Cabeleira estilosa e livre

A referência direta ao se pensar no título acima é a canção Cabelo, de autoria de Jorge Ben Jor e Arnaldo Antunes e imortalizada na magistral voz da baiana Gal Costa, que sempre cultivou madeixas esvoaçantes. Mas o cabelo, e principalmente o que se faz com ele, em especial no caso das mulheres,  se transformou em um assunto capaz de provocar longos debates por aqui.  O Brasil é um dos países onde as mulheres mais consomem produtos para cabelos, no mundo.

Apesar de esta movimentação dar origem a um mercado fantástico, tanto em matéria de geração de empregos como no caso de pesquisa e desenvolvimento, sem contar o marketing, trata-se de um mercado apoiado fortemente na negação.

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Em diversos sentidos.

Afinal, quem nunca ouviu a expressão “Fulana tem cabelo ruim!”? Este tipo de afirmação causa um efeito deletério na autoestima de mulheres em geral, e na de crianças em particular. Volta e meia vemos na mídia alguma ocorrência, especialmente nas escolas, envolvendo o volume ou o comprimento do cabelo de um aluno ou de um funcionário.

Para falar deste assunto, 1 Papo Reto conversou com duas personalidades paulistanas de áreas distintas e histórias de vida diferentes. Mas que têm em comum o compromisso com a democracia e a tolerância. Falo da cantora, compositora e ativista social Nanda Cury, vocalista da banda X So Pretty e do político Floriano Pesaro, de origem judaica, parceiro de luta de Nanda em diversas causas sociais.

Nanda nos contou como criou o Blog das cabeludas, falou de ativismo social e sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres, de todas as raças, em um país machista como o Brasil.

Como surgiu a ideia do Blog das Cabeludas?
Quando resolvi assumir meu cabelo crespo trabalhava como vendedora em uma livraria muito movimentada, na Avenida Paulista. Diversos clientes elogiavam a minha coragem em assumir o cabelo crespo e com volume. Antes de me assumir uma ‘cabeluda’ usei o cabelo alisado por uns cinco anos.

Fazia escova, chapinha e relaxamento. Frequentava o salão de cabeleireiro toda semana e não suportava a ideia do meu cabelo natural. Sentia vergonha de ver como meu cabelo era armado e cheio de frizz, até mesmo quando as outras clientes olhavam admiradas enquanto a cabeleireira gastava 4 horas para deixar meu cabelo ‘liso como o de uma japonesa’.

A cabeleireira recebia os parabéns por conseguir domar aquela juba, e eu ficava cada vez mais horrorizada com aquela minha imagem aterrorizante, me sentia um monstro. Para suportar todos esses procedimentos também fazia hidratação e torrava meu salário de estagiária quase integralmente para manter o cabelo liso.

Tudo que eu recebia era para investir no meu cabelo.

Era um distanciamento grande que havia entre quem eu parecia e quem eu era no fundo. Eu não sabia quem eu era e não me aceitava de jeito nenhum, havia um abismo entre o que era e o espelho. Anos depois, quando eu finalmente resolvi assumir o cabelo crespo, comecei a trabalhar como vendedora nessa livraria na Paulista. Eu lidava com centenas de clientes diariamente e percebia que poucos eram capazes de disfarçar a curiosidade, o riso, ou calar perguntas sobre o meu cabelo:

– “Que coragem daquela moça!”

– “Onde estava o livro? No seu cabelo?”,

– “Moça, você tomou um susto de manhã, por isso está com o cabelo arrepiado?”,

– “Mamãe, o que aconteceu com o cabelo daquela moça?”,  – “Moça, você é uma bruxa”,– “Uau, que coragem você tem para assumir o cabelo crespo. Você tem estilo, então combina com você esse cabelo. Meu cabelo é assim também, mas eu jamais poderia me assumir seus cabelos crespos devido a meu emprego/namorado/recalque ou vergonha.”

E essas mulheres de cabelo alisado começaram aparecer aos montes, repetindo o mesmo discurso, que em mim era bonito e corajoso aquele cabelo crespo. Elas diziam que sentiam inveja e admiração, e que gostariam de ter essa coragem.

Aos poucos fui conversando com essas mulheres e identifiquei que todas, sem exceção, tinham problemas com auto-aceitação por conta do cabelo crespo. Todas, sem exceção, alisavam porque acreditavam que isso as faria serem dignas de admiração, amor e respeito.

Um belo dia uma dessas clientes chegou à livraria, com o cabelo curto e disse que inspirada em mim tinha abandonado o alisamento. Ela me agradeceu e falou que tinha se descoberto outra pessoa, uma mulher livre. Esse relato me marcou tanto que naquele dia mesmo passei a enxergar todas as mulheres que passavam por mim e que tinham o cabelo crespo.

Passei a admirá-las e a comemorar toda vez que eu via alguma cabeluda em paz com o seu cabelo.

Nesse mesmo dia, durante o almoço comecei a tirar as primeiras fotos, quis registrar esse movimento que começava a surgir na Avenida Paulista, o das cabeludas. Trabalhei na livraria por mais cinco anos e o cabelo se tornou minha grande marca registrada. Era comum estudantes de artes, moda e fotografia pedirem para me fotografar durante o expediente.

Dei entrevistas, posei para artistas e fotógrafos e lembro que durante este período comecei a consolidar minha identidade, que antes estava tão bagunçada e maltratada.

Muitas mulheres negras e mestiças dizem alisar o cabelo alegando que, dessa forma, é mais fácil de cuidar. Qual é a sua opinião sobre este posicionamento?
Lavo meu cabelo no máximo 2 vezes por semana. Acordo, bagunço ele bastante e deixo-o livre. Não dá trabalho algum. O cabelo crespo é super versátil. Você pode fazer um look básico ou um penteado mais ousado apenas com um grampo ou um elástico. A criatividade de cada um é o limite.

Vale a pena gastar um tempinho na frente do espelho testando penteados práticos e que combinam com cada um. Os mais comuns são rabo de cavalo preso bem no alto da cabeça ou ainda prender o cabelo de um lado só.

Há pessoas que usam faixas e presilhas em formato de flor. Sempre posto fotos com esse tipo de dica no blog. O cabelo alisado é que dá trabalho, é preciso hidratação profissional, pois a química agride e muitas vezes estraga o cabelo, além de fazer mal para a saúde. Há vários canais no Youtube com dicas para cabelo crespo.

Algumas empresas, como a Unilever, ensaiaram lançar produtos de beleza, sabonetes, por exemplo, para a pele negra. Os produtos duraram pouco no mercado apesar de a população brasileria ser composta de cerca de 60% de negros e mestiços. Como você enxerga essa questão?

Acho que as propagandas para o público negro são equivocadas, justamente por tratarem a mulher negra de maneira artificial. Há um nicho de mercado, mas você precisa entender a identidade do seu público para se comunicar melhor com ele.

Em seu blog vi alguns posts de machismo explícito e até uma certa “intimidação” vinda de homens, especialmente negros. Sua experiência mostra que o homem negro é mais machista que o não negro?

Vivemos numa sociedade com preconceitos culturalmente enraizados. O brasileiro é extremamente preconceituoso. Para quem diz que vivemos numa sociedade igualitária basta ver a última pesquisa feito pelo IPEA . O que isso quer dizer? A discriminação é mais forte e presente na vida de algumas pessoas. Mulheres negras sofrem preconceito duplo: por serem mulheres e por serem negras.

Justamente por serem mais vulneráveis nesse sentido é que merecem ser exaltadas. Pra mim, as mulheres negras são musas, rainhas cabeludas, que têm muito valor cultural, estético e histórico. São mulheres fortes, que precisaram aprender a lutar desde cedo contra o preconceito.

Existe um filme no Youtube que fala sobre a perda de protagonismo dos integrantes da comunidade negra, nos Estados Unidos, devido à ascensão profissional das mulheres negras. Você, que é uma mulher bem-sucedida, como enxerga essa questão, os homens têm medo de se relacionar com você?

Para muitos homens, principalmente os companheiros negros, é difícil aceitar o protagonismo de suas companheiras. Já vivi algumas vezes a situação em que o marido se irritou porque a mulher seria fotografada e ele não.

Nessas situações procuro explicar que o foco do blog das cabeludas é nas mulheres e até incentivo que se eles querem exaltar a beleza negra ou falar dos homens que façam eles mesmos um blog dos cabeludos.

Sempre que surge a oportunidade fotografo mulheres trans cabeludas. A luta delas é por respeito e dignidade e merece ser retratada no blog.

Há várias situações de racismo no discurso das pessoas e que passam despercebidas pela maioria das pessoas. Já ouvi absurdos do tipo “Você tem esse cabelo ruim, ainda bem que você é branca”.

Há muitos desconhecidos, em geral homens, que criticam meu cabelo na minha frente, como se eu não estivesse ali. Em geral é algum tipo de racalque ou deboche.

Querem se vangloriar para os amigos ou para suas namoradas dizendo que cabelo crespo é feio, horrível, apontam, riem. As mulheres costumam elogiar e querem por a mão, mas muitas têm um discurso problemático, autodepreciativo.

Elas dizem coisas do tipo: “Que lindo seu cabelo, queria ter cabelo crespo, odeio meu cabelo liso”.

Respondo que o cabelo liso também é bonito, que todo cabelo combina com a pessoa, que é um processo de autoaceitação, que é ótimo quando conseguimos desenvolver o amor próprio.

Esse tipo de situação é tão comum como o assédio que as mulheres vivem no espaço público. Mas no geral as pessoas elogiam. Acho que quando você tem amor próprio e adora seu cabelo crespo isso reflete no seu estilo e você exala autoconfiança. As pessoas costumam identificar e respeitar isso.

Hoje nada disso é capaz de me atingir, mas para crianças e adolescentes, que ainda tem sua identidade em formação, esse bullying em geral é o que resulta em alisamentos. É uma tentativa de anular quem se é para ser aceito pelo grupo e deixar de ser alvo de críticas.

Na trincheira do legislativo paulistano

Enquanto Nanda ocupa as ruas e o mundo virtual com suas campanhas em prol da beleza natural de mulheres e homens, além do respeito à diversidade, o vereador Pesaro faz a sua parte na Câmara dos Vereadores. É sempre bom lembrar que, felizmente, estas bandeiras contam com a simpatia e o apoio de um grande número de parlamentares, de inúmeros partidos. O trabalho deles vem sendo contado nas páginas virtuais de 1 Papo Reto, em diversas ocasiões.

Pesaro é um antigo combatente da luta contra toda forma de discriminação. Ele ocupa uma função estratégica no Blog das Cabeludas. De celular em punho, o parlamentar do PSDB fotografa todas as cabeludas que encontra em suas andanças pela cidade. Nesta entrevista ele fala não apenas da questão estética e da sua valorização, como de iniciativas que visam a mapear a violência de gênero, como forma de as autoridades poderem medir a real intensidade do problema.

Como o sr. conheceu o Blog das Cabeludas, tocado pela Nanda Cury e por que esse tema mexeu tanto com o sr. a ponto de ter se transformado em um colaborador?
Nanda Cury é colaboradora da minha equipe e ativista digital. Ela criou o Blog das Cabeludas porque não se sentia representada nas propagandas de produtos de cabelo crespo, nas revistas e na mídia em geral. Ela identificou que quase toda publicidade dirigida a mulheres negras e também a maneira de representá-las na mídia tradicional é artificial.

O principal objetivo do blog é conscientizar mulheres que alisam o cabelo por acreditarem que devem seguir um padrão de beleza imposto, encorajando-as a assumir o cabelo crespo natural e abandonarem tratamentos à base de produtos químicos. Resolvi apoiar o blog por entender que é importante estimular outro modelo de beleza, mais plural e conectado com a identidade étnica e com a cultura do nosso país. Tenho contribuído com fotos e com a divulgação da página, e a recepção é sempre positiva.

A questão do racismo no Brasil, como sabemos, ainda provoca inúmeras discussões, inclusive se existe tal prática ou não. O sr. está tentando aprovar um PL na Câmara que ajuda a identificar as agressões racistas. Qual o objetivo prático dessa lei?
Não podemos negar que no Brasil o racismo passa, necessariamente, pela questão social e de poderio econômico. Os anos de escravidão deixaram a população negra aquém na corrida pelo mercado de trabalho e também em condições desiguais para lutar pelos seus direitos.

Para tentar identificar a causa de violência contra negros, mulheres, população LGBT, crianças e adolescentes, apresentei um projeto de lei PL 390/2008 que obriga os hospitais da rede pública e privada municipal a notificarem compulsoriamente maus-tratos a essas pessoas.

Os hospitais em geral não possuem anotações ou registros de controle do número de pessoas atendidas em decorrência de maus-tratos ou violência, o que impede uma atuação preventiva e dirigida à educação e conscientização. O formulário utilizado pelos serviços hospitalares, urgência e emergência, ambulatoriais em casos de atos de violência ou maus-tratos não inclui um item específico para esse tipo de ocorrência.

A Câmara de São Paulo e a Prefeitura vêm dando mostras de que estão dispostas a combater o racismo e atuar na promoção da igualdade, por meio de lei, como a cotas em concursos públicos, e a criação da Secretaria de Promoção e Igualdade Racial. Pode-se dizer que o município está assumindo a vanguarda nesta luta?
A criação da secretaria significa reconhecer que o racismo é cultural, está enraizado em nossa sociedade e que ele deve ser combatido por meio da criação de políticas públicas específicas de educação e inclusão.

De acordo com dados do “Mapa da Violência 2011: Jovens do Brasil”, do Ministério da Justiça, o índice de homicídios de negros em relação aos brancos aumentou no País. Esta proporção é ainda maior para mulheres negras em relação às brancas. Mais de 60% das mulheres assassinadas no Brasil, entre 2001 e 2011, eram negras.

Se nos omitimos diante desta realidade, somos cúmplices da perpetuação desta violência. Na Câmara Municipal, também propus um projeto para coibir e punir práticas discriminatórias em estabelecimentos comerciais, industriais e serviços similares (PL 497/09). O estabelecimento cujo funcionário praticar discriminação será multado e no caso de reincidência, o alvará de funcionamento será suspenso por 30 dias.

Por que um parlamentar branco e judeu decidiu assumir a bandeira da luta contra o racismo, especialmente contra os negros?De fato, um homem branco, no Brasil, jamais conhecerá na pele a dor e o peso do racismo. No entanto, minha experiência como sociólogo, vereador e, principalmente, como secretário Municipal de Assistência e Desenvolvimento (em 2005, no governo Serra) me deu todos os elementos necessários para que eu possa entender o quão cruel é a desigualdade e o quanto a exclusão é dolorida e injusta em nosso país.

Minha trajetória política, desde a juventude, sempre foi pautada pela luta contra a exclusão social e pela defesa dos direitos humanos. Posso dizer, sem exageros, que minha missão de vida é trabalhar para diminuir os abismos brasileiros. E, logo que mergulhei na realidade das ruas de São Paulo e me debrucei sobre o tema, pude perceber a catástrofe histórica causada por anos de discriminação e racismo.

Além disso, por ser de uma família de origem judaica, sei bem o significado da discriminação. O povo judeu também sofreu esta e outras violências no Holocausto.

Nota do autor: Bem, como o assunto começou com cabelo, nada mais natural que terminarmos com ele. Para isso, incluímos alguns versos da música da dupla Benjor-Antunes. Sem dúvida, uma homenagem a todas as mulheres:

(…) Quem quer a força de Sansão/ Quem quer a juba de leão/ Cabelo pode ser cortado/ Cabelo pode ser comprido/ Cabelo pode ser trançado/ Cabelo pode ser tingido/ Aparado ou escovado/ Descolorido, descabelado/ Cabelo pode ser bonito /Cruzado, seco ou molhado (…)