Extermínio de ecologistas

O número de mortes violentas produzidas por arma de fogo no Brasil sempre foi alarmante. Especialmente nas capitais e até em algumas cidades do interior. Contudo, nada se compara ao que vem acontecendo com os ambientalistas. Infelizmente. Os números indicam que a defesa de biomas tem sido “punida” com a morte, de acordo com a edição 2014 do relatório Deadly Environment da ONG britânica Global Witness.

No período 2012-2013, nada menos que 448 mortes das 908 registradas globalmente ocorreram no Brasil. Honduras e Filipinas aparecem na sequência com 109 e 67 mortes, respectivamente.

 Ajude 1 Papo Reto a continuar divulgando as grandes iniciativas em ESG, inovação e empreendedorismo de impacto social: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou faça uma DOAÇÃO

 

Os eventos estão ligados a disputas por recursos naturais envolvendo a exploração de florestas (para produção de madeira), da prospecção de minérios, ouro e diamantes por exemplo, e também por conta da atividade agrícola e pecuária.

O fator Amazônia

Quem acompanha este debate de perto é o jornalista Felipe Milanez, 35 anos.Nascido em Porto Alegre, ele se mudou para São Paulo com 14 anos, onde se graduou em direito. Mas a face mais conhecida de sua trajetória pessoal e profissional é como jornalista e fotógrafo da revista americana National Geographic, pela qual fez incursões na Amazônia, região que aprendeu a amar.

Lá, pode ver de perto a luta de pessoas que, sem qualquer respaldo de autoridades locais, estaduais ou mesmo federais, vivem em um cenário de abandono e de medo.

E quem é o culpado? Bem, Felipe diz que todos que estão atuando contra a floresta têm sua parcela de responsabilidade.

A começar pelo governo federal, que elabora as macropolíticas de desenvolvimento, passando por governos estaduais que atuam de forma equivocada, como no caso do de São Paulo, que foi incapaz de lidar de forma eficiente com a crise hídrica.

Também não escapam de seu radar os brasileiros em geral que consideram como válida a opção da destruição da floresta como forma de garantir um estilo de vida baseado no consumo excessivo de recursos ambientais.

Consumo excessivo

“Destruir o rio Xingu sob o argumento de que isso vai permitir ligar um computador em São Paulo, coisas que a gente lê nas redes sociais, é uma perspectiva muito triste, tacanha e idiota de quem não entendeu o que está acontecendo do lado de fora da janela”, pontua. “O alto consumo de matérias-primas e o neoliberalismo desenvolvimentista são atualmente as maiores ameaças para a Amazônia e o território brasileiro.”

No início do ano Milanez se mudou para Coimbra, em Portugal, onde cursa especialização em ecologia política. Ele deixa claro que não saiu do Brasil por conta de qualquer ameaça, mas para ampliar seus conhecimentos nesta área.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida a 1 Papo Reto.

Quais os maiores desafios para os ecologistas no Brasil?
Há inúmeros riscos, principalmente para os ecologistas populares, aqueles que defendem seus territórios e meios de vida contra a destruição ecológica. São esses os ambientalistas que estão sendo assassinados no Brasil. Há também a violência do Estado e o que o economista e ambientalista catalão Joan Martinez Alier chama de “paranoia antiambientalista”, presente em diversos lugares do mundo, não só no Brasil. Isso significa aquela paranoia de governantes contra os ambientalistas e que usam as forças do Estado para reprimir manifestações e organizações civis, como essa falsa acusação “às ONGs” com o fechamento de organizações da sociedade civil – exemplos recentes no Equador e na Bolívia. Quem mais sofre com a destruição ambiental são as populações pobres e excluídas, e são elas também as que mais sofrem com diversos tipos de violência no Brasil. O maior desafio para esses ecologistas são as mudanças econômicas, políticas e sociais que permitam o acesso à cidadania, a serem reconhecidos como cidadãos e terem direito ao protagonismo de suas vidas. O problema ambiental é um problema político, econômico e social ao mesmo tempo.

Em 12 anos e governo de esquerda, eu, como cidadão, esperava um pouco mais de ousadia em muitos campos. Contudo, causa espanto o fato de que, hoje, o Brasil ocupe esta triste posição em relação à morte de ecologistas. Você acha que o governo falha nesta área por conta de quê?
As mortes de ecologistas no Brasil acontecem com uma alta intensidade desde a ditadura, atravessaram os anos 1990, os anos 2000, e hoje a perspectiva é que os conflitos ecológicos continuem acirrados e cada vez mais sangrentos. A diminuição da taxa de desmatamento na Amazônia, por exemplo, não produziu uma diminuição nos assassinatos de ambientalistas. Os problemas sociais que causam essa violência seguem uma linha contínua desde a Ditadura, não houve uma transição democrática nesse sentido: quem mata mais e quem é mais violento continua mais beneficiado pelo Estado nos conflitos fundiários, a maior causa de mortes de ambientalistas de acordo com os relatórios da Comissão Pastoral da Terra. O atual governo, aliado ao agronegócio, tem acirrado conflitos fundiários em sua posição política de não demarcar terras indígenas, não reconhecer territórios quilombolas e não fazer a reforma agrária – que são determinações legais contidas na Constituição Federal, propostas jurídicas necessárias para um futuro melhor para o país.

Já está claro que ser ecologista é um risco de vida em muitos países. Especialmente no Brasil. Por que os ambientalistas são vistos como inimigos?
Os inimigos são categorias sociais construídas em cada conflito, e não há como generalizar nessa resposta. Quem são os ecologistas em cada contexto ajuda a dizer como são construídos, nesse contexto, como inimigos. Pode ser a paranoia antiambientalistas. Ou mesmo ser identificado no ambientalista (ou atribuído a pessoa ambientalista em questão) a ideia de que aquela pessoa quer que se cumpra a lei – e, por isso, deve ser assassinada. Esse é o caso do assassinato de Zé Cláudio e Maria, no Pará. No caso de conflitos por terra, todos aqueles que são vistos como inimigos dos grandes detentores de terra, do latifúndio, dos poderosos ruralistas, sofrem algum tipo de violência, seja a escravidão, as ameaças ou os assassinatos. O latifúndio é em si uma violência, uma apropriação violenta de terra com a despossessão de direitos de outras pessoas. Especialmente no Brasil, o latifúndio sempre trabalha armado para garantir a sua existência, seja com pistoleiros, com empresas de segurança, ou com as polícias.

Você já foi ameaçado de morte? Sua ida para a Europa tem relação com ameaças ou receio por sua vida?
Nunca fui ameaçado de morte nesse sentido em que se realizam ameaças contra defensores de direitos humanos no Brasil. Minha mudança para a Europa se deve ao fato de eu ter sido aprovado em um projeto inovador de pesquisa em Ecologia Política que se chama European Network of Political Ecology, bastante concorrido. Uma oportunidade pessoalmente extraordinária de trabalho na minha carreira. Hoje, sou pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e dessa rede, o Entitle.

Você trabalhou muito tempo como repórter da National Geographic. Quais foram as imagens mais marcantes que clicou em sua trajetória?
Fiz duas grandes reportagens na National Geographic que me marcaram muito. Uma sobre o contato com dois índios Piripkura, no norte do Mato Grosso, sobreviventes de um genocídio. Araquém Alcântara, um grande fotógrafo e amigo, foi comigo nessa viagem. Depois realizei uma expedição com cientistas do Museu Paraense Emílio Goeldi na calha norte do Rio Amazonas, no Pará. O fotógrafo Adriano Gambarini foi comigo, ele tem muita experiência em acompanhar expedições científicas. Para esse trabalho eu ainda retornei para visitar o povo Zo’é, no Pará. Esses dois trabalhos, finalistas do Prêmio Abril, foram para mim grandes experiências de vida. Conheci um povo que foi destruído, massacrado, “genocidado”, os Piripkura, vítimas da violenta expansão agropecuária no norte do Mato Grosso. E um outro povo que conseguiu sobreviver encontrando uma proteção natural no norte da Amazônia, uma região de difícil acesso protegida por rios encachoeirados. A pressão sobre os Zo’é hoje é imensa, ao mesmo tempo em que os Piripkura ainda não possuem terra demarcada, e o crime de genocídio contra eles segue sem investigação.

A Amazônia está em perigo? Caso positivo, quais são as principais ameaças a este bioma?
A Amazônia está em perigo. As populações que vivem na Amazônia estão em perigo. O mundo todo está em perigo. Ambientalismo não é hoje uma visão política romântica de gente rica que vive na cidade – e para mim nunca foi isso. É preciso romper, acabar com essa visão tacanha que está destruindo a própria possibilidade de sobrevivência no planeta. A Amazônia deve ser protegida, assim como o Rio Tietê. Destruir a Amazônia impacta diretamente em secar a água de São Paulo. O ambiente está absolutamente interligado, e não há que se pensar em uma separação natureza e cultura, mas formas de coexistência. Destruir o rio Xingu sob o argumento de que isso vai permitir ligar um computador em São Paulo, coisas que a gente lê nas redes sociais, é uma perspectiva muito triste, tacanha e idiota de quem não entendeu o que está acontecendo no lado de fora da janela. O alto consumo de matérias primas – ou, metabolismo social – e o neoliberalismo desenvolvimentista são atualmente as maiores ameaças para a Amazônia e o território brasileiro. Logo, a maior ameaça contra todas as populações que vivem nesse ambiente.

O modelo de desenvolvimento escolhido pelo governo para a região, como a construção de megausinas, por exemplo, pode ser apontado como parte do problema ou parte da solução?
O modelo de desenvolvimento do atual governo é um motor de subdesenvolvimento com destruição dos recursos naturais. Se vier a serem construídas todas as megausinas planejadas na Amazônia isso irá provocar um holocausto ecológico – ou as “veias secas da Amazônia”, como chamei em uma reportagem que escrevi para a Rolling Stone. É o problema em si. É como a terrível política ambiental do governo tucano em São Paulo que está destruindo as reservas de água do estado e provocando desabastecimento gravíssimo. Não há escassez no Brasil de água, é o país com as maiores reservas de água doce do mundo. Mas começa haver uma escassez de recursos produzida por políticas públicas não apenas equivocadas, mas estúpidas, que estão destruindo o território nacional e provocando inúmeros conflitos ecológicos.