A gangue da pá, do ancinho… e da horta

Quem é: Ron Finley

Por que é importante: criou um dos mais exitosos movimentos de agricultura urbana do mundo, que está mudando o astral e melhorando a saúde dos moradores de áreas pobres de Los Angeles

Existem inúmeras formas de definir status do americano Ron Finley: gangster da jardinagem, guerrilheiro da jardinagem e jardineiro renegado, são algumas delas. Mas é a prevalência da ocupação ligada ao cultivo de flores, plantas, alimentos e frutos que evidencia porque ele se tornou referência do movimento de agricultura urbana, no mundo. Tudo começou em 2010, quando ele decidiu ocupar com hortaliças e flores uma parte da calçada em frente a sua casa, na região centro-sul de Los Angeles.

O ato rendeu a curiosidade dos vizinhos e uma ordem expressa da prefeitura para que ele removesse os elementos “estranhos à paisagem”, sob pena de multa e até prisão. Graduado em publicidade, Ron usou o conhecimento de mídia para botar a boca no trombone. Resultado: não apenas ganhou o direito de cultivar seu “jardim comestível” como também inspirou a mudança na lei que permitiu que todos os habitantes da cidades ocupassem espaços públicos com hortas e jardins.

A partir daí, não estava mais diante de uma ação solitária movida pelo desejo de consumir vegetais e frutas frescas, ato que lhe obrigava a dirigir por até uma hora, quando saía para fazer compras. É que esta região da Meca do Cinema sofre do que os estudiosos chamam de deserto alimentar. Trata-se de um conceito aplicado a áreas de uma cidade que não contam, num raio de até 400 metros a pé, com locais para adquirir vegetais e frutas frescas. “As pessoas deveriam aprender a valorizar as coisas que são, de fato, importantes como a alimentação”, disse em entrevista por Skype a 1 Papo Reto. “Plantar o próprio alimento equivale a produzir seu próprio dinheiro”.

Com isso em mente, ele fundou o Ron Finley Project (RFP) e fez sua base num terreno baldio desta área empobrecida de Los Angeles. As inúmeras reportagens em redes de TV e jornais de diversos países o transformaram num popstar da agricultura urbana. E é a partir deste reconhecimento que ele mensura os resultados da empresa social. “Não fazemos contabilidade das sementes plantadas ou da quantidade de vegetais e verduras colhidos”, destaca.

Horta da discórdia. A primeira área plantada por Ron Finley, em Los Angeles

As expressões gângster, guerrilheiro e renegado entraram no cardápio como uma forma de engajar os jovens, numa região marcada pela cultura hip hop. Mas, a ação de guerrilha tem mais relação com o fato de o Projeto ser tocado a partir de células. Além disso, ao longo da trajetória de sete anos do RFP, muitas batalhas têm sido travadas. Inclusive a da posse definitiva do terreno que serve de base para o projeto. Antes abandonada, a área acabou sendo alvo da cobiça de investidores do setor imobiliário. Mais uma vez, a porção marqueteira de Ron foi colocada em ação e a equipe de apoiadores, que conta com celebridades do mundo da música e do cinema, ajudou a arrecadar os US$ 500 mil necessários para sua aquisição, a partir de uma vaquinha virtual.

Questionado sobre o futuro deste projeto, Ron diz que será brilhante como a luz do sol. “Estamos espalhando nossa mensagem por todo o mundo e inspirando mudanças de atitude”, garante. “Conseguimos influenciar mudanças na postura alimentar de escola e os integrantes da geração milênio são nossos porta-vozes”. Afinal, na visão do gângster jardineiro, a alimentação saudável é um ato de rebeldia contra o sistema. “Por meio da alimentação você tem a oportunidade de definir o estilo de vida que você deseja. Então, por que deixar que o sistema determine isso por você?”.

Dito isso, fica a mensagem: plant some shit!

 

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