Um peso. Duas medidas

Na quinta-feira, 28/8, durante um jogo do Grêmio, em Porto Alegre, a torcedora Patrícia Moreira se tornou um símbolo da cultura racista nos estádios de futebol no Brasil. Uma jovem de 23 anos, auxiliar de um centro odontológico na capital gaúcha, foi flagrada gritando a palavra “macaco” para o goleiro Aranha, do Santos. Ainda que estivesse acompanhada pelo coro de tantos outros gremistas, uma caçada particular foi decretada contra Patrícia. Com o rosto estampado em todos os jornais, sites e redes sociais de repercussão regional e nacional, se iniciou um linchamento virtual contra a jovem.

Milhares de comentários se espalharam, principalmente, pelas redes sociais não só criticando, mas ofendendo Patrícia. Em alguns deles, pessoas incitam que “essa piranha racista tem que ser estuprada por um negão“. Mesmo depois de ter excluído seus respectivos perfis nas redes sociais Instagram e Facebook, Patrícia teve seu endereço profissional e particular divulgado, foi afastada de seu trabalho e, no mais recente acontecimento, teve sua casa apedrejada.

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O Grêmio identificou e puniu cinco torcedores pelos atos racistas contra o goleiro, dois eram sócios e já foram suspensos do quadro social do clube; entre eles, Patrícia Moreira. Identificando e responsabilizando os torcedores, o clube espera acalmar os ânimos em torno da situação. Infelizmente, comportamentos de cunho racista e machista não são novidades no ambiente futebolístico e, muito menos, dentre os torcedores do Grêmio.

As torcidas que possuem inúmeros cantos de apoio ao time, contam com um vasto arsenal de adjetivos pejorativos a mulheres e negros.

No entanto, o que surpreende em toda essa história é o número de manifestações humilhantes e opressoras contra Patrícia. Por séculos os negros foram escravizados para que, hoje, os racistas mereçam apedrejamentos, estupros, mortes, linchamentos, humilhação? Como disse um amigo, “O que estamos fazendo quando tratamos os intolerantes com intolerância e os ignorantes com ignorância?”. Não há dúvidas que o caso de Patrícia deve ser julgado nas instâncias jurídicas e não só ela, como os demais responsabilizados pelo crime, devem ser punidos severamente pelo acontecimento.

Entretanto, parece quase impossível traçar estratégias concretas e racionais de combate às tantas discriminações, quando nos comportamos da exata forma como aqueles que criticamos. O crime de Patrícia merece repercussão e punição, mas não que a própria seja violentada fisicamente, sexualmente ou moralmente.

O racismo é um problema grave na sociedade brasileira, assim como a homofobia e o machismo.

Ainda hoje, negros experimentam profunda desigualdade de salários, baixa participação política, menor acesso à saúde, educação e justiça como efeitos da discriminação estrutural existente no Brasil. Discriminação baseada em mecanismos históricos de exclusão e estereótipos negativos, reforçados pela pobreza, marginalização política, econômica, social e cultural. Não tenho e não deve haver nenhuma dúvida de que todas essas questões não serão resolvidas com o aumento da intolerância.

No Brasil, as punições aos crimes de racismo estão determinadas na Lei Caó, de 1989, que determina pena de reclusão inafiançável e imprescritível a quem tenha cometido atos de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Por sua vez, crimes de “injúria racial” estão previstos na Constituição e se referem à atribuição de uma qualidade negativa a uma pessoa, ofendendo a honra subjetiva da vítima. Isso significa que xingamentos referentes à raça ou cor de uma pessoa constituem em crime de injúria racial, enquanto crimes de racismo se aplicam a uma natureza segregacional em função da raça ou cor do indivíduo.

Me intriga saber qual a diferença entre as palavras da jovem e as manifestações violentas contra ela. Dizia Mahatma Gandhi, “Olho por olho, e todos ficaremos cegos”.

Isadora Harvey

é cientista política, atuou como coordenadora de comunicação institucional na Incubadora Afro Brasileira e hoje cursa mestrado em Ciência Política na Universidade de Brasília