Reciclagem de PET atinge 55%, colocando o Brasil à frente dos EUA

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Numa época em que diversos países vivem a crise sanitária, social e econômica causada pela COVID-19 os poucos dados positivos que surgem merecem ser destacados. Especialmente no jeito como estamos lidando com a saúde do planeta. No quesito reciclagem, por exemplo, o Brasil tem muito o que ensinar a países desenvolvidos, como os Estados Unidos. Duvida? No ano passado, o índice de reciclagem de embalagens PET atingiu a marca de 55%. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), este montante equivale a 311 mil toneladas do produto, volume 12% acima do verificado em 2018. Mais. O reaproveitamento gerou um faturamento de R$ 3,6 bilhões.

Os números constam do 11º Censo da Reciclagem do PET no Brasil que envolveu 160 empresas de norte a sul, divididas da seguinte forma: recicladores (22%); aplicadores, que são empresas que adquirem e utilizam o PET reciclado em seus produtos (70%); e integrados, que fazem a reciclagem e também utilizam o material na fabricação de itens que retornam ao mercado (8%). Segundo o diretor-executivo da Abipet, Auri Marçon, o desempenho brasileiro é superior ao dos Estados Unidos (com índice de reciclagem de 29%) e ao da União Europeia que, apesar de coletar 58,2% das embalagens, envia boa parte do material para ser processado em outros países.

“O crescimento verificado em 2019 é reflexo do fortalecimento da economia circular, composta por uma indústria diversificada, que utiliza o PET reciclado em seus produtos. A criação dessa cadeia, feita ao longo de 20 anos, resulta em uma demanda consistente, que cria valor à reciclagem do PET”, diz. Além do PET,  o Brasil também se destaca na reciclagem de outras embalagens plásticas, como as usadas na comercialização de defensivos agrícolas. Além disso foi a brasileira Braskem que criou o plástico verde, feito a partir da cana de açúcar. Por sua vez, as multinacionais instaladas no país também colocaram suas áreas de inovação para descobrir formas de incorporar o plástico pós-consumo à sua cadeia de produção de resinas. Uma delas é a americana Dow.

Em entrevista a 1 Papo Reto, o diretor-executivo da Abipet destaca os investimentos das empresas do setor para se adequar à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Um deles foram os mais de US$ 100 milhões aplicados no processamento das embalagens pós-consumo, viabilizando seu retorno às linhas de envase, no esquema bottle to bottle (da garrafa à garrafa).  

Falta o poder público cumprir os compromissos na Política Nacional de Resíduos Sólidos”

Quais os principais pontos que vêm favorecendo o aumento do percentual de reciclagem?

Auri Marçon, diretor-executivo da Abipet

O aumento da reciclagem das embalagens de PET pós-consumo é resultado de um consistente trabalho de desenvolvimento de diferentes aplicações para o PET reciclado, realizado nos últimos 15 anos e que permeou vários segmentos da indústria como um todo. Em primeiro lugar, devemos valorizar os avanços importantes no desenvolvimento de mercados que aceitaram utilizar o material reciclado, tais como: têxtil, químico, construção civil, automotivo e, principalmente, o de embalagens, que romperam com um passado de preconceitos e aderiram fortemente ao tema da sustentabilidade, criando uma indústria diversificada, que gera a demanda pelo produto, conforme mostram os dados do nosso Censo.

Outro lado dessa equação foi a evolução da qualidade do produto (RPET), com investimento de mais de US$ 100 milhões, que permitiu, por exemplo, o crescimento do seu uso na fabricação de novas embalagens. Em 2009, menos de 10% do PET reciclado voltava a ser embalagem, contando com apenas uma empresa fornecedora. O bottle to bottle era um grande desafio tecnológico para a reciclagem. Hoje, esta é a destinação que mais cresce, consumindo 23% do PET reciclado em 2019, com mais de 10 empresas homologadas como RPET Food Grade pela Anvisa e várias outras que estão em processo de avaliação.

A PNRS e a Lei de Resíduos Sólidos têm relação direta com esta evolução?

Até o momento, as principais contribuições da PNRS e os respectivos avanços nos acordos setoriais de logística reversa estão relacionados à educação ambiental e à responsabilidade compartilhada. Tanto os cidadãos como as empresas têm aprendido muito nesse período, criando uma base que deve acelerar o processo de resgate do material do meio ambiente e o encaminhamento do mesmo para a reciclagem.

Por outro lado, em termos de volume resgatado para a reciclagem, a influência ainda é pequena, mas está crescendo conforme avança o amadurecimento dos envolvidos. É triste, porém, ver que nem todos os elos cumprem a sua parte para o funcionamento da logística reversa prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos e na Lei de Resíduos Sólidos. A discussão sobre a destinação correta dos resíduos sólidos contribuiu para maior conscientização da sociedade em geral, que hoje faz a sua parte separando o material reciclado do lixo orgânico.

No entanto, prefeituras (responsáveis pela coleta de resíduo sólido urbano) não têm avançado no que diz respeito à coleta seletiva, que poderia colaborar com o resgate do material antes que seja enterrado nos lixões e aterros. Alguns legisladores, Ministério Público e, obviamente, políticos do executivo, com interpretações parciais ou equivocadas da PNRS, cobram ações do setor privado, através de ações judiciais ou projetos de lei que não são exequíveis, criando ainda mais transtornos aos envolvidos que se dedicam à solução do problema, em vez de cobrar de quem nada faz.

Como exemplo, temos o adiamento constante do Plano de Gerenciamento dos Resíduos Sólidos, que as prefeituras, com base na mesma lei, deveriam ter entregado ao Ministério do Meio Ambiente há anos e onde deveriam constar os avanços da Coleta Seletiva dos Resíduos Sólidos Urbanos.

A indústria do PET fez a sua parte: investiu em reciclagem e gerou a demanda para dar a viabilidade econômica necessária à atividade. Tanto que o nosso Censo nos permite estimar que a capacidade total de reciclagem de garrafas PET no Brasil é de 400 mil toneladas/ano. Ou seja, existe uma capacidade ociosa que nos coloca em uma posição confortável para aumentar rapidamente o processamento das embalagens pós-consumo. O que falta é a coleta e a separação desse material, que devem ser feitas pelo poder público.

Estar à frente dos EUA não significa, necessariamente, que estejamos numa posição confortável no quesito reciclagem. Afinal, ainda deixamos de reciclar 45% que podem ser os responsáveis pelos problemas ambientais imputáveis à cadeia. Dito isso, pergunto: existe a ambição de o setor chegar a 100%? Caso positivo, quando?

Trata-se da criação de uma nova indústria (da reciclagem) num período de aproximadamente 20 anos. Portanto, partimos do zero e chegamos a 55%. Uma etapa inicial (2000 a 20010) foi de convencimento dos empresários a utilizarem um material que, naquela época, era taxado como algo “vindo do lixo”.

Entre 2010 e 2020, houve uma grande evolução da tecnologia e da qualidade do produto reciclado, que trouxe consistência à demanda. Isso é fruto de investimentos e constância de propósito do setor. Consideramos o índice de 55% uma grande vitória, principalmente por se tratar de um país onde a coleta seletiva é insignificante, o que constitui o grande gargalo para o crescimento da reciclagem. O índice só não é maior por falta de material para abastecê-la. Isso só será resolvido a partir de investimentos públicos em sistemas robustos de coleta e separação.

Em vários períodos, a indústria da reciclagem trabalhou com ociosidade superior a 30%, como foi o caso de 2018 e 2019, simplesmente por falta de coleta de garrafas para abastecer os recicladores. Além disso, nosso setor está inserido num contexto macroeconômico que não pode ser desconsiderado em uma análise séria e correta de desempenho.

Apesar disso, o segmento do PET e, principalmente, do PET reciclado, não ficou parado e tem o objetivo de crescimento contínuo do índice de reciclagem.

Por fim, com a coleta deficiente, crescer de um patamar de reciclagem de 5% para 10% ou de 20% para 30% já seria difícil. Mas, crescer a partir de índices já robustos é muito mais difícil.

O que poderia ser feito, do ponto de vista governamental (redução de tributos, por exemplo) e legal (obrigatoriedade de um percentual mínimo de reciclagem), para viabilizar a reciclagem de 100% do PET pós-consumo?

Do ponto de vista tributário, nas últimas duas décadas, participamos de diversas iniciativas que buscam incentivos para a indústria da reciclagem, mas pouco tem se obtido como resposta. Infelizmente não houve grandes alterações nos últimos anos. Quem investiu em plantas de reciclagem teve pouquíssimos ou quase nenhum benefício.

Mas o principal ponto é que falta ao poder público em geral cumprir com os compromissos previstos na PNRS. Ou seja, é necessário investimentos públicos em sistemas de coleta e separação robustos, que permitam à indústria ter acesso ao material e destiná-lo à reciclagem. Feito isso, o nosso setor já realizou os investimentos necessários e está pronto para incorporar novos volumes e avançar na reciclagem das embalagens de PET pós-consumo.