Portões de um novo mundo

Portões de um novo mundo

Nos últimos três meses, tive o privilégio – ou cometi a loucura – de estagiar remotamente para uma ONG no Nepal. Digo loucura porque, entre meu time e eu, existia uma diferença de 9 horas e 45 minutos. Quando era de manhã aqui, era de noite lá, e vice-versa. Participei de várias reuniões que terminavam às sete da manhã, e seminários que começavam às dez horas da noite. O contato com o time era difícil porque raramente estávamos todos on-line, mas essa odisseia abriu meus olhos para um mundo que eu não conhecia.

Jornalista de formação, fui obrigada a ler muitas notícias nos últimos anos. Sempre estive muito interessada no que estava acontecendo além dos Estados Unidos e do Brasil, uma característica que um estágio que fiz, em 2021, na editoria Mundo, da Folha de S. Paulo, ajudou a alimentar. Durante meu tempo na Folha, li notícias sobre vários países e entendi o poder do jornal de influenciar como as pessoas veem e se comportam na sociedade – ideia que discuti na minha primeira coluna para 1 Papo Reto.

Mas nada até hoje havia aberto tanto meus olhos como estagiar na Global South Coalition for Dignified Menstruation (em português, Liga do Sul Global para uma Menstruação Digna), uma ONG localizada em Kathmandu, capital do Nepal, que trabalha para combater a discriminação menstrual no mundo. Muito além de ler sobre uma cultura, eu tive a oportunidade de vivê-la, entender seu dia a dia, sofrer e comemorar com ela.

Sem financiamento apropriado, com poucos voluntários, poucos funcionários e péssimo acesso à internet, a fundadora da ONG, Radha Paudel, comanda um movimento em mais de 25 países que busca fazer da dignidade menstrual um direito humano e objetivo de desenvolvimento sustentável da ONU para 2023. Radha largou tudo em sua vida para dedicar-se ao movimento. Ela me contou que tinha um trabalho prestigioso que deixou pra trás, e já foi ameaçada de morte por ousar falar sobre menstruação em seu país.

O Nepal tem uma tradição muito antiga de cabanas menstruais, onde meninas e mulheres são confinadas durante sua menstruação. Elas não podem tocar em comida, em nada, nem em ninguém. Não podem entrar em casa. Sua menstruação é considerada suja e indigna e amaldiçoada, e seu isolamento as faz mais suscetíveis a ataques de animais selvagens, picadas de cobras, e estupro. Tal prática foi determinada ilegal pelo governo local em 2005, mas continua presente em algumas regiões do país até hoje. Sua ideologia foi enraizada, e reduz mulheres ao status de inferioridade, levando meninas a perderem dias escolares por medo que seus colegas saibam que estão menstruadas.

1 papo reto Portoes de um novo mundoDe acordo com Radha, isso leva muitas delas a desistirem da escola, no geral, e serem submetidas ao casamento infantil (40% das meninas nepalesas casam antes dos 18 anos, segundo dados da organização Girls Not Brides). Para a fundadora, essa realidade era tão assustadora que, ao ter sua primeira menstruação, ela fugiu de casa por alguns dias. Não suportava a ideia de ser tratada como todas as mulheres em sua família.

E mesmo com muitos desafios, Radha cumpre sua missão. Seu movimento para a menstruação digna se expande a cada ano, ganhando seguidores e ouvintes. Durante meu estágio na Liga, não só aprendi muito sobre a discriminação menstrual e seus diferentes impactos em países ao redor do mundo, como mudei muito meu ponto de vista sobre o terceiro setor, relações de trabalho e meu entendimento sobre culturas.

Trabalhar em ONGs não é apenas fazer do mundo um lugar melhor, mas fazer dessa missão a sua vida. Num relatório que escrevi no fim do estágio, descrevi o trabalho como “passar por dificuldades por uma boa causa”. Apesar de ser super gratificante, o trabalho é extremamente frustrante em alguns momentos, especialmente no caso da menstruação digna, que ainda é uma pauta em crescimento. Existe muita politicagem envolvida desde o processo de arrecadar dinheiro até o de implementar mudanças, o que torna tudo muito lento e complicado.

Nunca imaginei que a relação de pessoas com a menstruação poderia ser tão rígida. Isso virou meu entendimento sobre o que é “ver o mundo” de ponta cabeça. Fazer parte de outra cultura não significa apenas usar outros temperos, falar outra língua, e viver coisas parecidas. Significa interpretar o mundo de uma maneira completamente diferente. Papel em branco. Até quando se trata de relações de trabalho, não existem muitas semelhanças. Nos Estados Unidos, fui “criada” para trabalhar de um jeito super frio, rígido, e perfeccionista.

Radha não tem espaço para isso. Com a agenda transbordando, sua rotina é um caos. Não tem ordem para nada. Ela faz tudo ao mesmo tempo. Esta é sua realidade, e apesar de ter muitos defeitos, ela faz tudo o que consegue fazer. Está sempre aberta para ajudar a todos, conversar, e promover sua causa. Operando a mil quilômetros por hora, ela ainda consegue ser amável, positiva, e compreensiva. Apesar de não falar muito bem inglês, ela não tem medo de escrever pesquisas acadêmicas e falar em palestras neste idioma, comandando um movimento global.

Radha me ensinou que nada é impossível, e me fez perceber que, enquanto meus vizinhos invejam gramas mais verdes, talvez, em outros lugares do mundo, pessoas invejam a falta de grama no jardim de seus vizinhos, e isso faz tanto sentido quanto o oposto do lado de cá.

 

Isabela Rocha
Author: Isabela Rocha
Sobre o/a Autor(a)
Isabela Rocha É jornalista freelancer nos Estados Unidos. Apaixonada por escrita, comunicação e justiça social, seu sonho profissional é trabalhar para o avanço da igualdade de gênero e do combate ao racismo. Ela acredita no poder democrático das notícias e sempre busca contar histórias relacionadas à diversidade para normalizar a vida de minorias sociais.
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