Que país é mesmo este?

Quando um sujeito ocupante de importante cargo em uma estatal é acusado e preso de ter praticado “malfeitos” com dinheiro público, ele se sente no direito de reclamar e questionar: “Que país é este?!”. Seu direito foi exercido e também sacramentada a sua soltura pelo poder Judiciário. E lá foi ele mexer em contas secretas no exterior, onde, se desconfia, guardava o fruto do butim ao seu, ao meu, ao nosso dinheiro. Preso de novo. Só que, agora, ele não questionou nada sobre o país.

A Polícia Federal deu mais um toque de ironia nesta triste crônica da corrupção brasileira. Batizou a operação que levou o ex-diretor da Petrobras, Renato Duque, para o xilindró de “Que país é este” – uma homenagem ao crítico do serviço da própria polícia que o havia encarcerado anteriormente.

O que nos deixa atarantados é que até o suposto meliante demonstra indignação quando a lei (aparentemente) funciona. Eu sempre defendi que o brasileiro precisa se indignar, mas não previa que até esse tipo de gente iria demonstrar indignação com o Brasil. Eu não chamo Duque de “coisa” pior porque não sou investigador e não tive acesso a provas contra ele. Isso cabe a quem tem a prerrogativa de cuidar dessas tarefas.

Nós x Eles
Você é “Nós” ou “Eles”? Eu não consegui me classificar nestes dois parâmetros usados por quem tenta dividir a opinião pública e jogar brasileiros contra brasileiros nesta onda de insatisfação contra os corruptos, o governo federal, o Legislativo e outros. O debate está pobre. O direito livre à manifestação é à toda hora cassado por um ou outro grupo. Está certo que há os que exageram em defender bandeiras que desagradam a muitos, mas democracia é saber conviver com diferentes e opostos, preferencialmente com respeito mútuo. Não é o que ocorre. O ódio é fomentado a todo instante.

Eu, que como disse, não sou nem “Nós” nem “Eles”, vejo que há ditadores disfarçados de democratas aos montes nas redes sociais pregando o que é certo e o que é errado e, ai de quem discordar, mesmo que apresente argumentos. Para os “ditadorezinhos”, quem protesta é alienado e massa de manobra dos conspiradores.

Recentemente, o “Nós X Eles” tem fugido aos poucos do confronto “Pobres X Ricos” passa a levantar questões ligadas à cor da pele. Outro modo de tentar jogar brasileiros contra brasileiros, em um país que precisa avançar para reduzir as desigualdades, mas que tem muito a debater sobre isso – tanto quanto outras nações ditas mais desenvolvidas do que a nossa.

Quem se deixa afetar por esta manipulação de mentes perde oportunidade para pensar com clareza sobre o que realmente ocorre neste país e o que precisa ser feito para que o Brasil atenda às expectativas dos brasileiros para se tornar uma nação mais justa.

Fui às ruas em Brasília no dia 15 de março. Sendo jornalista eu precisava conferir in loco como estavam os “protestadores”. Em Brasília o impacto tem que ser medido sob a ótica dos políticos que ou ali estavam – caso da presidente Dilma e seus ministros – e que não estavam – ou seja, os parlamentares.

A melhor foto que vi registrada (pelo jornal Correio Braziliense) mostrava a visão de quem estava no prédio do Congresso Nacional de frente à multidão. Milhares de pessoas que, não estivessem de bom humor (este foi o clima o tempo todo), poderiam impor medo à classe política se tivessem a intenção departir para cima dos políticos.

Este “recado” foi bem compreendido pelas excelências, tenham certeza. Apesar das tentativas de minimizar os reclamantes à condição de abastados (os tais “coxinhas”), as “otoridades” sabem que é muito, mas muito mais do que isso.

A presidente Dilma Rousseff tem titubeado nas reações. Seus porta-vozes idem, inclusive na hora de falarem o que a sociedade gostaria realmente de ouvir. Ela precisa ser mais assertiva, adotar medidas que impactem a sociedade positivamente, recompor a base aliada e várias outras ações – ela está atrasada nisso, pois, após as eleições, deu uma sumida de cena, ainda não explicada, e reapareceu magrinha enquanto o país começava a pegar fogo.

Ela não pode demorar e o país não quer esperar muito. Seu antecessor, Lula, conseguiu dar a volta por cima depois do mensalão (se é que você acredita que ele aconteceu). Agora, a situação é outra, e bem mais complexa. E o pior é que a cobertura teflon não está tão anti-aderente assim como no passado…

Sergio Crossé diretor da Profissionais do Texto Agência de Comunicação