teve pancadaria. A Argentina venceu por 1×0 e avançou na competição.

Triste o papel desses dois torcedores (sic) que envergonham quem realmente vê a copa como espetáculo, que encara os torcedores adversários como convidados estrangeiros em sua casa. Não acredito que haja somente santos no lado dos argentinos, que certamente provocaram brasileiros também. Mas não tive oportunidade de ver a minoria argentina bancando selvagerias contra nenhum conterrâneo meu.

Desde muito antes da Copa começar eu comentava com amigos que uma das maiores preocupações era com os “ratos” de estádio em jogos de alta rivalidade (não só brasileiros). Aqueles torcedores (sic) que de tão selvagens inibem a presença de famílias, de pessoas educadas e civilizadas nos estádios.

Esses ratos vão para brigar, seja no campeonato estadual, seja no Brasileirão e agora sabemos: também na Copa do Mundo.

Eu tinha a imagem de que esses ratos são geralmente jovens sem muita coisa na cabeça, desocupados, com alguns registros em ficha criminal e covardes ao extremo por agredirem em bando.

Ao conhecermos a figura de um pai de família usando seu filhinho como parceiro de provocação e ofensas, fazendo parte dessa galera do mal dos estádios, devemos ficar mais do que preocupados.

Sergio Cross é diretor da Profissionais do Texto Agência de Comunicação