O efeito da (i) mobilidade nos negócios

Para muitos brasileiros, o trajeto entre nossa casa e o local de trabalho é uma prova de fogo. A começar pelas dificuldades inerentes à vida em uma grande cidade como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre ou Fortaleza, onde a hora do rush faz com que um número imenso de pessoas se desloquem na mesma direção, praticamente no mesmo horário. Resultado: mais passageiros que ônibus, metrôs, trens e táxis disponíveis. Sem contar os milhares de automóveis licenciados a cada dia.

O resultado disso é que se gasta cada vez mais tempo para chegar ao trabalho ou ao local de estudo. Os efeitos desse tempo perdido na saúde e na produtividade dos brasileiros vêm sendo medidos por diversas pesquisas. Algumas mostram que passamos dentro do transporte público o equivalente a 30 dias por ano.

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Perdas de R$ 40 bilhões

Pela ótica financeira, apenas em São Paulo, a conta da imobilidade urbana chega a R$ 40 bilhões ao ano, de acordo com pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). O estudo, realizado com base em dados apurados em 2012, mostra que esta situação faz com que cada paulistano deixe de ganhar, por ano, R$ 3,6 mil por estar preso no trânsito. Mais. Também mostra que os custos na aquisição de mercadorias, por exemplo, aumentam R$ 4 bilhões, devido ao repasse dos gastos adicionais de caminhoneiros e empresas de transporte de carga.

Para atenuar os efeitos nefastos desse problema, algumas empresas vêm tomando para si a responsabilidade de criar mecanismos para melhorar a mobilidade de seus funcionários. A cesta de alternativas inclui desde soluções mais conservadoras, como a contratação dos chamados ônibus fretados, até iniciativas inovadoras como esquemas organizados de caronas (definidos por meio de aplicativos para smartphones), passando pelo incentivo ao uso da bicicleta.

No quesito soluções inteligentes também devemos incluir a possibilidade de os funcionários trabalharem em casa alguns dias por semana e a redução de deslocamentos por meio do uso da tecnologia, com mecanismos como vídeo conferência, além das futuristas salas de telepresença, nas quais um executivo de uma multinacional situada em Manaus se sente, literalmente, dentro de uma reunião realizada na filial de Brasília, por exemplo.

Exemplo global

Uma das empresas que têm apostado mais fortemente nestes instrumentos é a subsidiária do banco espanhol Santander. Os desafios se intensificaram em 2011, quando a empresa decidiu centralizar as operações de São Paulo em uma única torre, na Avenida Juscelino Kubitschek, às margens do Rio Pinheiros. Muitos dos sete mil funcionários atuavam em endereços perto de casa ou servidos por estações de metrô.

“Foi ai que decidimos intensificar nossos esforços na área de mobilidade”, conta Edmar Ciolietti, superintendente de serviços e atendimento do Santander. “Um dos maiores desafios era realizar a mudança sem comprometer as metas de redução em 20% de nossas emissões de dióxido de carbono (CO2).” O diagrama reproduzido na foto que abre essa reportagem ajuda a entender o que a subsidiária do banco espanhol vem fazendo desde então.

Ciolietti destaca que as iniciativas estão sendo alvo de estudos por outras empresas, como a Latam (resultado da fusão da brasileira TAM com a chilena Lan), a General Electric, a Abril, a Odebrecht , além do condomínio CENU (Centro Empresarial Nações Unidas), que estão situados e um raio de cinco quilômetros quadrados da torre do Santander. Em muitos edifícios comerciais, os funcionários chegam a ficar 40 minutos em fila, esperando para sair das garagens na hora do rush.  O projeto do Santander também está sendo estudado por técnicos em mobilidade do Banco Mundial.

Em casa é melhor

O Santander não está sozinho nesta cruzada. Conhecida por seu caráter inovador em matéria de política de Recursos Humanos (RH), a americana SAS, desenvolvedora de softwares, também vem se adaptando aos desafios da mobilidade urbana. O escritório de São Paulo, por exemplo, foi trocado de lugar, no ano passado.

Saiu da Cidade Monções, na região da Avenida Luís Carlos Berrini, na zona sul, para o Itaim, bairro da zona sudoeste. “Levamos em conta a facilidade de acesso e a possibilidade de implantar um bicicletário com toda a estrutura que permitisse os funcionários aderirem a este meio de transporte”, explica Tato Athanase, gerente de RH da SAS.

Foi a senha para que o analista de vendas internas Rafael Batista dos Santos aderisse à magrela como meio de transporte (veja abaixo reportagem sobre ele). Mais que apenas pensar em facilidades no campo da infraestrutura, a SAS procura intensificar os estímulos para que seus funcionários adiram ao chamado home office.

Essa possibilidade faz parte, inclusive, da avaliação para ingresso na empresa. “Quando da entrevista de emprego, checamos a forma como o funcionário faz sua gestão de resultados, pois é ele que ficará encarregado de gerir seu horário e os dias nos quais irá ao escritório”, completa Athanase.

Mais que pensar na mobilidade, o executivo diz que essas facilidades acabam funcionando como um atrativo para que o funcionário aumente seus laços com a empresa. Algo vital em um setor carente de mão de obra e no qual os talentos são disputados ferozmente.

Retenção de talentos

“A jornada flexível é positiva do ponto de vista da qualidade de vida do funcionário e de seu relacionamento com a família”, diz. “Isso porque eles conseguem incluir em sua rotina diária compromissos familiares, reduzindo o grau de estresse que isso poderia provocar, caso tivessem de cumprir uma jornada rígida e apenas na sede da empresa.”

Os problemas causados pela imobilidade no desempenho dos funcionários, no clima organizacional e até nos resultados financeiros não se limitam a São Paulo. O mesmo tipo de preocupação pode ser visto nas demais capitais. Onde, em maior ou menor grau, o trânsito se tornou um inferno, por qualquer conta que se faça.

Neste contexto, empresas como a mineradora Vale, cujo quartel general fica situado no centro do Rio de Janeiro, mas que possui operações desde Carajás, no Pará (sua principal jazida de minério de ferro fica na floresta amazônica) e em outras centenas de localidades em seis Estados, vivem um desafio ainda maior no quesito mobilidade.

Horário flexível

Por conta disso, a diretoria da mineradora optou por adotar um pacote de soluções e incentivar seus funcionários a adotar uma série de medidas. Uma das que parecem mais simples, e também mais efetivas, é a flexibilização do horário de entrada e saída. Com isso, evitam-se os deslocamentos nos momentos de pico da cidade.

No Complexo de Tubarão, em Vitória (ES), a empresa também interligou sua estrutura viária à ciclovia existente na bela orla da praia de Camburi. Com isso, os funcionários que trabalham nesta rota têm a opção de usar a magrela e começar o dia desfrutando da incrível paisagem, sem correr riscos desnecessários em meio aos demais veículos.

No entanto, o maior pacote de obras, está sendo tocado na Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG), onde a atividade da Vale causa uma interferência maior no dia a dia da cidade, devido à operação de sua Estrada de Ferro Vitória-Minas.

Por conta disso, a mineradora definiu um pacote de obras para acelerar a velocidade do trem e dos demais modais de transporte. A ideia é eliminar os cruzamentos de nível, com a construção de cinco pontes e viadutos, beneficiando 250 mil pessoas que vivem em 10 bairros da região.

Estes exemplos enfocados nesta reportagem, por certo, estão longe de esgotar o assunto. Mas, ajudam a dar uma dimensão mais precisa do problema da imobilidade. Que é gigantesco e que precisa, antes de tudo, que todos os atores envolvidos: sociedade, empresas e gestores públicos, tenham interesse em buscar soluções. E isso pode se dar por meio de grandes inicitivas, como também com a adoção e ações tópicas, mas que ajudam a melhorar, em muito, a qualidade de vida das cidades, das empresas e das pessoas.

PEDALANDO CONTRA O VENTO. COM CIDADANIA E COM DOCUMENTO

Nos dez quilômetros que separam sua casa, na zona sul de São Paulo, do lugar onde trabalha, na zona sudoeste, o paulistano Rafael Batista dos Santos, de 31 anos, experimenta um turbilhão de sensações. A primeira delas é o olhar apreensivo da esposa Julia, com quem se casou no ano passado. Na sequência, ele é encarado por motoristas de ônibus e de caminhão que, num misto de reprovação e raiva, o olham com um certo ar de desprezo.

Pedestres e motoristas de carro se dividem em suas observações. Uns o consideram excêntrico, outros pensam tratar-se de um maluco que está arriscando a vida. Na SAS, onde é analista de vendas internas, Rafael é tido como uma espécie de herói para uns e destemido por outros. Perdeu as contas de quantas vezes ouviu algo do tipo: “Puxa, gostaria de ter a sua coragem”.

Essa epopeia se deve à prosaica decisão de nosso personagem de ir trabalhar de bicicleta. Em uma cidade na qual o trânsito sintetiza uma parte das disputas diárias, no aspecto social, econômico e até sobre a visão da sociedade que julgamos mais apropriada, a bicicleta está longe de ser aceita. Muito menos respeitada como integrante do sistema viário. “Muitos motoristas me olham como seu eu fosse um invasor do espaço deles”, conta. “Mas o código de trânsito diz com todas as letras que tem de existir o espaço para a bicicleta.”

Essa jornada de desafios, sob qualquer ângulo que se analise, é cumprida por Rafael duas vezes por semana. Nos demais ele usa o carro. Amante de esportes e de uma vida mais saudável, ele diz que começou a incluir a bicicleta em sua jornada como forma de desestressar a mente e ainda manter a forma física. Isso porque não gosta muito do ambiente das academias de ginástica.

“Foi a forma que encontrei de incluir os exercícios físicos em minha rotina diária”, explica. A dureza do trajeto, diz ele, é recompensada com alguns poucos, digamos, mimos. “Não gasto mais tempo do que se fosse de automóvel, com a vantagem de poder desfrutar da maravilhosa sensação de pedalar pelas manhãs, com a temperatura ainda agradável.”

Divórcio entre a cidade e a cidadania

Nos dez quilômetros entre a Vila Santa Catarina e o Itaim, Rafael observa os contornos de uma cidade que cresceu de forma desordenada e que, por isso mesmo, pena para se adaptar as exigências do século 21. Especialmente no que se refere à qualidade de vida de seus habitantes e à sua melhor funcionalidade.

Logo na primeira etapa de seu percurso, o corredor composto pelas Avenidas Vereador João de Lucca e Professor Vicente Rao, o ciclista depara com espaços bem delimitados.

Na faixa central, o corredor de ônibus, e nas três restantes, automóveis, caminhões e motos que procuram ocupar cada palmo de asfalto. Nas horas de rush é que esta convivência assume contornos de uma guerra não declarada.

Mas cadê o espaço para as bicicletas? “Seria bom se tivessem pensado em uma pequena faixa para ser utilizada pelos ciclistas”, lamenta. “E olha que não falta espaço.”

Estratégia de convivência

Nos quilômetros finais de seu trajeto, ele se depara com ruas apertadas e atulhadas de carros, ônibus, motocicletas e calçadas estreitas, espremidas entre bancas de jornal, alguns vendedores ambulantes e comerciantes que se apropriam de parte do espaço para compensar a falta de espaço interno de suas lojas e bares, para guardar mesas, cadeiras e outros equipamentos. É que, com o tempo, os sobrados e pequenos prédios do velho bairro deram lugar a espigões, hotéis, restaurantes e torres comerciais.

Neste contexto, para superar um trajeto que impõe desafios (Rafael se recusa a pedalar pelas calcadas, pois isso é contra as leis de trânsito), ele desenvolveu uma estratégia de sobrevivência. 

“Sigo sempre pelo cantinho entre a pista direita e a guia (meio fio)”, conta. ”É minha forma de deixar claro que não desejo atrapalhar ninguém.” Como a pavimentação, especialmente neste trecho, é sempre mais precária, as marcas desta “batalha urbana” ficam na magrela e na conta bancária. “Quase todo mês tenho de mandar desempenar a roda ou consertar um pneu furado”.

Mesmo com todas essas dificuldades, Rafael diz que o saldo é amplamente favorável. Destaca, também, que já não se sente tão sozinho no trajeto. “Quando comecei a ir trabalhar de bicicleta via poucos ciclistas”, recorda. “Agora, se ficarmos parados por uns 30 minutos, contaremos, facilmente, uns 50 ciclistas passando.”

*Não deixe de conferir o vídeo produzido por 1 Papo Reto, no qual Rafael fala um pouco de sua opção pela magrela.