Brasília é destaque em qualidade de vida

Cheguei a Brasília para morar e trabalhar em 10 de setembro de 1990. O atual senador Fernando Collor de Mello era Presidente da República e Zélia Cardoso de Mello (não é parente dele) mexia na economia nacional todo santo dia – era uma loucura para um repórter recém-chegado à sucursal da “Folha de S.Paulo”.

Em boa parte da minha juventude fui criado em cidade pequena, e Brasília em 1990 não era mais do que uma cidade de porte médio, muito modesta na oferta de lazer, varejo e serviços – indústrias eram raras. Minha adaptação foi muito fácil.

Logo de cara, tive o impacto da necessidade de usar algum veículo – mesmo que uma bike – para percorrer as distâncias. Primeiro a pé, depois de moto e, por fim, um carro próprio para circular pela cidade de Brasília, que abriga em um amplo retângulo as sedes dos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo. Ali é a capital federal do Brasil – o restante, inclusive as cidades que compõem o Distrito Federal, é interior de Goiás; são cidades interioranas e bem interessantes.

Avalanche de gente

Em 1990, algo que logo chamou minha atenção em Brasília (ou Bsb) – transferido da sede do jornal, na capital paulista – foi o trânsito e os pedintes, ou melhor, a falta de congestionamentos e a inexistência de pedintes nos semáforos. Em São Paulo, há décadas você circula com os vidros do carro fechados para afastar aqueles que acham que rua é local pra pedir algo, vender algo ou até assaltar.

Aqui na Brasília de 1990 poucos carros se acumulavam nos semáforos e demorou alguns anos para a situação degringolar, até que um governador local distribuísse lotes (em troca de votos) para gente que nem aqui morava. Foi uma “avalanche” de gente.

Resultado: Brasília passou a crescer aceleradamente, sem qualquer planejamento e infraestrutura que pudesse dar conta adequadamente dessa mudança.

Passados tantos anos, ainda estou sediado em Brasília e, graças à tecnologia, atuo em qualquer parte do país na área de comunicação corporativa – daqui é fácil se locomover para qualquer ponto do Brasil. E não pretendo sair daqui.

Ainda encaro a cidade como um município interiorano, só que agora com atrações típicas de grandes centros –  até jogos de Copa do Mundo foram sediados aqui, além de grandes shows internacionais etc.

O principal motivo é a qualidade de vida que desfruto com família e amigos.

Tudo bem que aqui tem assalto, assassinato, estupro e um bando de corruptos como em qualquer unidade federativa brasileira, mas além de você perceber essa ótima qualidade de vida um estudo divulgado esta semana mostra isso: a consultoria Mercer, em sua Pesquisa de Qualidade de Vida Mundial, situa Brasília em 106º lugar de um ranking mundial de cidades classificadas pela qualidade de vida que proporciona aos cidadãos

Depois dela estão, por exemplo, o cartão-postal mundial Rio de Janeiro, em 117º, e a megametrópole São Paulo, em 121º; a capital do Amazonas aparece na 125ª posição. Dá para comemorar, mas é bom ressaltar que Manaus está a apenas 42 posições da última colocada Bagdá (Iraque) e São Paulo a apenas 38 posições do fundo do poço.

A Mercer leva em conta indicadores diversos como condições de serviços e moradia, ambiente político, econômico e sociocultural. Viena (Áustria) lidera o ranking – meu primo sortudo mora lá.

Aqui em Bsb o clima é seco, mesmo quando chove. São geralmente seis meses com pouquíssimas chuvas e seis meses com maior intensidade delas. Como dizem os baianos aqui radicados, é um “calor da porra” o ano todo. Embora não seja difícil usar um casaco em janeiro, em pleno verão…vai entender.

Montevidéu, Buenos Aires e Santiago

Para manter a máquina pública federal, o governo local conta com uma boa grana carimbada do governo federal e isso contribui sobremaneira para assegurar a prestação de serviços públicos. Há falhas, sim, e graves como na Saúde e na Segurança, porém, em quais locais do Brasil não as há?

Nesta questão de Segurança, por exemplo, a pesquisa ressalva que Manaus está mais bem colocada do que Brasília.

Apesar de celebrar a qualidade de vida na capital federal, todos deveriam avaliar o que fazer para que as demais cidades brasileiras melhorem continuamente seus indicadores para que pudessem encostar em sua capital nesse quesito.

Temos que perseguir insistentemente algumas cidades-capitais aqui do nosso continente que deixam a capital do Brasil no chinelo: Montevidéu (78º lugar), Buenos Aires (81º) e Santiago (93º). Para conseguirmos isso, que tal todos nós nos organizarmos socialmente e passarmos a influir cada vez mais na política, na educação, na saúde, na gestão de nossos territórios municipal, estadual e federal? Não deixe isso apenas para quem se eleger. Pense bem nisso!

Sergio Cross é diretor da Profissionais do Texto Agência de Comunicação