Casinhas que mudam vidas

Olhando de longe, a edificação mostrada na foto acima bem que parece uma dessas mini casas tão comuns na Europa e nos Estados Unidos e que servem de residência temporária em camping. Aqui no Brasil, este tipo de construção é chamado de casinha, mas não como diminutivo de casa, mas sim um nome mais simpático para banheiro. Especialmente no interior do país.

E, pasmem, caros leitores, em pleno século 21, o tal banheiro ainda não está presente em todos os lares. Tampouco em escolas. Duvida? De acordo com o Censo 2010, realizado pelo IBGE, existem nada menos que 3.562.671 residências sem banheiro no país, o que representa 6,2% de todos os domicílios permanentes.

Este dado alarmante integra o capítulo das tristes estatísticas relacionadas à falta de saneamento básico que, em pleno século 21, ainda não foi universalizado no Brasil. O que é ruim, no geral, acaba se convertendo numa grande tragédia quando se analisa estes dados por unidades da federação.

De acordo com a pesquisa Síntese dos Indicadores Sociais, divulgada pelo IBGE, em 2015, a situação é ainda mais dramática em estados como Piauí, Maranhão e Acre, onde mais de 80% das residências não contam com sanitário de uso exclusivo (o popular banheiro).

Esse triste quadro vem mobilizando ONGs que cobram de agentes públicos a solução do problema. Algumas empresas também colocaram a questão do saneamento básico na lista de suas ações de cunho comunitário. Mais recentemente, tanto empresas quando ONGs passaram a incluir os estudantes neste desafio.

E uma das experiências neste campo é liderada pela subsidiária da americana Kimberly-Clark, criadora do projeto Banheiros Sustentáveis, que integra a campanha global Banheiros Mudam Vidas. A empresa envolveu estudantes de todo o Brasil, num desafio muito bacana: projetar e ajudar a construir banheiros de baixo custo e eficientes, do ponto de vista ambiental.

A falta de saneamento básico é apontado como o causador de doenças que estão extintas na maior parte do mundo, desde a década de 1950. A lista inclui cólera, desinteria, hepatite que continuam causando a morte de muitos brasileiros, especialmente crianças.

As primeiras unidades acabam de ser instaladas no povoado de Patos, situado no município de Milagres (MA), e no qual vivem 13 famílias. O trabalho contou com a participação de sete jovens universitários das áreas de administração e engenharia, que se reuniram durante um mês, em São Paulo, para elaborar o projeto.

Deste encontro resultou uma cartilha que funciona como uma espécie de guia para quem deseja replicar a ideia. 1 Papo Reto conversou com um deles, a graduanda em engenharia ambiental na Unesp, Carolina Sayuri Matsumoto, 24 anos, moradora de Mogi das cruzes (SP) que, apesar da pouca idade, é uma veterana em trabalhos de cunho social e comunitário. Tanto no Brasil quanto na Colômbia, onde participou de um intercâmbio social.

“Nossa solução é mais barata do que o banheiro convencional”

O que levou você a topar este desafio da KC?

Assim que eu li a chamada para o desafio (organizado pela Kimberly-Clark e Eureca!, especialista em recrutamento, em 2016), senti que tinha tudo a ver comigo e com a minha trajetória. Como engenheira ambiental, eu vi no projeto uma oportunidade de unir meu trabalho a um propósito, e a chance de causar uma transformação positiva real no meu país. Mas acho que o fator decisivo foi o `frio na barriga´ que me deu durante o processo seletivo, que me fez perceber o quanto era importante para mim e o quanto eu queria fazer parte do time.

Quais foram os parâmetros levados em conta na definição do projeto?

O desafio que nos foi dado era o de desenvolver uma solução de banheiro independente da infraestrutura de saneamento básico que fosse inovadora, simples e de baixo custo. Além desses critérios definidos pelo projeto, o time decidiu que a solução deveria respeitar as características e necessidades locais (utilizando materiais e mão de obra local) e ser autossustentável por meio do empoderamento da própria comunidade.

Esta Tecnologia Social é replicável em outras comunidades?

Sim. Um dos critérios que queríamos atender era o de que a nossa solução fosse escalável, já que a falta de saneamento básico é um problema que atinge milhares de pessoas no Brasil e no mundo.

Desenvolvemos o projeto com orientação de mentores, especialistas na área de saneamento e bioconstrução que nos prestaram aconselhamento durante o projeto. Além disso, tivemos os inspiradores (pessoas influentes nas áreas de saúde), o engajamento comunitário e o empreendedorismo social para nos motivar ainda mais.

Fizemos muitas pesquisas de soluções de saneamento no Brasil e no mundo. E quando definimos a tecnologia que iríamos utilizar (de banheiro seco, chamada Bason), fizemos uma visita a uma propriedade que já utilizava a técnica para podermos identificar possíveis melhorias.

Qual o valor para implantar uma unidade do tipo?

É possível construir nosso banheiro compostável com aproximadamente R$1,5 mil. Entretanto, este valor varia de acordo com a realidade local (custo dos materiais e da mão de obra, por exemplo). O que posso garantir é que nossa solução é muito mais barata se comparada a um banheiro tradicional ou até mesmo de fossa (asséptica).

É a primeira vez que você participa de iniciativas comunitárias?

Não, eu sempre gostei e estive envolvida em projetos voluntários e comunitários. Desde a escola eu participo de projetos sociais, como campanhas do agasalho e campanhas da fraternidade. Durante a universidade, não foi diferente. Na Empresa Júnior, trabalhei em um projeto de geração de renda para cooperativas de reciclagem. Trabalhei na AIESEC (ONG global que estimula o protagonismo jovem) desenvolvendo projetos de impacto social com jovens intercambistas. Fiz um intercâmbio social na Colômbia, em que fui voluntária em escolas e asilos. Organizei eventos de negócios de impacto social pelo Movimento Choice, do qual sou embaixadora. Participei do Projeto Oasis em um bairro carente de São Paulo, engajando a comunidade para revitalizar um espaço público de lazer. E em 2013, fui Rondonista e realizei atividades de desenvolvimento socioeconômico no interior do Pará, inclusive uma em que capacitamos a comunidade a construir fossas sépticas biodigestoras. Acredito que essa minha trajetória foi o que me preparou para o projeto da Kinberly-Clark.

SAIBA MAIS:

Sobre a campanha Banheiros Mudam Vidas

A técnica Bason, de banheiro seco