A cidade vai parar, e agora?

Se tivesse sido escrito há 20 ou 30 anos, o provocativo questionamento pareceria obra de catastrofistas ou mesmo uma leitura semelhante a de filmes que nos reservavam um futuro sombrio, como aquele apresentado no clássico “Blade Runner”, ou em “Mad Max”. Mas, no que se refere à Mobilidade Urbana, estamos muito perto disso. Tanto que estudos e pesquisas, como as realizadas pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP) e pelo Idec apontam que a questão dos transportes já ocupa o topo das preocupações dos brasileiros, superando áreas sensíveis como saúde, educação e segurança pública. O brasileiro não apenas quer mais linhas de trem, metrô ou ônibus, mas também, e principalmente, deseja qualidade e eficiência no serviço prestado.

Mas como no Brasil o governo, em particular, e a sociedade, de um modo geral, foram atropelados por esse debate, em vez de nos anteciparmos, ficamos a reboque dos fatos.

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Agora, sobram dúvidas e faltam certezas. É isso que explica por que o problema continua sendo tratado como se fosse um mero jogo de exclusão:

– “Tirem os carros da rua!”, defendem uns,
– “Façam ciclovias!”, argumentam outros,
– “A solução do transporte de massa está no metrô!”, professam outros tantos,
– “Precisamos de mais corredores exclusivos de ônibus, mas sem a presença dos táxis!”, elencam outras tantas vozes,
– “O futuro é o monotrilho!”, apostam alguns

Na verdade, a solução duradoura passa por essas opções e outras mais. É assim na Alemanha, no Japão, na França, nos Estados Unidos e em todos os países nórdicos.

Em um regime democrático, a construção da cidade que queremos passa por um intenso debate. Como ninguém se mostra disposto, a princípio, a abrir mão de pontos de vistas e até de privilégios, as soluções precisam ser costuradas a partir da criação de um consenso. Inclusive para definirmos como que os recursos da sociedade serão gastos. Afinal, não existe sistema de mobilidade urbana sem a participação de agentes públicos.

Em São Paulo, maior cidade da América do Sul, o transporte público consome R$ 1,6 bilhão em subsídios ao sistema de ônibus que serve a cidade. Um quadro semelhante pode ser visto em capitais de menor porte e menos populosas, como Salvador, onde o déficit chega a R$ 1,2 bilhão, por ano.

Ou seja, se gasta muito e de forma errada.

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O erro está na qualidade do serviço ofertado aos usuários e como esse transporte público se conecta com as questões maiores como a sustentabilidade da própria cidade.

Neste ponto, o Brasil se mostra extremamente atrasado em relação aos demais países que vêm intensificando a aposta em combustíveis alternativos. Motores movidos a eletricidade, biodiesel, ar comprimido ou mesmo célula de hidrogênio já são uma realidade viável.

Estamos perdendo o passo também no que se refere à adoção de sistemas que integram modais diferentes, como bicicleta e transporte público (ônibus/trem/metrô) em uma mesma jornada, locação de veículos compartilhados ou na disseminação de aplicativos que viabilizam um esquema organizado de carona, inclusive entre pessoas que não se conhecem.

Mesmo sabendo que as emissões na atmosfera dos poluentes provenientes do cano de escapamentos de automóveis, motocicletas e ônibus são responsáveis por 15 mil mortes por ano, de acordo com estudo do Instituto Saúde e Sustentabilidade, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP). É mais que o dobro das mortes causadas por acidentes de trânsito.

A situação é igualmente drástica em outros países. Em todo o mundo, o número de óbitos atingiu a marca de 7 milhões, em 2012, de acordo com pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), decorrentes de problemas respiratórios e cardíacos, por sua vez derivados da poluição atmosférica.

Por conta disso, melhorar a mobilidade urbana de nossas cidades não fará apenas com que cheguemos menos “quebrados” e mais rápido a nossas casas. Também servirá para preservar nossa saúde e evitará a perda de mão de obra, do operário ao cientista, por meio da morte prematura de integrantes de todas as camadas sociais.

Nas reportagens, artigos e infográficos que compõem este especial sobre Mobilidade Urbana, você verá a opinião de empresários, usuários e  especialistas no quesito transporte/mobilidade.

Mais que apontar os possíveis vilões, nossa ambição é mostrar, por meio de experiências inovadoras, como o problema está sendo resolvido no Brasil e em outros países.

Contamos ainda com um artigo escrito pela jornalista, escritora e cicloativista Cristina Rappa. Sempre que pode, ela viaja para conhecer, na prática, como é andar de bike pelas mais diversas capitais. Para este especial, ele escreve sobre sua experiência em Amsterdã, uma espécie de paraíso para as magrelas!

Boa leitura.