Honesto até no nome

Imagine uma grife que expõe aos seus clientes, de forma clara e objetiva, todos os itens que determinaram a formação de preço de cada peça. Ou então uma empresa que informa o nome de cada um de seus fornecedores; do mais básico até o mais sofisticado componente. E também a pegada de carbono (o impacto gerado no meio ambiente) de cada roupa colocada à venda. Pense, também, na possibilidade de escolher entre calças e blusas produzidas ex-clu-si-va-men-te com materiais retirados de determinada região e na qual tenha sido usada apenas mão de obra local. Difícil, né! Mas esta grife de roupas e acessórios existe e se chama Honest By. Mais que apenas uma marca, trata-se de uma proposta de vida e um modelo de negócio inovador em todos os sentidos.

O mais bacana é que quem está por trás desta iniciativa é um estilista e design do quilate do premiadíssimo Bruno Pieters, nascido em Bruges, na Bélgica, e que trabalhou com o francês Christian Lacroix, o galego Antonio Pernas, além de ter assinado coleções para a italiana Hugo Boss. Sua carreira solo não foi menos glamourosa. As peças desenhadas por ele estiveram, por exemplo, na passarela do consagrado e disputadíssimo Paris Fashion Week e na London Fashion Week.

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Mais que apenas um talentoso artista da moda, Bruno também mostrou ser humano fantástico.

A guinada em sua carreira e na forma de encarar a vida se deu durante uma jornada de conhecimento na Índia, em 2010. “Tudo é tão diferente. O mais completo caos se harmoniza com um estado de completa paz”, disse em entrevista a 1 Papo Reto. Este mergulho no desconhecido – ele relutou em viajar com a amiga – mudou a trajetória do designer e do homem. De volta à Bélgica, Bruno resolveu continuar fazendo as mesmas coisas de antes, só que de forma completamente diferente.

Para isso, doou uma parte de seu acervo para o MOMU Fashion Museum, da Antuérpia, cidade na qual fez a sua carreira acadêmica em moda. O restante ele vendeu e destinou os recursos para programas assistenciais da SISP (Sebastian Indian Social Projects), uma ONG que atua com crianças carentes na Índia.

Em 2012, Bruno voltava às passarelas. Só que, mais que moda, ele levou para o “mundinho fashion” uma pegada de sustentabilidade até então inédita. Em todos os sentidos. Sua grande preocupação passou a ser a inclusão de todas as correntes da sustentabilidade como os veganos, pessoas que não consomem produtos derivados de animais ou testado neles.

Em um mundo no qual vale a máxima segundo a qual “O Segredo é a chave do Sucesso” Bruno se orgulha de dirigir uma empresa 100% transparente. Mais do que isso. Um de seus projetos sociais, o FFDS concede bolsas de estudos, no valor de 10 mil euros, para jovens estilistas interessados em aderir à moda sustentável e gerida de forma transparente.

No final de março, Bruno fez uma concorrida palestra em Porto Alegre, na sede da Perestroika – um misto de escola de design, de criatividade e aceleradora de startup, com filiais em quatro cidades.

Conheça um pouco mais de seu trabalho e de sua trajetória, na entrevista a seguir.

O sr. atua em uma área bastante competitiva. Poderíamos dizer que o segredo da Honest By é possuir uma proposta diferenciada, destinada a quem procura mais do que apenas roupas e acessórios?

A transparência em relação à fabricação e a formação do preço dos produtos que consumo é tudo que eu desejo como uma pessoa que ama o mundo da moda, mas, ao mesmo tempo, faz escolhas responsáveis no ato da compra. Um número expressivo de grifes se dizem transparentes, contudo fornecem informações tão vagas sobre seu trabalho que chega a ser uma ofensa aos consumidores. Eu faço o que gosto e o que eu acredito que faça a diferença.

O sr. teve o insight de fazer algo revolucionário no mundo da moda a partir de sua viagem à Índia durante um período sabático. A iniciativa de conhecer o país levou em conta aspectos religiosos?

Eu fui para a Índia pela primeira vez com uma amiga. Eu relutei a princípio, mas ela foi bastante convincente sobre a importância desta viagem. Isso aconteceu em uma época na qual eu estava questionando alguns valores. A Índia é realmente uma experiência única que me abriu ainda mais para o mundo. Tudo é tão diferente e é bastante inspirador ver o caos do dia a dia em meio a um sentimento de paz, em perfeita harmonia.

A cena fashionista de Bruxelas não é muito conhecida no exterior, quanto o mercado de moda em Paris e Londres. Quais são os principais atributos da moda belga?

Eu penso que a Bélgica é um dos únicos países do mundo onde a moda é considerada uma forma de arte. Nós temos a Academia Real de Excelência em Artes, em Antuérpia, onde existe um departamento que cuida somente de moda. Uma contradição, a princípio, se levarmos em conta que a moda é um ramo da indústria. Eu atuei no setor por quase 15 anos e posso dizer com segurança que design não é nada além que um meio de se ganhar dinheiro. Ou seja, nada do que eu esperava ou ansiava quando estava estudando moda. Eu sabia que o final de meu trabalho resultaria em uma peça que seria colocada à venda em uma arara ou em uma vitrine de loja, no entanto relutava em aceitar a verdade do que é realmente o mundo da moda.

Como designer e fashionista o sr. possui a habilidade de interpretar a alma humana. Até porque, as grifes bem sucedidas são aquelas que se tornam objeto do desejo e uma referência para os consumidores. Por sua experiência com a Honest By poder-se-ia dizer que, hoje, já existe um grupo de consumidores de moda mais preocupados com a substância do que com o estilo e o glamour? ?

honest interna 2 300x206Bem, como empresário de moda o que posso dizer é que sou interessado na substância das coisas. E não sou o único que partilha dessa crença. Os clientes irão consumir sempre apenas o que eles desejam. Não podemos perder de vista que estamos falando de um mundo composto por quase sete bilhões de pessoas e que, por conta disso, não será um pequeno grupo de consumidores ou de empresas que irão ditar novas tendências, de imediato. Isso leva tempo. Mas só acontecerá se pararmos de promover e comprar produtos insustentáveis e produzidos de uma forma aética. Trata-se de um círculo vicioso no qual os consumidores não sabem o quão insustentável são os produtos que consomem porque os fabricantes não informam. Do meu ponto de vista, tento defender um círculo virtuoso no mndo da moda.

Quais são as pessoas que fazem a sua cabeça no mundo da moda e fora dele?

Eu adoro ler textos, conhecer pessoas e ideias inspiradoras. Os que mais fazem a minha cabeça são Gandhi, Eckart Tolle (guru espiritual), Albert Einstein, Paulo Coelho e Margaret Mead (antropóloga especializada em consumo de massa). Margaret tem uma frase que para mim é marcante: ‘Nunca duvide de um pequeno grupo de pessoas conscientes. Cidadãos comprometidos podem mudar o mundo.´

Qual a sua visão sobre a moda produzida no Brasil e o esforço de algumas grifes em adicionar os preceitos da sustentabilidade ao seu trabalho?

Eu estive no Brasil no início deste ano, onde ministrei uma palestra na filial da Escola Perestroika, em Porto Alegre. Também passei pelo Rio de Janeiro, onde conheci uma das obras mais fantásticas de arte deco que è a estátua do Cristo Redentor. Não estou familiarizado com o que os fashionistas brasileiros têm feito na área da sustentabilidade. Mas posso dizer que se algo está sendo produzido nesta área em seu país, seus autores deveriam estar fazendo mais barulho em termos mundiais, para serem reconhecidos como tal.

O sr. poderia imaginar um futuro no qual as grifes de moda sejam reconhecidas como sendo mais valiosas a partir da sustentabilidade de seus produtos do que por outros atributos?

Bem, se isso não acontecer, não saberia dizer se teremos futuro. Eu sou um otimista e acredito, e vejo, que as pessoas estão adquirindo consciência sobre as coisas da vida. Por definição, as pessoas são boas e têm compaixão. Do meu ponto de vista, acredito que as coisas estão mudando, nesta seara, de uma forma suave, mas contínua.