Raça, etnia e identidade: a necessidade norte-americana de categorizar (quase) tudo

Raça, etnia e identidade: a necessidade norte-americana de categorizar (quase) tudo

A academia da minha faculdade tem um galpão com três quadras de basquete. Em uma, jogam brancos. Em outra, negros. E em outra, asiáticos. Esse é um retrato muito comum da sociedade norte-americana, que sente a necessidade de categorizar e dividir as pessoas — ou quase todas elas — entre grupos étnicos e raciais. Ao se referirem a sua própria população nativa, os norte-americanos chamam negros de African-Americans (em português, africanos-americanos), asiáticos de Asian-Americans (em português, asiáticos-americanos), indígenas de Native-Americans (em português, nativos-americanos) e brancos de Americans (americanos). Já os “latinos” — aqueles nascidos nos Estados Unidos com pais, avós ou outros ascendentes que vieram de países da América do Sul — são chamados de Latinxs. Seu apelido não inclui “americanos”.

Por um lado, essa categorização contribui para ações afirmativas do movimento antirracista, deixando que indivíduos de grupos oprimidos se unam como grupo para ocupar o seu espaço. Por outro, ele separa a sociedade norte-americana como um todo, tornando-a um conjunto de tribos, como é o caso dos jogadores de basquete da minha universidade.

Como escreveu a cientista Lera Boroditsky, palavras moldam o jeito como vemos o mundo. O fato de que os únicos reconhecidos como “americanos puros” são brancos tira dos outros grupos a sensação de pertencimento, acolhimento e dificulta sua integração e convivência na sociedade. Como dar espaço para negros, asiáticos, latinos e indígenas em empresas, artes, escolas e universidades se seu próprio apelido os taxa como diferente do status quo?

Durante meu primeiro semestre aqui, disseram-me que eu era muito branca para ser latina. Fiquei pensando no que isso queria dizer. Era o jeito como eu agia ou a cor da minha pele? Para começar, tive que explicar várias vezes que eu sou uma mulher branca privilegiada em meu país, onde a única fonte de discriminação contra mim é o meu gênero. Mas a divisão racial nos Estados Unidos criou culturas muito diferentes entre seus indivíduos. Não existe uma cultura norte-americana em si.

Brancos, negros, latinos, asiáticos e indígenas falam diferente, comem comidas diferentes, vestem roupas diferentes e vivem vidas diferentes. São poucas as semelhanças que os unem como nação. Após quatro anos de faculdade, filiei-me ao “time” dos latinos, com os quais tenho mais afinidade.

asian american 1 papo retoProtesto de asiáticos, nos EUA (Creative Commons)

Apesar disso, sou muitas vezes jogada de escanteio em um grupo ainda mais estigmatizado: o dos internacionais. Mas isso é conversa para outro dia. O ponto é que, ao conviver muito tempo nessa sociedade, você mesmo compra a ideia de que é naturalmente diferente dos outros grupos. Passei a chamar os norte-americanos brancos de “ameribrancos”, uma espécie de autoafirmação e protesto.

Apesar de todos os defeitos, a categorização traz certas vantagens. No Brasil, a falta dela faz o racismo passar despercebido, implícito. São poucas as empresas ou escolas que param para contar “quantos de cada grupo” ocupam seu espaço. Já aqui, todo mundo conta e faz questão de cobrar aqueles que fingem não contar. Se a proporção é balanceada ou não, já são outros quinhentos. Mas a categorização permite que a desigualdade seja mais escancarada, inegável. Não tem como esconder.

Fico sempre com a dúvida na cabeça: melhor categorizar ou não? Não sei. Nenhum dos dois parece ter muitas vantagens. Racismo é racismo. Não existe jeito certo de solucioná-lo. Acredito que qualquer bom esforço contra a desigualdade social já é um passo na direção certa. Quem sabe um dia eu veja times mistos de basquete quando visitar a academia da minha faculdade. Só depende de nós.

 

*Crédito da foto de abertura: Smit Shah, Boston University Fitness & Recreation Center

 

Isabela Rocha
Author: Isabela Rocha
Sobre o/a Autor(a)
Isabela Rocha É jornalista freelancer nos Estados Unidos. Apaixonada por escrita, comunicação e justiça social, seu sonho profissional é trabalhar para o avanço da igualdade de gênero e do combate ao racismo. Ela acredita no poder democrático das notícias e sempre busca contar histórias relacionadas à diversidade para normalizar a vida de minorias sociais.
Mais artigos