green Talks entrevista Silvia Massruhá, a primeira mulher a assumir a presidência da Embrapa

green Talks entrevista Silvia Massruhá, a primeira mulher a assumir a presidência da Embrapa

temporada 2024 do videocast green Talks – uma iniciativa pioneira entre a green4T e NEO MONDO para discutir o papel fundamental da tecnologia na promoção de um futuro mais sustentável – tem início com uma convidada muito especial, Silvia Massruhá. Ela é a primeira mulher a assumir a presidência da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), um importante reconhecimento num ambiente com uma prevalência tão masculina quanto o setor agropecuário nacional.

Silvia Massruhá é doutora em Computação Aplicada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), mestre em Automação pela Unicamp e graduada em Análise de Sistemas pela PUC-Campinas. Mineira de Passos (MG), ingressou na Embrapa em 1989 e já liderou projetos na área de engenharia de software, inteligência artificial e computação científica aplicada à agricultura.

Confira a entrevista na íntegra abaixo:

Num bate papo descontraído com a jornalista Eleni Gritzapis, Silvia fala sobre sua carreira disruptiva dentro da Embrapa, conectividade no campo, inclusão digital e as inovações tecnológicas emergentes que podem transformar ainda mais o setor agrícola brasileiro nos próximos anos, tendo a tecnologia como ferramenta indispensável para disseminar práticas mais sustentáveis na agropecuária. “Esse ano completo 35 anos de Embrapa e fico muito orgulhosa de ter sido convidada a ser a primeira mulher a ser presidente da entidade. Mais do que o reconhecimento da minha trajetória, sei da grande responsabilidade que tenho”, destaca.

Poucos sabem que a Embrapa tem trabalhado fortemente na inclusão digital para aumentar a sustentabilidade da agropecuária brasileira, especialmente para pequenos produtores rurais, que normalmente têm mais dificuldade de acesso a informações e a soluções tecnológicas. Inclusive, a Embrapa e parceiros vão desenvolver ações de inclusão digital em dez municípios brasileiros. Você pode nos contar mais sobre este projeto?

Antes de assumir a presidência da Embrapa, já vínhamos trabalhando junto ao Ministério da Agricultura, Ministério de Ciência e Tecnologia e o Comitê Gestor da Internet em iniciativas para trazer a internet para o pequeno e médio produtor rural, de uma forma mais estruturante para aumentar a competividade do pequeno e o médio produtor rural. É um projeto que visa mostrar como a tecnologia pode contribuir para agregar valor ao pequeno e médio agricultor, ajudando-o a reduzir custos, melhorar a gestão da propriedade e até mesmo trazer um selo de sustentabilidade. Nosso objetivo é criar 10 núcleos no Brasil, trabalhando com toda a cadeia produtiva.

Já temos um piloto no município de Caconde (SP), com a associação de produtores e cooperativas de café, em que primeiramente levantamos as necessidades daquela comunidade, identificamos os gargalos de pesquisa e inovação, em um trabalho conjunto entre a Embrapa e parceiros, como a Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), e trabalhamos no modelo de conectividade mais adequado para a região do projeto.

Contemplamos três dimensões: pesquisa e inovação, conectividade e capacitação. Caconde, por exemplo, é uma região montanhosa, com diversos desafios e demandas para produtores de café, entre eles o de ter uma certificação para a produção. Por isso, envolvemos também startups, universidades e provedores de internet, ajudando, desta forma, a movimentar o ecossistema local. Além de capacitar os produtores naquela área, temos outros cinco subprojetos, entre eles um de monitoramento do impacto econômico, ambiental e social da inserção de novas tecnologia na produção. Temos ainda um grupo trabalhando com inteligência artificial e geotecnologia; outro com agricultura de precisão; outro com rastreabilidade e certificação e assim vamos agregando mais valor no sistema de produção de café na região.

Além de Caconde, temos pilotos com hortifruticultura em São Miguel Arcanjo (SP) e com sistema agroflorestal na região Norte, perto da ilha de Marajó. São realidades completamente diferentes, mas a ideia é criar modelos economicamente autossustentáveis ao término de cada projeto.

Nos últimos tempos o agro brasileiro tem sido alvo de muitas críticas com relação à sustentabilidade. Sabemos que há também um grande desconhecimento da população urbana sobre a agropecuária, cercando o setor de mitos e inverdades. A informação é chave para combater estes mitos. Você pode compartilhar conosco alguns exemplos de tecnologias desenvolvidas pela Embrapa que tem contribuído para implementar e disseminar práticas mais sustentáveis na agropecuária no Brasil?

Muito se fala da evolução da agricultura nos últimos 50 anos. Passamos de importador para grande produtor e exportador de alimentos, em três grandes ondas: a expansão da soja e grãos da década de 70; sistemas integrados consorciados, como a ILPF (Integração Lavoura Pecuária Floresta); e hoje falamos de uma agricultura de base biológica e bioinsumos, evoluindo para uma agricultura mais multifuncional, onde a gente já não fala mais só de alimentos, mas também de fibras e energia, tudo de forma integrada. E a Embrapa tem papel fundamental nesta evolução sustentável.

Temos o desafio de aumentar a nossa produção e a nossa produtividade de forma sustentável com base em todas as três dimensões (econômica, ambiental e social). O Brasil é referência em agricultura tropical e temos que usar a tecnologia para também medir e mostrar índices de sustentabilidade. Hoje temos modelos para calcular essas métricas. A Embrapa já vem trabalhando com o cálculo da pegada de carbono para várias culturas há muitos anos. Conseguimos
pegar esses índices e tropicalizá-los para que não fiquemos refém de indicadores da América do Norte e da Europa, a partir da nossa experiência em agricultura tropical nesses últimos 50 anos. Ou seja, não adianta só falarmos que a nossa agropecuária é sustentável, temos que trazer números, métricas e indicadores, e tecnologia é muito importante para isso.

Na sua perspectiva, quais são as inovações tecnológicas emergentes que podem transformar ainda mais o setor agrícola brasileiro nos próximos anos?

Hoje temos quatro grandes desafios. O primeiro é a transição nutricional, o consumidor está muito mais preocupado com nutrição e saúde e origem dos alimentos que consome. Ele quer transparência do processo de produção, e isso exige novas tecnologias de rastreabilidade, como blockchain.

Transição energética é segundo, ou seja, modelos de matriz de produção de energia limpa em que não haja competição com a produção de alimentos. Aí entra o etanol de segunda geração, por exemplo; o Brasil é o único país no mundo que tem duas, três safras de milho, o que não impacta a disponibilidade alimentar.

 A transição climática é outro obstáculo. Estamos tendo eventos climáticos extremos, como seca na região Norte e inundações no Sul, e a agricultura é uma das áreas que mais tem interferência do clima. Quando pensamos em pegada de carbono, a atividade agropecuária é o único setor da economia que pode sequestrar CO2. Um exemplo é a ILPF (Integração Lavoura Pecuária Floresta), que possibilita um balanço negativo na questão de emissão de gases de efeito estufa.

Transição digital e adoção de novas tecnologias completam o quatro desafio, mostrando como todos estão completamente interligados. Sem inovações tecnológicas, não conseguimos fornecer dados e novos modelos para simular cenários futuros que impactem a produção a partir de informações de tendências de microclima, e até mesmo facilitar o acesso a sensores para pequenos e médios produtores utilizarem estações por biométricas e agrometereológicas que possam auxilá-los na tomada de decisões que impactem suas lavouras e produtividade,  só para citar alguns exemplos.

 

*O texto escrito pela jornalista Eleni Gritzapis (que aparece à esquerda na foto de abre essa reportagem, ao lado de Silvia, da Embrapa) foi escrito originalmente para o portal Neo Mondo