Grana preta e esperta

Passava um pouco das 9h quando cheguei ao Hilo Coworking, um espaço colaborativo situado no bairro de Vila Madalena e pertencente aos mesmos empreendedores de O Panda Criativo e do Festival Path. Na área externa um grupo de cerca de 20 empreendedores afro-brasileiros trocava ideias, enquanto degustava um saboroso café regado a acepipes diversos. Boa parte deles veio de outras cidades (Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Florianópolis) e tinha um objetivo em mente: fazer negócios em altíssimo nível.

Isso ficou claro logo na rodada de apresentação do One Day BLACK – 1º Workshop Intensivo para Empreendedores Negros, evento realizado pelo Fundo Grana Preta, uma startup comandada por jovens com o objetivo de qualificar, financiar e acelerar negócios tocados por este contingente da população brasileira. Conheci o Fundo por meio da Rede de Profissionais Negros – SP, que reúne no Facebook graduados funcionários de empresas públicas e privadas, além de empreendedores.

O que atraiu os 15 empresários, com faixa etária e estágios de negócios em diferentes níveis, era a possibilidade de encontrar respostas para uma das principais angústias dos empreendedores brasileiros, em geral, e dos afro-brasileiros, em particular: recursos para tirar as ideias do papel ou fazer sua empresa mudar de patamar. A expectativa é que ao longo deste dia alguns deles sejam selecionados para participar da rodada de apresentação marcada para o sábado 26, em São Paulo.

Neste encontro, o Fundo Grana Preta e seus patrocinadores e integrantes de sua rede de contato (que inclui fundos de investimento de porte global, aceleradoras de startups e empresários graduados no circuito Rio-São Paulo) vão selecionar as iniciativas que pretendem apoiar. Na avaliação de Bruna Helena Barros, 29 anos, sócia do Fundo, este é apenas o primeiro passo de uma longa jornada. “Além das chamadas para este encontro de hoje, feitas a partir da divulgação da agenda nos meios de comunicação e nas redes sociais, também vamos buscar afroempreendedores nas universidades”, conta.

Coube ao jovem Samuel Emilio, 21 anos, o caçula dos fundadores do Grana Preta, agitar os participantes da roda. “Afinal, o empreendedor negro tem medo de mostrar a cara e disputar recursos e espaço em polos de tecnologia?”, provocou, para depois emendar: “A minha percepção é que falta informação, qualificação e background para eles se posicionarem como empreendedores.”

A plateia não apenas acusou o golpe como devolveu a bola em alto nível. “Nenhum investidor vai nos apoiar apenas por sermos negros”, disparou Marcia Gonçalves Dias Deraoui, sócia-diretora da Foccus Sistemas. “É preciso adquirir capacidade executiva e saber falar a língua dos negócios.” Por sua vez, o consultor e coach Leizer Pereira, fundador do Empodera!, lembrou das barreiras invisíveis, especialmente as de ordem “sócio-emocionais”, como dificultadoras neste processo. “Muitos não se veem como pertencentes a este mundo de incubadoras e aceleradoras de startups.”

O bate-papo serviu para aquecer o time, antes da entrada em cena de palestrantes que iriam conduzir algumas das dinâmicas do dia. A começar pela liderada por Fabiano Salgado, coordenador de projetos da Aliança Empreendedora, uma das parceiras e mantenedoras do Grana Preta. Aliás, o surgimento do Fundo se deu como trabalho de conclusão do curso ministrado pelo ProLíder, uma iniciativa do Instituto Four em parceria com diversas ONGs como a Fundação Estudar e a Vetor Brasil, destinada a capacitar jovens a atuar no setor público. “Montamos o projeto em setembro e ele já está rodando”, conta a energizada Bruna Helena.