Brincando com consciência

Quem é: Jaciana Melquiades

Por que é importante: criou uma empresa de brinquedos destinada a resgatar a autoestima dos afro-brasileiros

Como boa parte das meninas, Jaciana Melquiades gostava de brincar de boneca. Mas sempre achou estranho não encontrar um brinquedo dessa linha com características físicas semelhantes às suas. Diante disso, o seu maior desejo, na época, era se transformar numa boneca. “Os modelos que faziam mais sucesso vinham vestidas com roupas e adereços representando profissões e atividades de destaque como modelo, médica, engenheira e advogada”, recorda. O tempo passou e a menina nascida e criada em Belford Roxo, então um bairro da periferia de Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense, se envolveu em inúmeras atividades.

Tornou-se mestre em história pela UFRJ, trabalhou muito tempo como educadora e despontou como uma ativista social ao ingressar no coletivo Meninas Black Power. Contudo, nunca deixou de estar ligada ao universo lúdico. Às 23h59 de domingo (18/6) acaba o período de captação de recursos de sua vaquinha virtual, por meio da plataforma Benfeitoria (informações aqui). Tudo indica que Jaciana conseguirá levantar os R$ 40 mil que precisa para instalar uma fábrica para a grife Era uma vez o Mundo.

Hoje, as bonecas de pano são feitas de forma totalmente artesanal, com o auxílio de costureiras autônomas. A unidade será instalada na hoje emancipada Belford Roxo e vai gerar 15 empregos diretos, além de permitir que a grife dê um salto expressivo em sua capacidade produtiva mensal: das 100 unidades atuais para mil; ganhando escala nacional. Demanda não falta. “Depois que minhas bonecas apareceram em reportagem de uma revista do setor de brinquedos, comecei a receber pedidos de quase todo o Brasil”, conta.

Contudo, Jaciana deixa claro que não pretende abrir mãos de seus valores. Por isso, está fora de questão atuar com redes de grande porte que utilizam apenas a lógica comercial, sem valorizar a importância dos brinquedos na construção da cidadania. “Meu foco são as lojas educativas que valorizam a história dos produtos”. Independentemente do resultado deste crowdfunding, a empresa que nascerá deste processo terá impregnado em seu DNA todas as vivências pessoais e profissionais, além dos sonhos, dessa carioca de 33 anos, casada com o também educador e sócio, Leandro Melquiades, e mãe do pequeno Matias, 3 anos.

Lázaro Ramos exibe boneco em sua homenagem

Apesar da longa carreira no ativismo social, pode-se dizer que Jaciana é uma empreendedora nata. Nunca desanimou diante de um revés. Tampouco se curvou às adversidades. Quando pensou em escrever livros educativos ouviu um rotundo não de todas as editoras que procurou. Resultado: fez a edição ela mesma, num sistema de produção semiartesanal. Hoje, não tem uma escola de educação infantil no Rio de Janeiro que não disponha de um exemplar de Erê, livro de pano lançado e 2014. Os 1,3 mil exemplares foram vendidos a partir de uma concorrência pública.

Mesmo já tendo cavado seu espaço no mundo dos negócios, a grife existe desde 2008, a dublê de empreendedora, educadora e ativista vem buscando qualificação técnica para desenvolver suas habilidades de gestão. Da mesma forma como valoriza os diversos níveis de saber, Jaciana também aposta em parcerias estratégicas. Uma das mais marcantes se deu com youtubers e personalidades da comunidade afro-brasileira, retratadas em versões da linha Dandara.

Essa sacada surgiu depois de uma experiência feita a pedido da empreendedora paulistana Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta e da Preta Multimídia, que encomendou a Jaciana, em 2016, uma fornada de bonecas representando as divas do samba. “Todas as pessoas para as quais eu entreguei a boneca, retribuíram com sorriso e emoção”, lembra. “Muitas delas me disseram que se sentiam realizando um sonho de infância”.

(Visited 83 times, 1 visits today)