“Muito prazer. Filhas da Mãe, com muito orgulho”

“Muito prazer. Filhas da Mãe, com muito orgulho”

Trabalho invisível, não remunerado, exaustivo, individualizado e que adoece. Estamos em março, mês dedicado às mulheres e o foco vai para as cuidadoras familiares, elas que cuidam de seus pais, cônjuge, filhos, amigos íntimos etc., com algum tipo de demência. Só que, muitas vezes, se esquecem de olhar para si, de se acarinhar e de se autocuidar.

Quando um ente querido começa a apresentar sinais de demência, é muito comum aquele pensamento: “eu dou conta de cuidar”. Não dá! O tempo se encarrega de mostrar claramente que essa pessoa – que tem sua profissão, seu trabalho, seus estudos, seus projetos -  sofrerá uma sobrecarga física, emocional e social e, certamente, mais cedo ou mais tarde, vai adoecer e comprometer o seu equilíbrio e as relações familiares.

alzheimer cuidadoras 1 papo retoFoi pensando nesse contexto que, em dezembro de 2019 nasceu, em Brasília (DF), o Coletivo Filhas da Mãe, uma rede de apoio às mulheres cuidadoras familiares e informais. “Somos um grupo que cuida de quem cuida”, resume Cosette Castro, 63 anos, psicanalista e pesquisadora, e uma das criadoras do coletivo. Em seu histórico familiar, ela conhece bem esse cenário, pois como filha única, cuidou de sua mãe, com Alzheimer e, atualmente, de outros dois parentes próximos.

O Coletivo Filhas da Mãe destina seus esforços para quatro frentes de trabalho: cuidado coletivo e autocuidado; políticas públicas, tanto para quem cuida como para a pessoa com demência; envelhecimento ativo e saudável; e fornecimento de informações e atualizações sobre os diversos tipos de demência, principalmente o Alzheimer. O objetivo é criar e estimular o que se denomina Sociedade do Cuidado, onde se configure no seio familiar a corresponsabilidade nos cuidados com os filhos, na divisão e administração das tarefas domésticas, entre outras. E também, na coparticipação de gestores públicos, em suas várias representações.

A Sociedade do Cuidado é larga e longa

São várias as atividades lúdicas que o coletivo organiza para que essas cuidadoras familiares possam aliviar o cansaço, trocar ideias, se divertir e recarregar as energias, já que na maioria das vezes elas não têm condições financeiras para arcar com os serviços de um cuidador particular. Promovem rodas de conversa online sobre cuidado e autocuidado, caminhadas aos domingos, oficinas artísticas gratuitas, bloco de carnaval entre outras. O bloco carnavalesco Filhas da Mãe sai em cortejo no pré e pós carnaval, com a participação de cuidadoras e familiares. No mês de setembro, o grupo realiza a Caminhada da Memória em parceria com outras instituições, evento onde se divulga informações sobre demências e prevenção da saúde.

O coletivo marca forte presença ainda nas discussões e implementações de condutas que envolvem o universo da pessoa idosa com demência.  O Guia de Ações e Serviços Públicos, por exemplo, mapeou as instituições, as ações e os equipamentos públicos do Distrito Federal que oferecem atendimento às pessoas idosas com demência ou em processos demenciais e para seus cuidadores.  Este documento informa os serviços oferecidos e as formas de acesso nas áreas de Assistência Social, Educação, Parcerias Público-privadas, Saúde, Instituições sem Fins Lucrativos, Universidade, Segurança Pública e Justiça.

Em 2022 Cosette Castro participou também, como pesquisadora e representante das Filhas da Mãe do “Estudo Sobre Pessoas Idosas com Demência e Cuidadores do Distrito Federal”, realizado pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF), com cuidadores familiares e particulares. O objetivo do trabalho foi traçar o perfil sociodemográfico de cuidadores de pessoas idosas com demência ou em processo de diagnóstico no Distrito Federal e  identificar as necessidades e as barreiras que enfrentam no dia a dia, especialmente na busca por serviços públicos que atendam pessoas idosas com demência. O levantamento concluiu que a população está envelhecendo rapidamente, o que gera um desafio para a gestão pública: planejar, elaborar e implementar políticas públicas para esse grupo de pessoas idosas, contemplando os setores econômico, social, saúde, lazer e outros.

Reivindicações

As propostas do Coletivo Filhas da Mãe para a criação de políticas e sistemas de cuidado estão segmentadas em múltiplas áreas, como Saúde, Assistência Social, Educação, Tecnologia e outras. Acompanhe algumas delas:

bloco filhas da mãe 1 papo reto 1- Ampliar o Programa Farmácia  Popular com ênfase nos bairros com maior população e na periferia.

- Aumentar a oferta de fraldas infantis e geriátricas e de dietas.  

- Subsidiar a aquisição de cadeiras de rodas, camas especiais e carros adaptados para pacientes com mobilidade reduzida ou acamados.

- Criar Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas (ILPIs) públicas em todo o país. 

-  Criar um auxílio público funeral.

- Regulamentar as licenças de trabalho e trabalho com horário flexível para a pessoa responsável pelo cuidado familiar.

- Fornecer auxílio mensal (bolsa) para cuidadoras familiares e informais  para que possam viver com dignidade enquanto cuidam (lembrando que uma pessoa com demência, entre elas o Alzheimer, pode viver mais de 20 anos).

- Garantir a aposentadoria das cuidadoras familiares levando em conta os anos dedicados ao cuidado familiar.

- Proporcionar cursos de formação e atualização profissional para cuidadoras  familiares após o falecimento do parente (essas pessoas passam anos fora do mercado e depois não têm condições de voltar por estarem desatualizadas).

- Fiscalizar os cursos de cuidadores, sejam eles voltados para as cuidadores familiares ou profissionais.

- Realizar uma campanha nacional “Cuidado Não Tem Gênero. Ou Não Deveria Ter”, estimulando a corresponsabilidade do cuidado entre homens e mulheres na família, assim como a corresponsabilidade social, incluindo a comunidade, o Estado, o mercado e as empresas no cuidado coletivo. 

 

Para conhecer a relação completa de todas as propostas sugeridas pelo Coletivo Filhas da Mãe, acesse o link aqui 

O Coletivo Filhas da Mãe agrega atualmente cerca de 370 mulheres no grupo de WhatsApp, a maioria vivendo no Distrito Federal, além de participantes de outros estados. O grupo mantém um blog no jornal Correio Braziliense, com duas publicações semanais (às segundas e sextas-feiras) e o programa de entrevistas “Terceiras Intenções” (Youtube), que vai ao ar  uma vez por mês, com a participação de um convidado especialista.

Cosette Castro e Ana Castro também escreveram o livro Alzheimer- Cuidadoras Familiares (Filhas da Mãe com muito orgulho, apesar da pandemia e das demências), pelo Portal Edições.

Os contatos com o coletivo podem ser feitos pelo email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. , telefone (61) 99989-5808 ou pelas redes sociais:

 @blocofilhasdamae

https://www.facebook.com/filhasdamaecoletivo/

www.youtube.com/@FilhasdaMaeColetivo

https://blogs.correiobraziliense.com.br/coletivo-filhas-da-mae/

 

 

Angélica Soller

Autor: Angélica Soller

Sobre o/a Autor(a) Angélica Soller é jornalista e relações públicas, proprietária da Angélica Soller Comunicação. Escreve sobre assuntos relacionados à longevidade saudável, empreendedorismo sustentável e “cases” de superação que sirvam de exemplo para transformar e fazer a diferença


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