Feira Preta: R$ 16 milhões em negócios

Feira Preta: R$ 16 milhões em negócios

No jornalismo de economia e negócios, existem inúmeras formas de se contar uma história. As mais usuais têm como ponto de partida a importância da personagem enfocada ou então o quanto seu trabalho impacta a sociedade. Outra opção inclui a capacidade dessa personagem em inovar nos setores nos quais atua. No caso da paulistana Adriana Barbosa, qualquer das opções elencadas acima não são capazes de contemplar, com exatidão, sua trajetória desde 2002. Foi neste ano que ela e um grupo de amigos criaram a Feira Preta, evento de economia circular e criativa baseado no trabalho e na produção de empreendedores afro-brasileiros.

Na sexta-feira (3/5), Adriana deu a largada na 22ª edição do evento rebatizado de Festival Feira Preta, e que acontece no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, do dia 3 ao dia 5 de maio. A mudança da nomenclatura não se deve a uma questão estilística. Mas, sim, para marcar o gigantismo do evento, o maior do tipo no Brasil, a reunir moda, literatura, design e atrações musicais. Todos focados na comunidade negra. “Essa é a maior ocupação já ocorrida no Ibirapuera”, diz Adriana, diretora-executiva do Instituto Feira Preta (PretaHub). “Esperamos receber 50 mil pessoas ao longo dos três dias.”

E, neste caso, a utilização do plural não se deve a uma condescendência de linguagem, o tal plural majestático, mas, efetivamente, pela amplitude de atrações e iniciativas econômicas vindas de inúmeras cidades brasileiras, além de diversos países da África: Gana, Nigéria e Burkina Faso. Este, último, investiu pesado em sua participação no evento, no qual o chefe da delegação é o ministro da Cultura, Adjima Thiombiano. Durante a entrevista coletiva na abertura do Festival, ele destacou a parceria com o PretaHub, mantenedor do Festival, e o trabalho de intercâmbio na área da moda com grifes brasileiras, que já rendeu viagens exploratórias para conhecer a tecnologia social adotada na produção e beneficiamento do algodão Faso Dan Fani.

1 adriana feira preta 1 papo retoAdriana (de pé), criadora do Festival Feira Preta, durante coletiva em São Paulo

Desde que se tornou empreendedora, Adriana pode experimentar os percalços e alegrias comuns aos afro-brasileiros que se lançam em iniciativas autorais. O pioneirismo trouxe muitos dissabores, mas desnudou oportunidades. No primeiro caso, a referência se refere a “revolta” dos moradores e comerciantes da Praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros, na rica Zona Oeste da cidade de São Paulo, local da primeira edição da Feira. Os queixosos se diziam preocupados com a "descaracterização do espaço" tradicionalmente ocupado por comerciantes de antiguidades. Essa foi a “desculpa oficial” para que o evento fosse proibido no segundo ano. Mas, desde sempre ficou patente que o grande afluxo de pessoas não brancas nunca foi bem visto!

A experiência também mostrou a Adriana que existia um grande espaço a ser ocupado no segmento que viria a ser conhecido como Black Money, que foca no desenvolvimento do trabalho de afro-empreendedores e na circulação de recursos dentro da comunidade. Desde então, a Feira Preta já ajudou a fazer circular R$ 16 milhões. À primeira vista, pode parecer pouco, contudo é preciso levar em conta que este montante foi fruto da comercialização de itens de baixo valor unitário: roupas, bijuterias, itens de decoração, produtos alimentícios e livros.

1 casa preta hub 1 papo retoCasa PretaHub, na região central da cidade de São Paulo

Felicidade como revolução

Nos últimos cinco anos, Adriana intensificou o projeto de transformar a Feira Preta em um hub de iniciativas inovadoras, como a conversão digital de negócios, capazes de dar suporte aos empreendedores afro-brasileiros ao longo de todo o ano. Isso porque, muitos comerciantes tinham a Feira Preta como sua única ou principal vitrine. Foi neste contexto que surgiu, em 2020, a Casa PretaHub, situada na região de Central de São Paulo e que conta com filial em Cachoeira, cidade histórica do Recôncavo Baiano. Nessas unidades, é possível participar de cursos, palestras, exposições e fazer ativação de marcas.

Para colocar essas iniciativas de pé, Adriana e sua equipe foram em busca de parceiros de grande porte, como Seda, marca da Unilever, e Mercado Livre, por exemplo. “Somente no último ano nós viabilizamos o investimento de R$ 3 milhões em empresários negros”, conta.

Mais que recursos financeiros, a Feira Preta que nasceu com o objetivo singelo de levantar uma grana extra, se impôs como uma das principais alavancas do Black Money na América do Sul. Prova disso é que já aconteceram edições itinerantes na Bahia, no Maranhão, no Rio de Janeiro e até na Colômbia. E a ambição de ir muito além pode ser vista na assinatura do evento deste ano: “Felicidade como revolução”.