Café com "business"

Quem lida com negócios e pode adiantá-los sem necessariamente estar em um ambiente corporativo – nem sempre o trânsito engarrafado permite -, invariavelmente, recorre a um restaurante ou café para promover breves reuniões, sejam formais ou não. Na capital Brasília, o que costumava ser discutido a portas fechadas e em voz baixa está passando a ser tratado corriqueiramente em voz alta mesmo em ambiente coletivo, tamanha desenvoltura com que se debatem propostas que ainda nem saíram do papel e que vão beneficiar fulano e seu grupo.

Não quero generalizar porque há muitos acertos que ocorrem em ambientes restritos, como é o caso da central de compras de bilhetes aéreos que abordei em artigo recente, publicado aqui.

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Mas, ultimamente, eu e meu amigo rotineiro de café estamos nos surpreendendo com o nível de, digamos, liberalidade com que uns sujeitos tratam de vários temas durante um cafezinho, aparentemente, sem maiores preocupações com quem está ou não ouvindo.

Eu e este amigo nos encontramos pelo menos duas vezes por semana em um mesmo estabelecimento, situado no Lago Sul. Como Brasília é pequena, você acaba reconhecendo muita gente, nem que seja de vista. No final de setembro, em um intervalo de 40 minutos mais ou menos, a mesa quase ao lado à nossa, frequentada por “negociantes”, tratou de uma miríade de temas.

Um deles diz que seu “grupo de influência” está insistindo com seus vários contatos para que o Distrito Federal veja surgir um novo aeroporto – talvez só para cargas – em um terreno localizado em uma região em que as áreas do entorno já foram compradas pelos integrantes do grupo. “A aposta é alta, hein!?” – perguntou um da mesa. O “autor do projeto” respondeu na lata: “Eu não tô para brincadeira. Se o aeroporto sair, aqueles terrenos vão valer ouro; se não sair, vão sediar condomínios”.

Coincidência ou não, autoridades falam abertamente em Brasília que o DF deverá ganhar novo aeroporto. Nos buscadores da internet é possível ver notícias de anos atrás sobre um novo aeroporto voltado à aviação executiva, bem como um “aeroporto industrial” (seja lá o que for isso).

Bem, passado o assunto aeroporto, o grupo do café passa a diversificar. Um diz que quer comprar mil vacas – com a tranquilidade de quem anuncia que vai à feira comprar 1kg de tomates. Outro informa que uma rede tradicional de varejo de utilidades domésticas de Brasília está à venda. O do aeroporto volta a falar e informa que uma rede de supermercado do DF está mal das pernas e que tem um cliente interessado em saber o preço para comprar toda a rede. E logo emenda que vai vender um imóvel na região da avenida Vieira Souto, em Ipanema, no Rio, pela bagatela de R$ 20 milhões. Outro da mesa celebra ter deixado sua loja em um dos shoppings de Brasília – baixo movimento, disse – e que estava para fechar outro “business” de uns R$ 3 milhões mais ou menos – pensa que essa gente tá a perigo?

Ah, se eu fosse fiscal da Receita Federal…ia fazer a festa e ainda tomar um bom café!