Os desafios da comunidade LGBTQIA+ na terceira idade

Os desafios da comunidade LGBTQIA+ na terceira idade

Diz a lenda que, no fim do arco-íris, há um pote de ouro. Na mesma linha de raciocínio, a primeira frase da música “I’m always chasing rainbows/ Estou sempre caçando arco-íris”, interpretada pelo roqueiro americano Alice Cooper, reafirma: “At the end of the rainbow, there's happiness/No fim do arco-íris, há alegria”. Talvez, por essas e outras, o símbolo escolhido para representar a Bandeira do Orgulho Gay, a diversidade de orientação sexual e a identidade de gênero seja um arco-íris. As cores expressam a diversidade, “afinal, somos muitos e somos diferentes”, revela o senso comum da comunidade. Mas será que a diversidade livre estampada nesse ícone mundial é realmente vivida pelos 50+ pertencentes ao grupo LGBTQIA+?

“Como é o envelhecimento LGBTQIA+” foi o tema da palestra do geriatra Milton Crenitte, coordenador do Ambulatório da Sexualidade da Pessoa Idosa do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, no II Concien- Congresso Nacional em Ciências do Envelhecimento, realizado em abril na Universidade São Judas Tadeu (SP). Em sua explanação, o especialista falou sobre a vulnerabilidade e o acesso à saúde dessa comunidade 50+ que “saiu do armário”, muitas vezes tardiamente e com núcleos familiares constituídos. As informações foram baseadas em sua pesquisa e tese de doutorado, feita online e confidencial com 7000 participantes, onde se concluiu, entre outras constatações, que “ser LGBT 50+ é um fator de risco para o acesso à saúde”.

“O LGBT 50 + convive com dupla invisibilidade: ser idoso e pertencer ao grupo LGBT”, diz.  E acrescenta que esse estigma pode ser ainda mais amplo se somado à raça, escolaridade, renda entre outros fatores. De acordo com o doutor, o preconceito, a solidão, a violência e a falta de redes de apoio que o acolha, provocam um estresse físico e emocional, gerando sérias doenças como depressão, ansiedade, distúrbio do sono, hipertensão, diabetes etc. Há ainda, além disso, os que apresentam Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), como o HIV, tuberculose, hepatites virais entre outras.  “Nas pessoas trans, a dor é tão profunda que muitas vezes as levam ao suicídio”, lamenta o doutor Crenitte.

Outro dado muito importante levantado nesse estudo foi o acesso limitado à saúde, indo na contramão do envelhecimento ativo e saudável. “As pessoas LGBT 50+ realizam menos exames preventivos”, revela o doutor. Segundo a pesquisa, menos de 40 % das mulheres lésbicas ouvidas, tinham feito sequer uma mamografia.  

As barreiras

Milton Crenitte 1 papo reto 1Muitos são os entraves que dificultam a procura do público LGBT 50+ por um serviço de saúde. Há constrangimento em expor a sua orientação sexual e, de acordo com a pesquisa, a maioria não acredita que esses médicos tenham o preparo adequado para lidar com as particularidades da saúde LGBT 50+.  “É preciso investir em educação, capacitar esse profissional sobre diversidade, incluir o tema nas diretrizes curriculares das escolas, treinar os funcionários das unidades de saúde para uma comunicação acolhedora e digna”, argumenta o doutor. Para a população trans, o desconforto pode ser ainda maior ao procurar um serviço de saúde e precisar preencher formulários, usar o nome social e utilizar banheiros.

A pesquisa também tratou da finitude. Para 72% dos entrevistados, os amigos próximos seriam a sua maior rede de apoio no fim da vida; 36% procurariam seus parceiros (as); e 17%, a família.

Em março do ano passado foi inaugurado em São Paulo, pelo SUS, o Ambulatório de Promoção à Saúde e Envelhecimento para pessoas trans, travestis e não binárias a partir de 40 anos, com proposta multidisciplinar. O serviço oferece atendimento às pessoas que residem na área de abrangência do Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza e conta com Geriatria, Serviço Social, Nutrição, Fonoaudiologia, Enfermagem, Psicologia e Práticas Integrativas e Complementares em Saúde. (Telefone para informações: 11 3061-7721- Avenida Dr. Arnaldo 925, bairro Sumaré, São Paulo).

Enquanto isso, a sigla vai crescendo: LGBTQIAPN + (lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais, assexuais, pansexuais, não binários). E, novas cores vão se incorporando à bandeira. Rosa, azul e branco simbolizando a comunidade trans; amarelo (intersexo); e preto e marrom (antirracismo).

Os movimentos pela inclusão e representatividade da comunidade LGBTQIAPN+ têm que continuar, se fortalecer e exigir respeito.  Até porque...o arco-íris não tem fim.

 

Angélica Soller

Autor: Angélica Soller

Sobre o/a Autor(a) Angélica Soller é jornalista e relações públicas, proprietária da Angélica Soller Comunicação. Escreve sobre assuntos relacionados à longevidade saudável, empreendedorismo sustentável e “cases” de superação que sirvam de exemplo para transformar e fazer a diferença


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