A guerra contra a diversidade nos EUA

A guerra contra a diversidade nos EUA

A onda anti-diversidade que atinge os Estados Unidos, marcada pela proibição do aborto, a censura do ensino sobre história negra e indígena nas escolas, e a restrição do espaço LGBTQIA+ (entre tantos outros temas) agora tem um novo alvo: a diversidade nas empresas.

O mês de agosto foi marcado por uma guerra judicial contra companhias com iniciativas para aumentar a diversidade entre seus funcionários. Os autores dos pelo menos seis processos afirmam que essas políticas discriminam os brancos.

Tudo começou em junho, quando a Suprema Corte americana derrubou o direito das universidades de ter políticas afirmativas no processo de admissão de alunos para aumentar a presença de minorias em suas comunidades estudantis. O caso envolvia as universidades Harvard e a da Carolina do Norte (UNC) que estariam infringindo o direito constitucional de proteção igualitária ao considerar a raça dos candidatos como um dos fatores de decisão. Esse passo do supremo criou um novo precedente para decisões judiciais envolvendo políticas afirmativas, empoderando quem quisesse lutar contra elas*.

De empresa alimentícia a escritórios de advocacia, ninguém se salvou do ataque. Os autores dos processos são funcionários ou ex-funcionários brancos, que afirmaram que não tinham sido promovidos ou tinham sido demitidos para abrir espaço à minorias “menos qualificadas”, e conservadores que afirmam que políticas afirmativas discriminam contra brancos por incentivarem uma contratação baseada em raça. 

Quando foi divulgada a decisão da Suprema Corte sobre as universidades, Ketanji Brown Jackson  — a primeira juíza negra da corte — que não pôde participar no processo por ter estudado em Harvard, disse o seguinte: “declarar que raça não deveria ser um fator influente em lei não faz ela não ser influente na vida”. Ela se referia ao fato de que tratar a todos indiferente da raça na teoria não significa que minorias terão espaço igualitário na prática. 

Os americanos contrários às políticas afirmativas se valem do velho argumento da meritocracia, segundo o qual os que trabalham mais e melhor vão ter oportunidades, não importando a raça, o gênero ou sexualidade. Contudo, a prática é bem diferente. Até hoje, a renda, a escolaridade e a profissão exercida por cada cidadão americano são influenciadas, de alguma forma, pelas "barreiras invisíveis" enfrentadas por integrantes de distintos grupos sociais, mostrando que o buraco é mais embaixo.

Nos Estados Unidos, os brancos são donos de aproximadamente 86% dos negócios, seguidos por asiáticos (11%), hispânicos (7%), negros (3%) e indígenas (1%), de acordo com dados de 2020, do Pew Research Center. Essa proporção é parecida — mas diferente — da distribuição populacional, que conta com 75.5% de brancos, 19.1% de hispânicos ou latinos,13.6% de negros, 1.3% de indígenas, 6.3% de asiáticos, de acordo com dados do Censo americano. 

Nas escolas públicas americanas, conhecidas pela qualidade do ensino, a proporção é até que parecida: aproximadamente 45% são brancos, seguidos por 28% de hispânicos, 15% de negros, 5.4% de asiáticos, 5% de duas ou mais raças e 0.9% de indígenas, de acordo com dados de 2021 do Centro Nacional de Estatíticas Educacionais americano. 

Onde se nota as maiores diferenças são na fase universitária, em que 67% dos asiáticos, 43% dos brancos, 34% dos negros, e 24% dos hispânicos ou latinos têm um bacharelado, segundo dados do governo federal, relativos a 2021 — se existisse igualdade, todos os grupos étnicos deveriam estar representados na mesma proporção, não importando sua porcentagem em relação à população geral. O mesmo acontece em termos de renda: para cada $1 ganho por um branco, um asiático recebe $1.12, uma pessoa de duas ou mais raças embolsa $0.81, um indígena ganha $0.77, um negro fica com $0.76 e um latino ou hispânico ganha $0.73, de acordo com dados de 2020 do Departamento do Trabalho do governo federal americano. Os dois podem estar relacionados, já que as universidades americanas — públicas e particulares — são pagas. Ou seja, quanto menor a renda, menos condições de pagar a faculdade e quanto menos diplomas obtidos por determinada comunidade, menor é a renda.

E isso não se dá majoritariamente por falta de emprego, por exemplo, já que aproximadamente 61.1% de hispânicos, 60.6% dos asiáticos, 58.6% dos brancos, 55.7% dos negros e 55.5% dos indígenas estão empregados, de acordo com dados de 2021 do governo americano.  A diferença está no tipo de oportunidade. Em 2021, aproximadamente 58.1% dos asiáticos trabalhavam em profissões de gerenciamento ou correlatas, cujo salário tende a ser maior. Em comparação, 42.8% dos brancos, 33.9% dos negros e 24.5% dos hispânicos ou latinos ocupavam o mesmo tipo de cargo.

Daí a importância de políticas afirmativas. Existe uma diferença de oportunidades disponíveis para cada grupo étnico, racial, de gênero e de sexualidade. Os Estados Unidos têm um grande histórico de leis discriminatórias, que a longo prazo empurraram minorias para um lugar de desvantagem. O argumento da meritocracia diz que todos temos a mesma pista de corrida e linha de chegada, mas não leva em consideração o ponto de partida.

Os especialistas indicam que as políticas afirmativas não são apenas uma questão de justiça social, mas também um ganho para os negócios. Empresas com diversidade de gênero entre seus executivos têm 25% mais chance de ter um lucro maior do que a média de seus competidores, de acordo com um relatório de 2020 da consultoria McKinsey. O mesmo ocorre em relação à diversidade racial, podendo gerar ganhos potenciais de 36%. A diversidade também impacta na capacidade de as empresas inovarem de acordo com uma pesquisa de 2018 da Harvard Business Review.

Adotar iniciativas para empregar mais minorias não é "racismo reverso", mas sim uma oportunidade de compensar os problemas gerados éla discriminação no passado para que o futuro seja mais igualitário, além de garantir um bônus no desempenho das empresas. Aí sim poderemos falar de meritocracia — quando todos tiverem o mesmo acesso ao estudo e ao mercado de trabalho.

 

 

*Como expliquei no caso da decisão da Suprema Corte contra aborto, no ano passado, a justiça americana adota decisões baseadas em precedentes. A constituição foi escrita em termos mais gerais, para ser interpretada caso a caso, então, quando um juiz quer tomar uma decisão ele analisa o resultado de casos anteriores que sejam parecidos – apesar de ser mais flexível, o sistema tenta manter uma certa consistência.

 

Isabela Rocha

Autor: Isabela Rocha

Sobre o/a Autor(a) Isabela Rocha é jornalista freelancer. Apaixonada por escrita, comunicação e justiça social, seu sonho profissional é trabalhar para o avanço da igualdade de gênero e do combate ao racismo. Ela acredita no poder democrático das notícias e sempre busca contar histórias relacionadas à diversidade para normalizar a vida de minorias sociais.


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