Salvem o planeta. Ok, mas para quê?

As mudanças climáticas estão causando impactos cada vez maiores em nossas vidas. Neste contexto, fica evidente a interdependência de todos os seres vivos do planeta. Velhos adágios na linha do Para toda ação existe uma reação ou A natureza fornece a doença e também a cura nunca foram tão evidentes e também fáceis de entender. Afinal, já percebemos que cada placa de gelo que derrete na calota polar não gera danos apenas localmente. Mas também, e principalmente, para quem mora a milhares de quilômetros de lá. Isso porque o derretimento de gelo, no Ártico, contribui para a elevação do nível do mar. Diante disso, hoje muitas ilhas estão ameaçadas de desaparecerem e, no futuro, cidades litorâneas como Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Florianópolis também podem entrar em estado de alerta.

Seguimos fazendo pouco ou muito pouco para recuperar os erros do passado e evitar que a situação se agrave. E, aqui, não falamos de ações que demandam vultosos volumes de recursos. Muitas vezes, a chave da preservação está na simplicidade do cotidiano. Cada colmeia que morre, afetada pela poluição ou pelo uso indevido de inseticida, tem um impacto em nossas vidas.

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Desde a produção de alimentos até mesmo na economia. Sem o trabalho de polinização feito pelas abelhas, países que têm na exportação de amêndoas, maçãs e laranjas (saiba mais) uma de suas principais riquezas enfrentariam muitos obstáculos para seguir em frente com as colheitas.

Para entender como a preservação da vida marinha, das florestas e a melhoria na qualidade do ar podem afetar as nossas vidas, 1 Papo Reto conversou com integrantes de três das mais destacadas ONGs que atuam no Brasil.

O AR QUE RESPIRAMOS

As emissões dos chamados gases que causam o efeito estufa estão entre os vilões não apenas do buraco da camada de ozônio como também da qualidade de vida, especialmente para quem vive nas metrópoles. Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou uma pesquisa mostrando que a poluição mata 1,3 milhão de pessoas por ano em todo o mundo. E as emissões desses gases têm uma contribuição nesta questão, de acordo com Cristina Amorim, coordenadora da campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil.

A percepção das pessoas, de um modo geral, é a de que a qualidade de vida se relaciona a transporte de qualidade. Como equacionar essa informação com a questão as emissões de gases do efeito estufa e seus malefícios?
As duas questões estão intrinsecamente ligadas: quanto melhor é o transporte público, mais pessoas irão utilizá-los e, dessa forma, preferir o ônibus (e o metrô, e o trem…) ao carro. Dessa forma, menos gases estufa são jogados na atmosfera para transportar a mesma quantidade de pessoas.

O setor industrial é o grande vilão das emissões ou as empresas já estão se conscientizando de que é preciso tomar atitudes mais ambientalmente corretas?
De acordo com a estimativa nacional de emissões do Brasil, o setor industrial respondeu por apenas 7%  do volume jogado na atmosfera. Cerca de 82 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2010. Mas nesta conta não entra a emissão ligada à energia produzida para alimentar essas indústrias, nem o tratamento dos resíduos. Ou seja, o volume relacionado com a atividade é maior. É o que mostra o SEEG (Sistema de Estimativa de Emissão de Gases do Efeito Estufa, uma iniciativa do Observatório do Clima): a indústria respondeu por 69% das emissões computadas em energia e 1% das computadas em resíduos sólidos.

De forma geral, a indústria reconhece que as mudanças climáticas impõem desafios sobre como produzir e repassar seus produtos, mas esse é um setor que faz muito menos do que poderia. Para começar, há pouca transparência: mesmo os dados que geram as estimativas de emissão são autodeclarados e não verificáveis, porque as empresas alegam sigilo comercial. Até hoje o Brasil carece de um plano setorial para a indústria que seja ambicioso.

Estamos avançando neste debate no Brasil? Quais seriam os principais avanços que podemos destacar?
O Brasil tem uma Política Nacional e um Plano Nacional de Mudanças Climáticas, inclusive com metas voluntárias de redução de suas emissões. É mais do que muito país faz por aí, inclusive entre os grandes emissores globais. Além disso, o Brasil está perto de cumprir o que propôs graças à redução do desmatamento e das queimadas na Amazônia. Mas, olhando de perto o que tudo isso significa, percebe-se claramente que há ainda um longo caminho a se percorrer.

O Brasil, como grande emissor e uma das maiores economias do mundo, poderia e deveria fazer mais. No âmbito internacional, poderia ser um importante ator para costurar um acordo global de redução de emissões, mas não tem feito isso. E os motivos são vários, inclusive porque as próprias metas voluntárias estão em risco: enquanto o desmatamento cai na Amazônia, ele sobe a passos largos no Cerrado. Além disso, a emissão do setor de energia cresce rapidamente, a taxas alarmantes, e em muito breve vai se tornar a principal fonte nacional, sem que nada seja feito para coibir essa tendência. Pelo contrário: as políticas energéticas brasileiras são terríveis para o clima.

Quanto a medidas de adaptação que são necessárias, uma vez que os efeitos das mudanças climáticas se tornam cada vez mais evidentes e ameaçam cada vez mais pessoas, nem viraram ainda uma política nacional. As iniciativas do Brasil são como ouro de tolo: de longe, parecem de verdade. Mas não resistem a qualquer análise mais cuidadosa.

Já a sociedade em geral conhece menos do tema do que seria ideal. Mas, à medida que sofre as consequências, como secas e enchentes, percebe que o clima não é mais o mesmo, e pode pedir por mais ação.

E os governos municipal, estadual e federal, qual a parcela de responsabilidade do poder público no problema?
Todos têm responsabilidade, e todas as esferas têm feito menos do que deveriam. Um exemplo é da crise de água, que atinge o Estado de São Paulo. Ela é causada por uma série de problemas históricos, como má gestão do recurso, poluição, desmatamento ao redor de nascentes e de matas ciliares e desperdício. Mas as mudanças climáticas não foram inseridas nem no planejamento nem na gestão dessa água, nem há planos de adaptação para evitar que as pessoas sofram ainda mais no futuro. É preciso levar em considerações as alterações em curso, pois elas intensificam os problemas preexistentes – em vez disso, o governo torce pela chegada da época chuvosa, que pode vir diferente por causa do aquecimento global.

Também há muito a ser feito para mitigar a emissão de gases estufa. Pegue, por exemplo, o modelo de transporte urbano no Brasil. O governo federal estimula a compra de mais carros, e nem ao menos exige eficiência dos modelos. As esferas estadual e municipal seguem a mesma tendência, em vez de investir pesadamente em transporte público de qualidade. Não à toa que as emissões do setor de transporte são as que mais cresceram nos últimos anos no país.

Existe algum país que poderia servir de inspiração para o Brasil, neste debate?
Alguns países estão mais avançados em políticas e sistemas de adaptação, e há algumas iniciativas de mitigação. Mas todos, em conjunto, têm segurado um acordo global que estabeleça metas de corte de emissão de gases do efeito estufa – principalmente o grupo dos maiores emissores, que reúne basicamente os países desenvolvidos e os emergentes.

A TERRA NA QUAL PISAMOS

Mauro Armelin, superintendente de conservação do WWF-Brasil, formou-se em Engenharia Florestal na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP) no ano de 1998. Em 2002 obteve o título de mestre em Ciências Florestais pela mesma instituição.

Mauro Armelin 03 baixa WWF 150x150Entre 1998 e 2002 coordenou o projeto Consumo Sustentável de Madeira e o grupo Compradores de Produtos Florestais Certificados na ONG Amigos da Terra. De 2002 a 2004 trabalhou no Ministério do Meio Ambiente, onde coordenou o Projeto Negócios Sustentáveis. Em 2004, atuou como consultor no Instituto do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Desde 2005 está no WWF-Brasil.

Qual a importância de preservar a biodiversidade animal no planeta?
A conservação da natureza é extremamente importante pelos aspectos que conseguimos ver com nossos próprios olhos, como árvores, pássaros, animais e vegetais, em geral, que vivem em nossas florestas tropicais. Além disso, as florestas são responsáveis pela saúde de nossos rios e, em alguns casos, eles chegam a nascer dentro dessas áreas. As florestas nos fornecem a transpiração para produzir as nuvens e, consequentemente, as chuvas em nossas cidades. Além disso, são os maiores depósitos de carbono que existem na natureza, tendo um papel fundamental da regulação do clima na diminuição da velocidade com que as mudanças climáticas vêm ocorrendo.

O Brasil, com suas políticas preservacionistas, se destaca em alguma área?
O Brasil se destaca em diversas áreas relacionadas à conservação da natureza. No caso da Amazônia conseguimos reduzir os índices de desmatamento de forma eficiente e temos simplesmente o maior programa de conservação da floresta tropical do mundo, o Áreas Protegidas da Amazônia (ARPA), que apoia a manutenção de quase 60 milhões de hectares em Unidades de Conservação. Além do ARPA, o Brasil também se destaca por seu pioneirismo no estabelecimento de um Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) que regulamenta todas as  Unidades de Conservação do país, que são um grande patrimônio da sociedade brasileira.

Existe algum país que poderia servir de parâmetro para o Brasil, em matéria de preservação de vida selvagem?
Sobre a conservação da natureza não existe somente um país que nos serviria de exemplo, são vários, como a Costa Rica, com sua política de pagamentos por serviços ambientais, a África do Sul, com suas Unidades de Conservação que recebem milhões de turistas anualmente, o Estados Unidos, com seu Serviço Florestal. A Alemanha conseguiu atender a 75% de sua demanda por energia elétrica somente com fontes solar e eólica. Cada país conseguiu encontrar suas fortalezas e explorá-las de forma sustentável.

O que falta para que as pessoas se engajem ainda mais no trabalho desenvolvido por ONGs como a WWF-Brasil?
O Brasil tem passado por um processo de urbanização radical nos últimos 50 anos, e a sociedade precisa redescobrir as diversidades naturais e saber que a riqueza de um país não se expressa somente pelo seu PIB, mas também por seus atributos naturais. Ao mesmo tempo, precisamos conhecer as ameaças a esses patrimônios para expressar nossa vontade sobre como valorizar nossa biodiversidade antes que ela desapareça.

Como as empresas podem se engajar nesta luta, além de contribuírem financeiramente?
As empresas desempenham um papel fundamental na conservação da natureza. Elas podem e devem adaptar seus processos produtivos para que consumam o mínimo possível de recursos naturais e também diminuam ao máximo as externalidades dos processos. Além das mudanças de práticas, as empresas devem trabalhar em conjunto com as ONG´s para ajudar a melhorar os processos de proteção de nossos mananciais e de nossas florestas.

A ÁGUA QUE NOS CERCA

O diretor-executivo da ONG MarBrasil, Juliano Dobis, lidera uma equipe de oceanógrafos, biólogos marinhos e outros profissionais ligados à fauna e à flora marinha que vêm colecionando boas histórias para contar. Graças a parceria com empresas privadas e estatais, a ONG, do Paraná, lançou um vigoroso programa de criação de recifes artificiais na costa do Estado (como o da foto acima), que tem o objetivo de ajudar na recomposição dos estoques de pesca da região, a partir da criação de berçários para peixes e corais. O Rebimar (Recuperação da Biodiversidade Marinha), diz ele, é possível de ser reaplicado em outros pontos da costa brasileira. Abaixo os principais trechos da entrevista concedida a 1 Papo Reto.

Em linhas gerais, qual a situação da vida marinha no Brasil e no mundo? Por aqui, temos mais espécies em risco de extinção?
De modo geral, podemos dizer que a situação é de extrema atenção.

Além de acompanharmos diariamente a exploração do mar, seja por alimento ou combustível, é necessário pensar que os oceanos ainda foram pouco estudados. Muitas espécies ainda serão descobertas, outras já foram descobertas e extintas, e possivelmente algumas espécies vamos acabar descobrindo somente depois da sua extinção. Esse é um cuidado necessário quando vamos explorar os oceanos, independentemente de ser o Brasil ou outro país.

A pressão sobre os ativos oceânicos, com a sobrepesca e a pesca predatória, já representa um perigo real?
Já é sim um perigo real. Falando em Brasil, segundo publicação do Ministério da Pesca e Aquicultura de outubro de 2013, desde 2011 houve um aumento de 23,7% no consumo de pescado, e a tendência é aumentar ainda mais, já que a população continua a crescer e também existem diversas campanhas incentivando o consumo da carne de peixe por ser mais saudável. É importante ressaltar que o Brasil é muito tímido ainda no que diz respeito a investimentos em tecnologia pesqueira, quando comparado por exemplo ao Japão, o qual realiza exploração intensiva destes ativos.

E em comparação com o resto do mundo, como estamos?
É difícil fazer essa comparação. O que podemos falar é que se faz necessário um investimento enorme na educação ambiental de base e, principalmente, na relação com a conservação da biodiversidade marinha e ecossistemas marinhos. Embora sejamos um país de longa costa e com a maior parte da população vivendo nela ou próxima dela, assim como se beneficiando de seus serviços ambientais, poucos têm a noção do quanto dependemos do mar.

Por outro lado, podemos citar muitos projetos de extensão e pesquisa realizados por diversas instituições, os quais têm como objetivo a conservação marinha. Cito o próprio Programa Rebimar (Recuperação da Biodiversidade Marinha), realizado pela Associação MarBrasil e com o patrocínio da Petrobras, o qual tem alcançado excelentes resultados na relação conservação versus pesca artesanal, no litoral do Paraná. Também cito o Projeto Baleia Jubarte, realizado pelo Instituto Baleia Jubarte e também patrocinado pela Petrobras, o qual nos presenteou recentemente com o resultado de que o Brasil tirou a Baleia Jubarte (Megaptera novaeangliae) da lista de espécies ameaçadas.

Qual o grande mérito e as grandes conquistas do projeto de recifes artificiais? Existe a possibilidade de replicá-lo em outros estados?
Creio que você esteja falando do Programa Rebimar. Este Programa é um conjunto de ações socioambientais que tem com base a utilização de recifes artificiais para a recuperação da biodiversidade marinha na costa paranaense. Instalados no fundo do mar, os recifes imitarão uma rocha natural, propiciando ali um local de reprodução, alimentação e refúgio para diversas espécies marinhas, e muitas delas de importância direta ou indireta para a pesca artesanal. Desta forma, conseguimos apoiar o zoneamento marinho no litoral do Paraná. O Rebimar é um projeto de viável replicabilidade em outros estados da costa. No entanto, cada local tem suas especificidades, e elas devem ser estudadas com cuidado para ver a real necessidade e viabilidade de instalação de recifes artificiais.