A natureza como aliada dos negócios

summit

Durante muitos anos, os grandes biomas brasileiros foram vistos como um entrave ao desenvolvimento do País. Neste contexto, a imensa floresta tropical da Amazônia, com seus cinco milhões de quilômetros quadrados, era encarada apenas por sua capacidade finita de fornecer madeira ou o minério depositado em seu subsolo. Na Mata Atlântica, não foi diferente. Primeiro bioma a sofrer a ação intensa de um modelo de exploração e ocupação insustentáveis, a fauna e a flora existentes na faixa litorânea do Brasil foram praticamente dizimadas. Hoje, restam apenas 12,5% da cobertura original.

Uma das raras exceções de preservação da Mata Atlântica ocorre justamente no Rio de Janeiro, que foi centro do poder político no país por décadas. Foi graças à iniciativa de Dom Pedro II que foi feito um vigoroso trabalho de reflorestamento, comandado pelo major Archer, para recuperar as áreas abandonadas pelas plantações de café, local hoje conhecido como a Floresta da Tijuca.

 Ajude 1 Papo Reto a continuar divulgando as grandes iniciativas em ESG, inovação e empreendedorismo de impacto social: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou faça uma DOAÇÃO

 

A degradação também foi imposta a áreas importantes do Cerrado, cujo reconhecimento econômico e ambiental se deu apenas em meados do século 20. Aos poucos, também voltamos nossos olhos para a rica biodiversidade da Caatinga, onde o tatu-bola, símbolo da Copa 2014 corre o risco de entrar na lista de animais em extinção.

Apesar de tardia, a consciência ambiental dos brasileiros começa a ter uma contribuição importante na hora de se estabelecer políticas de desenvolvimento local.

O mesmo vale para a ação das empresas que se beneficiam diretamente de espécies nativas e que estão sob o olhar atento dos consumidores, como indica a versão 2013 da pesquisa Barômetro da Biodiversidade, da União para o Biocomércio Ético (UEBT).

O levantamento, divulgado em abril, mostra que, em nível global, apenas 39% realmente sabem do que se trata a biodiversidade. No Brasil, 96% conhecem o termo e que 51% dos entrevistados sabem defini-lo com precisão.

Nos 11 países pesquisados (a lista inclui ainda Estados Unidos, França, Alemanha, Coreia do Sul, China e Peru), 84% dos entrevistados afirmaram que deixariam de adquirir produtos de empresas que não possuam boas práticas na cadeia de abastecimento.

Mais que um desafio, ou uma restrição à ação do setor produtivo, o aumento da consciência vem se mostrando benéfico para as corporações que colocam a natureza como uma aliada de seus negócios. E não poderia ser diferente.

Angelo Pinto editada1 150x150“Cerca de 30% dos princípios ativos de medicamentos são fornecidos por plantas”, diz o químico Angelo da Cunha Pinto, pesquisador do Instituto Militar de Engenharia (IME).

Ele comanda um projeto robusto de coleta e formação de banco de dados de extratos de plantas com função terapêutica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para o cientista, a natureza, em geral, e a Amazônia, em particular, devem ser objeto de estudo e de aproveitamento econômico. “Estes ativos não podem ser vistos como um banco de recursos intocáveis.”

Pinto destaca a mudança de mentalidade no Brasil, especialmente na academia e no setor privado que vêm cada vez mais estreitando seus laços e trabalhando em parceria. Algo impensável há 30 anos.

Hoje, cresce o número de cientistas atuando em empresas privadas, além da contratação de centros universitários de pesquisa, pelas empresas, para o desenvolvimento de moléculas e substâncias, sob medida, para determinado produto com fins comerciais.

Desenvolvimento local

Um dos mais exitosos exemplos dessa nova maneira de pensar a ciência, a biodiversidade e os negócios têm sido dado pela paulistana Natura. A fabricante de cosméticos foi pioneira na exploração dos princípios ativos da Amazônia em escala industrial, por meio de sua linha Ekos, lançada em 2000. Mais que apenas usar os produtos coletados na Floresta Amazônica, a empresa soube incorporar o conceito da biodiversidade em seu DNA.

“Nosso trabalho neste campo vai muito além da linha Ekos”, diz Denise Alves, diretora de sustentabilidade da Natura. “A valorização da biodiversidade e o respeito aos povos tradicionais destas regiões fazem parte de nosso DNA.” E isso pode ser comprovado, na prática, por meio do aumento do volume de negócios gerados pela empresa e seus parceiros, na região amazônica, por exemplo, que atingiu a marca de R$ 201,5 milhões, no ano passado.

E não parou por aí. O bioma Mata Atlântica também faz parte do projeto Ekos, que conta com fornecedores no Sul da Bahia, no interior do Paraná e do Rio Grande Sul, onde mantém parcerias como comunidades extrativistas, responsáveis pelo fornecimento das matérias primas.

Mas a Natura não está sozinha nesta cruzada socioambiental que mistura preservação e empreendedorismo em doses cavalares. Nos últimos 20 anos, o meio ambiente vem ganhando força nos debates, influenciando até mesmo a política energética e industrial do país.

Para construir mega usinas em qualquer ponto do Brasil, por exemplo, empresas estatais e privadas, além dos agentes governamentais, vêm suando a camisa ao terem de submeter seus projetos aos representantes de grupos locais, ONGs ambientais e o Ministério Público.

Mesmo assim, todo cuidado é pouco. Especialmente no que se refere à Amazônia. A região passa por uma onda sem precedentes de atração de investimentos, que nem sempre chegam de maneira adequada ou respeitando os ditames socioambientais, como ficou comprovado na extensa reportagem feita pelo jornal O Estado de São Paulo a qual indica que, até 2022, a região receberá R$ 130 bilhões em investimentos de infraestrutura e projetos de mineração.

Mas, voltemos ao que acontece de positivo na região.

Ao lançar seus olhos e definir estratégias de longo prazo em sua relação com a Amazônia, a Natura acabou incentivando outras empresas a fazerem o mesmo. Hoje, empresários de diversos cantos do Brasil mantêm estruturas produtivas por lá, baseadas no desenvolvimento de ativos locais.

Este é o caso da Beraca e da Agropalma, que atuam com a produção e refino de óleos essenciais, usados na cosmética e na alimentação. Quem também acaba de desembarcar na Floresta Amazônica é a americana Coca-Cola.

A maior fabricante de bebidas não-alcoólicas do planeta está disposta a colocar o açaí no radar de consumidores de todo o mundo. Para isso, está tocando um robusto projeto que mistura desenvolvimento de cadeias produtivas locais e comércio justo para a produção de sua nova linha de sucos da marca Del Valle.

“Este produto tem como diferencial uma proposta de valor que incentiva a exploração econômica da floresta a partir de sua preservação”, pontua Pedro Massa,  responsável pelo Coletivo Floresta, da Coca-Cola. “Trabalhamos na valorização da renda e da autoestima de 700 famílias espalhadas em 50 comunidades.”

Do ponto de vista comercial e econômico, trata-se da primeira ação importante envolvendo o fruto desta palmeira. Até então, o açaí vinha sendo trabalhado em suco ou no consumo in natura por empresas de pequeno porte e com alcance bastante limitado, inclusive no território brasileiro. “A comunidade já percebe que faz parte de um projeto maior do que apenas a coleta e a venda do açaí”, afirma Massa.

Mesmo assim, o professor Angelo Pinto, do IME e da UFRJ, diz que estamos muito distantes do que poderíamos alcançar.

Afinal, apenas nos últimos 15 anos é que começamos a olhar de forma mais organizada para o valor dos ativos naturais. “As empresas privadas e o governo deveriam ser mais agressivos no que se refere ao aproveitamento econômico dos das riquezas potenciais da biodiversidade existente no país”, lamenta.

Para que isso aconteça, ele diz que seria preciso mudar não apenas a mentalidade como também aperfeiçoar as leis e reduzir a burocracia, o que, de certa forma, acaba beneficiando os fabricantes estrangeiros e punindo os locais. “Existem apenas dois medicamentos fitoterápicos em processo de registro na Anvisa”, exemplifica. “Lá fora, o rito para aprovação de medicamentos com princípios ativos naturais é muito mais simples e eficiente.”

Denise, diretora de sustentabilidade da Natura, concorda com o pesquisador do IME e da UFRJ.

Na entrevista a 1 Papo Reto ela reforçou que o envolvimento da marca com a região amazônica deverá dar um salto de qualidade nos próximos anos. Uma postura que surpreende, em se tratando da empresa que já fundou centro de pesquisa batizado de Nina (Núcleo de Inovação Natura Amazônia), baseado em Manaus, além de ter lançado o Natura Campus, inciativa para incentivar projetos de ciência, tecnologia e inovação localmente.

Segundo ela, o que foi feito até aqui pela empresa foi uma espécie de “treino”. A ambição é maior. “Queremos ser um vetor de desenvolvimento socioambiental na região.”

Ecoparque na floresta
Uma das bases para esse salto da Natura é o Ecoparque, que começou a operar em 12 de março. O complexo industrial e ecológico está situado em Benevides, cidade a 50 quilômetros de Belém, e vai funcionar como um polo produtivo para o qual a Natura pretende atrair parceiros em diversos segmentos.

Lá será concentrada sua produção de sabonetes, e a expectativa é chegar a 500 milhões de barras até o final de 2015 – ou 80% do que é fabricado pela grife de higiene e beleza. “A intenção é ser 100%.”

Mais que um polo produtivo, a área de 172 hectares, equivalente a 240 campos de futebol, nasce com a ambição de se tornar uma espécie de PIM (Polo Industrial de Manaus, nome técnico da área de desenvolvimento incentivada de Manaus) da biotecnologia aplicada ao bem-estar.

O objetivo é que o projeto faça diferença na matriz de desenvolvimento da Região Metropolitana de Belém e se transforme em um centro sustentável em todos os aspectos.

Para isso, a quase totalidade da mão de obra e do fornecimento de insumos serão contratados localmente. O transporte interno será feito por bicicleta ou carros elétricos. Para viabilizar o empreendimento, a Natura está investindo R$ 178 milhões.

Agricultura sustentável

Além de investimentos diretos ligados à preservação da biodiversidade, algumas empresas vêm ajudando seus principais clientes a fazerem a coisa certa. Não se trata de bom-mocismo, mas de uma atitude baseada na visão holística do mundo e dos negócios.

“Ter clientes mais bem preparados e com acesso a mais mercados é o que vai garantir a nossa própria continuidade no mercado”, destaca Redson Vieira, gerente de relações governamentais e de sustentabilidade da Unidade de Proteção a Cultivos da Basf.

Foi com isso em mente que a empresa e a Fundação Eco decidiram se integrar à ONG Bonsucro, que funciona como certificadora global de boas práticas socioambientais na cadeia da cana de açúcar.

Vieira explica que a entrada na Bonsucro foi um desdobramento natural do trabalho feito pela Basf, que já atuava com uma ferramenta chamada AgBalance.

Desde 2011, as empresas do setor que não dispõem do selo da Bonsucro não podem exportar açúcar e etanol para a União Europeia. “A certificação ajuda a melhorar a cadeia produtiva, fortalecendo a imagem da empresa como um produtor sustentável”, define o executivo.

Ser sustentável é tudo o que as empresas de fato preocupadas com a sua própria perenidade pensam em ser. Nossos bisnetos agradecem!