O tempero do negócio

Arnaldo Comin e Iris Jönck se conheceram por meio de amigos comuns. Jornalista com longa trajetória nos segmentos de economia e marketing, durante muito tempo Arnaldo frequentou o mundo das agências de publicidade, área na qual Iris fez sua carreira profissional, passando por gigantes como a agência Y&R e a Whirlpool. Da amizade ao namoro, e do namoro ao casamento foram somente dois anos. A partir de 2012, a união passou a incluir também a vida profissional, por conta da criação da Rua do Alecrim, um dos mais destacados e ativos portais de e-commerce dedicados à venda de produtos gourmet.

Apesar de ser chegado às panelas, frigideiras e caçarolas, Arnaldo nunca pensou em seguir carreira na área de gastronomia, atuando como chef, por exemplo. Mas tanto ele quanto Iris tinham uma grande curiosidade por temperos exóticos, azeites finos e produtos que fazem com que o ato da alimentação seja algo um pouco mais próximo de uma experiência divina.

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Mais que tocar um portal de e-commerce de produtos alimentícios, a dupla Iris-Arnaldo atua fortemente com curadoria. “Os alimentos têm uma história e a cada dia mais pessoas estão dispostas a conhecê-la”, diz Arnaldo. “Nossa função é exatamente levar este universo a um número cada vez maior de pessoas.”

É com esta filosofia em mente que eles exploram o interior do Brasil e diversos cantos do mundo em busca de alimentos exclusivos e com um toque de charme. A lista inclui desde o arroz negro plantado e beneficiado na Fazenda Tamanduá, em Sousa (PB), até geleias de umbu e maracujá colhidas e processadas por uma cooperativa de assentados de Canudos (BA). “Valorizamos os processos tradiconais de produção, em que não existe agressão ao meio ambiente e nem aos direitos dos trabalhadores”, explica Arnaldo. “Mas nada de benemerência. O produto tem de ter qualidade e ser fabricado por gente com elevado senso de profissionalismo.”

A ideia de montar o negócio surgiu a partir das andanças do casal pela Europa, a partir de 2010, especialmente pela Espanha e a Turquia. No primeiro, ambos passaram um ano cursando pós-graduação. Enquanto Arnaldo se especializava em jornalismo econômico, Íris frequentava o curso de tendências, onde descobriu que a gastronomia seguia como uma das áreas de negócio mais atraentes do mundo.

Mas o toque final aconteceu um ano depois, em 2011, quando partiram para a Turquia para curtir a lua-de-mel tardia (eles moravam juntos desde 2007). “Ficamos fascinados com a quantidade e a diversidade de temperos”, conta Arnaldo. “A vontade de fazer coisas novas e dispor de mais autonomia foram decisivas para resolvermos montar a empresa”, destaca Iris.

A aposta da dupla vem se revelando acertada. A empresa na qual eles investiram cerca de R$ 500 mil conta hoje com o portal de internet e uma loja física, que funciona desde o ano passado dentro de uma charmosa casa de vila, no bairro de Vila Mariana, na cidade de São Paulo. Além de abrigar o show room e a expedição de produtos, o espaço conta com um escritório, onde Iris e duas funcionárias cumprem expediente de segunda a sexta-feira.

“Até o final do ano estaremos em uma loja de rua”, conta Arnaldo. “Vender alimentos pela internet ainda é muito desafiador e para crescer precisamos também ter uma presença forte no mundo analógico.”

Erros e acertos

A guinada na carreira e na trajetória de vida foi facilitada, de acordo com Arnaldo, pelo fato de que a Rua do Alecrim exige habilidades que a dupla cultivou ao longo de sua trajetória profissional. “Montar um negócio ajudou a resgatar o espírito empreendedor e o gosto por novidades, que me levaram à publicidade”, destaca Iris. Ela deixa claro, contudo, que há sempre um preço a pagar pelas escolhas. A começar pela queda na renda média do casal. “Somente a partir do final do ano é que negócio começará a se pagar”, completa Arnaldo.

Um dos grandes desafios da dupla foi a seleção dos fornecedores e a definição do portfólio de produtos. Muitas vezes, ao apostar em determinado produto da moda ou que atendesse o gosto pessoal deles resultou em dor de cabeça.Um dos exemplos foi com a farinha de jatobá, ingrediente nobre usado por chefs confeiteiros. Na empolgação, eles compraram um lote de 50 quilos. Resultado: não venderam um pacote sequer.

Desde então, as compras de produtos novos são feitas em pequenas quantidades para testar o mercado. “Não se pode ter medo de mudar. O segredo é se manter fiel aos valores do negócio”, Arnaldo. No caso da Rua do Alecrim, o grande mote é o serviço de curadoria gastronômica feito pela dupla.

Agora, o foco do negócio se divide em três vertentes. Além de continuar atendendo os consumidores individuais, a empresa está fortalecendo seus laços com o mundo corporativo e também com o chamado food service. No caso do primeiro, existe não só o site, como também o show room, em que são realizadas vendas diretas para quem não tem paciência de esperar a encomenda chegar pelo correio.

“Um morador de Artur Alvim (bairro da zona leste da cidade a cerca de 30 km da loja) veio aqui para comprar um pacote de sal do Himalaia, sobre o qual ele havia lido em uma reportagem na internet”, lembra Arnaldo. Além disso, a Rua do Alecrim também trabalha com kits de brindes corporativos em embalagens transadas de madeira e papelão, desenvolvidas pela dupla.

Degustação de Azeite

Arnaldo também pretende ser uma espécie de disseminador da cultura do consumo do azeite no Brasil. Para isso, está lançando um serviço de assinatura para pessoas interessadas em receber mensalmente as variedades do produto que ele está agregando ao portfólio.

Trata-se de um grande desafio. Uma vez que existe apenas um produtor de azeite fino no Brasil e esse mercado é dominado por grandes fabricantes globais e grandes importadores. “Esse segmento tem tudo para crescer no Brasil, assim como aconteceu com o vinho, cujo consumo há cerca de 20 anos estava em estágio embrionário entre os brasileiros”, argumenta Arnaldo.

Além do novo serviço, o casal de empreendedores aposta muito em cursos e parcerias com chefs e butiques de carne, por exemplo. Hoje, em sua base na Vila Mariana já acontecem regularmente atividades como degustação de produtos, principalmente de azeite.

Apesar do evidente brilho nos olhos quando fala da trajetória da Rua do Alecrim e de seus planos para o futuro, Arnaldo diz que tem os pés no chão. Para ele, o que facilitou a transição entre as carreiras de publicidade, no caso de Iris, e do jornalismo econômico, no caso dele, foi não terem rompido completamente com o passado.

“Eu sempre fui um provedor de conteúdo e acostumado a lidar com números, enquanto a Ìris trouxe para o negócio suas habilidades de marketing e de interpretar tendências e pesquisas”, diz Arnaldo.

Até que a empresa ganhe musculatura, Arnaldo diz que pretende manter um pé no jornalismo. Desde que saiu da grande imprensa ele montou um birô em casa onde escreve textos para diversas publicações. É ele também quem escreve os textos e as reportagens publicadas no site. Íris, por sua vez, dá expediente na empresa do casal.

E como separar os momentos do casal da vida profissional? “O trabalho vai para casa, não tem jeito”, conta Arnaldo. “Procuramos nos defender disso tentando separar os canais para não misturarmos assuntos e momentos pessoais com os profissionais.” Iris diz que, apesar dos eventuais percalços, o fato de a Rua do Alecrim ser um projeto do casal facilita muito, especialmente nos momentos mais desafiantes. “A insegurança financeira pode afetar o relacionamento. Mas como se trata de um projeto conjunto, conseguimos ficar mais unidos pois o comprimisso para que dê certo é do casal.”