Ele bota banca

Quem é: João Varella

Por que é importante: em plena era digital ele ajudou a requalificar a região central de SP, ao converter uma banca de jornal num ponto de venda de livros de pequenas editoras

A épica derrota da Seleção Brasileira para a Alemanha, pelo vergonhoso placar de 7X1, em 8 de julho de 2014, ainda faz corar a maioria dos brasileiros. O gaúcho João Varella, 32 anos, é um deles. Contudo, para ele, essa data evoca também um sentimento de vitória no campo empresarial. Foi graças ao placar elástico que sua pequena editora, a Lote 42, ficou conhecida em todo o planeta. Sem nenhum exagero. Para surfar na efeméride do jogo da Seleção, o jornalista e empreendedor bolou uma promoção ousada: cada gol da Alemanha renderia um desconto de 10% no acervo da loja virtual da empresa. “A cada gol eu sentia um frio na barriga”, recorda.

Ao final, o placar obrigou a Lote 42 a aplicar um desconto de 70% sobre o preço de capa. “Em poucas horas o estoque praticamente se esgotou”, lembra. “O prejuízo só não foi maior porque sempre mantivemos um número relativamente pequeno de exemplares no depósito”. O que deixou de ganhar naquele momento, no entanto, foi amplamente compensado pela repentina exposição na mídia mundial.

Na época, João ainda se dividia entre a revista IstoÉ DINHEIRO, onde escrevia sobre tecnologia, e o trabalho na Lote 42. Ao longo das semanas que se seguiram ao jogo, repórteres de emissoras de TV, de sites e de jornais acorreram à redação para entrevistá-lo e tentar entender o que o havia levado a fazer uma aposta tão ousada. “A partir daquele momento, eu percebi que poderia arriscar em me converter num empreendedor em tempo integral, deixando o jornalismo de redação”, diz.

O que era uma percepção se transformou em certeza absoluta três meses depois, quando João convenceu os sócios Cecilia Arbolave, sua mulher, e Thiago Blumenthal a comprar uma pequena banca de jornal na esquina das ruas Barão de Tatuí e Imaculada Conceição. Mas, como assim, investir num meio analógico em plena era da comunicação digital? Bem, esse foi o questionamento que ele ouviu dos sócios, dos colegas jornalistas, dos amigos… Em suma, de todos com os quais contava, eufórico, seus planos para aquele espaço.

Mais uma vez, João mostrou que tinha um faro apurado para negócios inovadores. Prova disso é que a Banca Tatuí ganhou, rapidamente, um lugar no roteiro cultural da cidade.

João e Cecilia/Divulgação: George Leoni

Contudo, para chegar neste ponto foi preciso trabalhar duro em duas vertentes. Primeiro com intervenções estrutural e arquitetônica (reforço do telhado para acomodar as bandas que se apresentam em festas temáticas) e a reconfiguração da parte interna que recebeu módulos de madeira de reflorestamento. Ah, sob a estrutura do teto foi pendurado um charmoso balanço. O forte da Banca, além do catálogo da Lote 42, são as obras de outras editoras independentes. “Conheço bem a dificuldade para quem está tentando se firmar neste mercado”, diz o empreendedor, livreiro, editor e cada vez menos jornalista. Mas sempre irrequieto.

Outra de suas tacadas foi a criação da Feira Miolos (se pronuncia miólos), que acontece na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo. Em sua terceira edição, em 2016, o evento reuniu representantes de 110 editoras do Brasil e da Argentina. João não revela quanto fatura nas diversas atividades nas quais está envolvido como empreendedor. Diz apenas que é o suficiente para que ele e a mulher Cecilia vivam exclusivamente do negócio. Thiago, por sua vez, saiu da Lote 42 para se concentrar na carreira acadêmica.

 

 

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